22 de mar de 2009

Eu e os meus exércitos

Eu e os meus exércitos - Dudinka, Omã e Vladivostok-

Os dados rolam sobre a mesa, vermelhos.
O barulho de impacto dos dados se metamorfoseia, em sons de disparos, em gritos de morte, no roçar das mãos luxuriosas de um soldado enlouquecido em busca de uma vítima.
Faço o movimento, sou o senhor da Ásia.
A Europa me espera, de braços abertos; quero marchar sobre Paris, quero pisar sobre cada pedra em Kurfurstendamm. Os amarelos tentam impedir meu avanço, mas eu não envergo essa farda de General à toa; os dados se chocam, casas vão pelos ares, famílias desterradas.
Moscou, Polônia, Iugoslávia, Suécia. Os balcãs e os nórdicos caem frente a máquina de dominação que cresce feliz sob a minha égide, as medalhas me condecoram sozinhas.

Na guerra, eu sou a verdade e a vida, minhas pecinhas voltam para a caixa, para o túmulo.
Minha sede é infinita, roendo e roendo; Os ictéricos refugiam-se na terra do Meio, não posso perdoa-los, já que me negam as jóias da Rainha.
Doce Europa, que é agora minha velha e condescendente prostituta.

África, Oceania, América, todas se dobram frente a chuva de fogo com que as presenteio.
Os dados rolam, sou o favorito da fortuna. Não há sob este céu, algo que seja capaz de me parar.
Sob minha palma enrugada está a esfera azul.
Agora eu me torno a Morte, a destruidora de Mundos.
O Jogo acaba, e a vida começa.

11 de mar de 2009

Cavaleiro Andante

Cavaleiro Andante ou Metáforas com gosto de material reciclado.

Sou uma bizarra espécie de cavaleiro andante, como tantos outros Quixotes que vagam por aí.
Não tenho Dulcinéia, nem Sancho; não tenho nem Espanha, nem México nem Camelot; tenho um Rio de Janeiro sujo e remelento às quinze pras sete da manhã. A minha armadura não é a prova de balas, assim como o coração que se esconde no peito.

Não sou herói nem anti-herói, no máximo uma pantomima atormentada de protagonista, sou habitué dos clichês, ah ! como sou. Meus dragões não são moinhos de vento, são imponentes ( ou empolados ) dragões do mais puro e tridestilado clichê, cujas baforadas de deuses ex machina mal colocados permeiam minhas histórias.

Ando, porque não tenho carro.
Ando, porque sou pobre.
Ando, porque a minha misantropia muito bem disfarçada me afasta dos ônibus.

No mirante da Niemayer, a cidade abre as pernas, uma puta barata e amada por um cavaleiro viajante; sou uno com a turba, com a miséria, com a riqueza, com a merda, com a cocaína.

Acordo num recanto católico, é hora de ir para a escola.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves