30 de jan de 2009

O Demônio Juvenil

O Demônio Juvenil


1- O Delírio Febril em Vermelho e Verde

Covarde e indefesa... Dobra o olhar, mente insana!
Eis aí tua proeza? Carne qual repulsa fria?!
E no "cerébrio", engano, desconforto em pele humana...
O asco fragrante (olfato), ou o fato dito
em lábios redondos.

São os dias, de fato, enfastiados dos contos...
O comprimento das pernas cálidas e a face escondida
Atrás de um sorriso de cabeça pra baixo,
Atrás de palavras calejadas, sem vida.
Sorriam de cabeça pra baixo,
lábios hediondos!

Luziu, vaga-lume sintético, luzes de outra noite,
Fez-se a lembrança da pose de nós dois nós cegos
Que desanda em desejos e oscila um repouso terno;
Que aponta o ponteiro sempre devoto ao doze.

Tremo, rosno, fico quente, transpiro bravo!
Lânguido, caio no lamento e no sono que não sonha...
Fatigado, lamento o momento que estou acordado...
Tremo e rosno como animal de rabo e de peçonha.


2- A Cria Adoecida, A falha, A Música

O pulso vibra como na idade rasteira
E a melodia sem nome acredita nesse dia.
Os traços de nanquim impecáveis
Se desfazem em tudo que me habitaria
E se aglomeram no desfecho de um cadáver
Ou num silêncio em prol da sinfonia.

Os últimos nunca foram os primeiros,
Os astros nunca leram o azar e a sorte.
Viverá jovem o amor dos selos nas cartas
Até que caiam os cabelos com a tinta
e com o corte.

Diego Guerra

24 de jan de 2009

Sophia

Sophia - poeira estelar -


- Sabia que os seus amigos acharam que eu era seu pai ?

- Fui eu que disse isso pra eles.

Aqueles olhos traquinas com a maquiagem borrada de choro, encarando-me sem desviar. Uma dor doce, quase um arrependimento.

- Você quer voltar pra casa?

- Já estou em casa.

Vestindo somente a lingerie preta, contrastante com a brancura do corpo. Admiro a beleza que roubei do berço de ouro, para prender ao orçamento de professor universitário.

- Café ?

- Bem forte, o melhor do mundo, o seu.

Sou um homem perdido, em meio as brumas vaporizadas de uma beleza jovem.

23 de jan de 2009

Juras/ Gole no gargalo

Juras

...Venha ver os novos astros num céu de novo janeiro!
A saliva é uísque e hoje é um dia inteiro...
Minha pátria, minha comida, meu dinheiro...
E as juras serão cumpridas, as compridas serão primeiro...

Cada beira de cais me conta as mesmas lendas,
Como colo de avó nos conta pra boi dormir em fazenda,
O cais tem meus pés mergulhados na maré magenta;
Lembro dele embriagado nos braços de alguma ciumenta.

Entoarei, em bosques brumosos do passado passado,
Desafinados, libertos, potentes e abertos, brados.
Com os braços abertos veja de perto os novos astros
E as compridas juras do sorriso comprido nos lábios.

Nos acordes menores derramarei minhas lágrimas,
Com a garganta esmagada numa arfada de lástimas,
Com o dedo médio no palmo e o amor entre as páginas,
Com o par de olhos na frase da despedida apática...

Venha ver os novos astros num céu de novo janeiro!
Venha dobrar o corpo em passos de dança pioneiros!
Minha pátria, minha comida, meu dinheiro...
Rosa cada vez maior, mais rosa e com mais cheiro.

E nos acordes menores derramados, excretados...
O novo janeiro e as juras comprimindo o sorriso nos lábios...


-2-Gole no Gargalo

Beijo
Trêmulo primeiro gole no gargalo
E nesse ensejo por aproveitá-lo
Faca que se amole, beiço que gargalho
Ofegante ante ao beijo dou-te a
Braços.

Beijo
Trêmulo centésimo gole no gargalo
Vibra de desejo, cessa quando falo
Suor molha e seca, cessa quando calo
Ofegante ante a abraços dou-te o
Beijo.

Diego Guerra

17 de jan de 2009

Procedimento Padrão 01

Procedimento Padrão 01 - Sobre emergências, paradoxos, revoluções e outras gambiarras -

Emergi da cabine ovóide, para um novo Sol.
Sob o alcance da vista, uma vastidão urbana, cidades de vários tempos em uma colagem criativa e ao mesmo tempo kitsch, pagodes coreanos dividindo a mesma rua com fábricas da Revolução Indústrial, um Reichstag com a bandeira sovética, um Reichstag moderno, símbolos e sinais que nunca vi, arquiteturas etruscas lado a lado com Art Nouveau, Graffitis ao invés de pinturas rupestres em paredes da idade da pedra expostas no meio de passagens, uma confusão de conceitos.

Chuva caía em alguns pontos, em outros corria da terra para as núvens, arcos de raios cruzando o ar, cheiro forte de ozônio; embaralhamento das percepções, sinestesia no sentido patólogico do termo.

Navegando nessas subjetividade, alcancei o que poderia se chamar de avenida, um corte reto, uma cicatriz no infinito. Por todos os lados, telas, papéis e rostos, lojas expondo deuses à venda, pedaços de espaço retráteis, celulares transtemporais, alfaces, toalhas, grimmsptizmas, jogervier, água. Tudo que podia ser encontrado ali estava, a disposição de quem pudesse pagar, trocar, vender, ou o serviço mais cabível.

Um conhecimento fujão escondeu-se em minha mente enquanto eu caminhava pelo distrito da Aparente Ordem, e traduziu-se em inglês :

- The End

Quando tentei prendê-lo, escapou veloz como uma bala, ou como um boswell jumping; deixou-me um presente, havia defecado mais uma frase :
- O Fim de que ?

O raciocínio lógico, outrora tão marcante traço meu, havia derretido em uma taça de manteiga de amendoim, aquela simples frase de um pensamento fugídio recusava-se a ser interpretada. Andei, mais e mais, tentado por prostitutas patrífórmcas, madrífórmicas e até mesmo as platônifórmicas, tentando manter um resíduo de sanidade. Um metro depois anoiteceu, e senti o estado de meia vida de uma noite afogado na loucura.

Literalmente, uma lâmpada acendeu-se sobre minha cabeça, energizando a conclusão que estava rastejando por baixo da minha pele. Alí era o Fim, o fim do Mundo, o Fim da Infância, o Fim do Universo.

Peculiarmente, um restaurante pairava sobre mim.

2 de jan de 2009

O Embaixador da Manhã

O Embaixador da Manhã - um delicado e atroz embuste -


Ele veio com o vento, roupas formais, hálito refrescante. O cabelo loiro era brilhante, bem penteado, seu sorriso de auto-confiança cativante. Todos apaixonaram-se por aquele estranho bonito, que se entitulava O Brilhante Embaixador da Manhã, Consultor de Assuntos Herméticos e Outras Pequenezas.

Caminhava pelas ruas da vila com desenvoltura, presenteando a todos com pequenas relíquias, esculturas de um homem crucificado. Almoçava e jantava cada dia em uma casa diferente, sempre polido e bajulador. Entre as suas manias estrangeiras, acendia um estranho bastão de fogo todo dia as seis de tarde, com o olhar pedinte vidrado no céu. Com o tempo todos da vila repetiam esse ritual, e uma floresta de pequenas chamas surgia de todos os cantos.

Certo dia, convocou a população para reunir-se na praça central, e contou-lhes uma longa e intrincada história, sobre outros Embaixadores da Manhã e sobre o Sol da Manhã, que era o ser que os enviava para as mais diversas localidades afim de estabelecer a paz entre os povos. Pediu aos moradores da vila que o ajudassem a erguer um marco, uma estátua, em honra da paz entre eles e o Sol da Manhã, o mesmo homem crucificado das pequenas relíquias, e mesmerizados pela fala suave não puderam recusar.

Uma festa foi realizada quando a coisa estava completa, fogueiras foram espalhadas por toda a rua principal, transformado-a em um corredor de luz. Risos, dança e música mantinham todos distraídos, a ponto de não ouvirem os estranhos roncos vindos do céu. O Embaixador sorriu, ao ver a enorme estrutura de metal voadora escondida nas núvens. Reuniu todos junto a praça central e disse as ultimas palavras que seriam ouvidas por aquele povo :

- Adeus, e muito obrigado.

Choveu fogo e luz, mas fogo que grudava na pele e luz que arrancava braços e pernas.
De volta ao colosso voador, junto a outros exatamente iguais a ele, foi felicitado pela aquisição de mais um território e enviado a próxima localidade.

Afinal, esse era apenas o trabalho dele.


Jean Felipe Limoeiro Gonçalves