26 de fev de 2009

Vôo Livre

Vôo Livre




Introdução

Já não há a marcha, cambaleio...
Não me uso deste idioma, suspiro!
Sou o doutor, a doença, o paciente
e o prisioneiro,
Eis o novo mundo a que aspiro!
Tenho os olhos num repente como o tiro,
Sou o juiz, a culpa, o inocente,
Sou a verdade, a perna curta, o veredicto!


Vôo Livre

Ele sentiu vontade de pôr uma pipa no alto
E o imenso dividiu-se noutra linha do horizonte,
A forma que o astro assumia desenhava o que se esconde,
O papagaio inflamado resplandecia riso e salto!

E quem coser nos céus com esta linha brava,
Arriscando-se em arrebatar-se no que gravita e é trivial...
E se a tensão que a afina como harpa celestial desata,
A cor da pipa desbota e depois então apaga...

...Mas se aventura e decola o menino aterrissado...

E qual uma sinapse o vento camba rigoroso,
Em resposta manobra lépido o menino piloto!
É o pincel no céu intranqüilo em seu repouso,
É a travessia intangível que se empina até o pouso...

Pecha

I

Nasci na iniqüidade, na ironia e arruaça! O mátrio azul dos céus me veste, não me governa, mas me mata! Nos meus olhos retorcidos dá-se o indício do pecado, somos todos dele filhos e ao sacrilégio condenados. Nada nesse mundo foi de minha propriedade, até o meu ódio conservado, num estribilho de paixão e em carícias, foi furtado; sem restar o vinho e o pão.

II

Estas terras me trouxeram o céu pra perto,
Avivaram-me o langor da meia-noite.
Vi-me através do clarão – Estava certo!
Serei julgado e enforcado ao meio-dia.

E caio em síncopes cada dia mais fatais
De uma eficácia que corrói a carne fraca;
Vi-me através do festim dos imortais,
Tais como eu (com a carne bem mais forte).

Vesti a crina de uma besta absolvida
Que em vôo livre dançara no sangue alheio!
Foi todo o tempo o desperdício da minha vida...
Não fui a besta de ninguém, mas a minha própria!

Em assombros uivam vestidos de suas gangues
Meus inimigos, amigos – São os mesmos.
Eu sou o terrível que seguiu a lua minguante,
Hoje me seguem os chacais de outra espécie!

Oh, a diaba que ri e salga num sinal
De um sorriso que quer tudo menos rir!
Ela se estupra na candura de seu sal
Que engorda as lágrimas prestes a correr.


Diego Guerra

14 de fev de 2009

Metrô

Metrô

Subi esbaforido, o rosto suado da corrida.
Seis e vinte da manhã no Rio de Janeiro, os trilhos e o subúrbio passam por baixo dos meus pés, me perco na visão da cidade levantando para mais um dia, a alienação comum de quem ainda tem sono.

Alguém esbarra em mim interrompendo meu transe, muitos rostos se viram para olhar quando solto um muxoxo involuntário, então vejo uma face conhecida na massa, que ao perceber o meu olhar se esconde. Lembro da pele branca, das maças do rosto acentuadas, os olhos bem delineados pela maquiagem, o batom coral, mas o cabelo está diferente mais curto mais belo. Seu nome vem rápido, uma concatenação de cinco letras, pequenina, delicada.

A enxurrada de memória é sinestésica, todo toque e som voltam, sensações fantasmas em um estado de quase sonho. Quando dou-me por conta, as pessoas já estão saíndo, trocando para a outra linha, ela sai escondendo-se atrás de uma muralha de gente.
Uma determinação talvez vingativa me leva a ir atrás dela, desvencilhando-me de toda aquela gente que sobe em desespero. Toco-lhe o ombro, ela se vira, e antes de verificar qualquer reação meu corpo age :

- Oi.

O olhar que me encara é gelado, esquadrinha a minha figura rápidamente, só posso conjecturar o que se passa na cabeça dela, eis que toda a minha esperança é atingida por um impacto forte. Ela vira-se de volta para a direção da subida, e dá alguns passos pra frente; fico ali congelado por essa reação, enquanto pessoas sem face tomam os lugares correspondentes a distância entre eu e ela.