29 de mai de 2009

Amorfo

Amorfo - estrofe do caos -

Hoje sou mas amanhã desconfio que não serei mais
Saltando de corpo em corpo, cavaleiro da carne
Um homem líquido feito só do pó e de cerne
Navegando no mar do oblívio sem cais

26 de abr de 2009

Ao som do trítono ou Canção de Anubis

Ao som do trítono ou Canção de Anubis



Café, para o possesso ter em suas meditações das mais oníricas a interrupção vil da vida,
recheando seu paletó escuro e atacando seus olhos como mal antigo.

Água do Nilo, quando vem o cão negro o tragar de frio e desconforto, no encalço de suas andanças mais terrificantes.

Deixou curtir seu ódio e libido nos piores dias de sua vida
Para em espasmos esquisitos enfrentar, no eleito o pior dia, o rio, e na pior noite...

Mijo, sangue, ácido, álcool:
Limpo o golpe sujo com todos esses líquidos mas a lágrima verte e meu rosto permanece seco – para a minha desgraça, pois gosto muito de sal.




Diego Guerra

12 de abr de 2009

Teoria das Supercordas

Teoria das Supercordas
- Fragilidade.-

Um passo claudicante aquém da lei
No Domínio das ídeias onde sou rei
Surge um acachapante conflíto
Tormenta mental que faz aflito

Versos tontos, escritos na parede mais externa do universo;
Que é opaca e transparente, partícula e onda resguardando o são do insano que reside no abismo do nada; ouço uma orquestra de cordas ressoar uma dissonância, violinos e harpas em luta, Sons canibais a engolirem uns aos outros.

Supercordas.
Vibram e vibram

J.

22 de mar de 2009

Eu e os meus exércitos

Eu e os meus exércitos - Dudinka, Omã e Vladivostok-

Os dados rolam sobre a mesa, vermelhos.
O barulho de impacto dos dados se metamorfoseia, em sons de disparos, em gritos de morte, no roçar das mãos luxuriosas de um soldado enlouquecido em busca de uma vítima.
Faço o movimento, sou o senhor da Ásia.
A Europa me espera, de braços abertos; quero marchar sobre Paris, quero pisar sobre cada pedra em Kurfurstendamm. Os amarelos tentam impedir meu avanço, mas eu não envergo essa farda de General à toa; os dados se chocam, casas vão pelos ares, famílias desterradas.
Moscou, Polônia, Iugoslávia, Suécia. Os balcãs e os nórdicos caem frente a máquina de dominação que cresce feliz sob a minha égide, as medalhas me condecoram sozinhas.

Na guerra, eu sou a verdade e a vida, minhas pecinhas voltam para a caixa, para o túmulo.
Minha sede é infinita, roendo e roendo; Os ictéricos refugiam-se na terra do Meio, não posso perdoa-los, já que me negam as jóias da Rainha.
Doce Europa, que é agora minha velha e condescendente prostituta.

África, Oceania, América, todas se dobram frente a chuva de fogo com que as presenteio.
Os dados rolam, sou o favorito da fortuna. Não há sob este céu, algo que seja capaz de me parar.
Sob minha palma enrugada está a esfera azul.
Agora eu me torno a Morte, a destruidora de Mundos.
O Jogo acaba, e a vida começa.

11 de mar de 2009

Cavaleiro Andante

Cavaleiro Andante ou Metáforas com gosto de material reciclado.

Sou uma bizarra espécie de cavaleiro andante, como tantos outros Quixotes que vagam por aí.
Não tenho Dulcinéia, nem Sancho; não tenho nem Espanha, nem México nem Camelot; tenho um Rio de Janeiro sujo e remelento às quinze pras sete da manhã. A minha armadura não é a prova de balas, assim como o coração que se esconde no peito.

Não sou herói nem anti-herói, no máximo uma pantomima atormentada de protagonista, sou habitué dos clichês, ah ! como sou. Meus dragões não são moinhos de vento, são imponentes ( ou empolados ) dragões do mais puro e tridestilado clichê, cujas baforadas de deuses ex machina mal colocados permeiam minhas histórias.

Ando, porque não tenho carro.
Ando, porque sou pobre.
Ando, porque a minha misantropia muito bem disfarçada me afasta dos ônibus.

No mirante da Niemayer, a cidade abre as pernas, uma puta barata e amada por um cavaleiro viajante; sou uno com a turba, com a miséria, com a riqueza, com a merda, com a cocaína.

Acordo num recanto católico, é hora de ir para a escola.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

26 de fev de 2009

Vôo Livre

Vôo Livre




Introdução

Já não há a marcha, cambaleio...
Não me uso deste idioma, suspiro!
Sou o doutor, a doença, o paciente
e o prisioneiro,
Eis o novo mundo a que aspiro!
Tenho os olhos num repente como o tiro,
Sou o juiz, a culpa, o inocente,
Sou a verdade, a perna curta, o veredicto!


Vôo Livre

Ele sentiu vontade de pôr uma pipa no alto
E o imenso dividiu-se noutra linha do horizonte,
A forma que o astro assumia desenhava o que se esconde,
O papagaio inflamado resplandecia riso e salto!

E quem coser nos céus com esta linha brava,
Arriscando-se em arrebatar-se no que gravita e é trivial...
E se a tensão que a afina como harpa celestial desata,
A cor da pipa desbota e depois então apaga...

...Mas se aventura e decola o menino aterrissado...

E qual uma sinapse o vento camba rigoroso,
Em resposta manobra lépido o menino piloto!
É o pincel no céu intranqüilo em seu repouso,
É a travessia intangível que se empina até o pouso...

Pecha

I

Nasci na iniqüidade, na ironia e arruaça! O mátrio azul dos céus me veste, não me governa, mas me mata! Nos meus olhos retorcidos dá-se o indício do pecado, somos todos dele filhos e ao sacrilégio condenados. Nada nesse mundo foi de minha propriedade, até o meu ódio conservado, num estribilho de paixão e em carícias, foi furtado; sem restar o vinho e o pão.

II

Estas terras me trouxeram o céu pra perto,
Avivaram-me o langor da meia-noite.
Vi-me através do clarão – Estava certo!
Serei julgado e enforcado ao meio-dia.

E caio em síncopes cada dia mais fatais
De uma eficácia que corrói a carne fraca;
Vi-me através do festim dos imortais,
Tais como eu (com a carne bem mais forte).

Vesti a crina de uma besta absolvida
Que em vôo livre dançara no sangue alheio!
Foi todo o tempo o desperdício da minha vida...
Não fui a besta de ninguém, mas a minha própria!

Em assombros uivam vestidos de suas gangues
Meus inimigos, amigos – São os mesmos.
Eu sou o terrível que seguiu a lua minguante,
Hoje me seguem os chacais de outra espécie!

Oh, a diaba que ri e salga num sinal
De um sorriso que quer tudo menos rir!
Ela se estupra na candura de seu sal
Que engorda as lágrimas prestes a correr.


Diego Guerra

14 de fev de 2009

Metrô

Metrô

Subi esbaforido, o rosto suado da corrida.
Seis e vinte da manhã no Rio de Janeiro, os trilhos e o subúrbio passam por baixo dos meus pés, me perco na visão da cidade levantando para mais um dia, a alienação comum de quem ainda tem sono.

Alguém esbarra em mim interrompendo meu transe, muitos rostos se viram para olhar quando solto um muxoxo involuntário, então vejo uma face conhecida na massa, que ao perceber o meu olhar se esconde. Lembro da pele branca, das maças do rosto acentuadas, os olhos bem delineados pela maquiagem, o batom coral, mas o cabelo está diferente mais curto mais belo. Seu nome vem rápido, uma concatenação de cinco letras, pequenina, delicada.

A enxurrada de memória é sinestésica, todo toque e som voltam, sensações fantasmas em um estado de quase sonho. Quando dou-me por conta, as pessoas já estão saíndo, trocando para a outra linha, ela sai escondendo-se atrás de uma muralha de gente.
Uma determinação talvez vingativa me leva a ir atrás dela, desvencilhando-me de toda aquela gente que sobe em desespero. Toco-lhe o ombro, ela se vira, e antes de verificar qualquer reação meu corpo age :

- Oi.

O olhar que me encara é gelado, esquadrinha a minha figura rápidamente, só posso conjecturar o que se passa na cabeça dela, eis que toda a minha esperança é atingida por um impacto forte. Ela vira-se de volta para a direção da subida, e dá alguns passos pra frente; fico ali congelado por essa reação, enquanto pessoas sem face tomam os lugares correspondentes a distância entre eu e ela.

30 de jan de 2009

O Demônio Juvenil

O Demônio Juvenil


1- O Delírio Febril em Vermelho e Verde

Covarde e indefesa... Dobra o olhar, mente insana!
Eis aí tua proeza? Carne qual repulsa fria?!
E no "cerébrio", engano, desconforto em pele humana...
O asco fragrante (olfato), ou o fato dito
em lábios redondos.

São os dias, de fato, enfastiados dos contos...
O comprimento das pernas cálidas e a face escondida
Atrás de um sorriso de cabeça pra baixo,
Atrás de palavras calejadas, sem vida.
Sorriam de cabeça pra baixo,
lábios hediondos!

Luziu, vaga-lume sintético, luzes de outra noite,
Fez-se a lembrança da pose de nós dois nós cegos
Que desanda em desejos e oscila um repouso terno;
Que aponta o ponteiro sempre devoto ao doze.

Tremo, rosno, fico quente, transpiro bravo!
Lânguido, caio no lamento e no sono que não sonha...
Fatigado, lamento o momento que estou acordado...
Tremo e rosno como animal de rabo e de peçonha.


2- A Cria Adoecida, A falha, A Música

O pulso vibra como na idade rasteira
E a melodia sem nome acredita nesse dia.
Os traços de nanquim impecáveis
Se desfazem em tudo que me habitaria
E se aglomeram no desfecho de um cadáver
Ou num silêncio em prol da sinfonia.

Os últimos nunca foram os primeiros,
Os astros nunca leram o azar e a sorte.
Viverá jovem o amor dos selos nas cartas
Até que caiam os cabelos com a tinta
e com o corte.

Diego Guerra

24 de jan de 2009

Sophia

Sophia - poeira estelar -


- Sabia que os seus amigos acharam que eu era seu pai ?

- Fui eu que disse isso pra eles.

Aqueles olhos traquinas com a maquiagem borrada de choro, encarando-me sem desviar. Uma dor doce, quase um arrependimento.

- Você quer voltar pra casa?

- Já estou em casa.

Vestindo somente a lingerie preta, contrastante com a brancura do corpo. Admiro a beleza que roubei do berço de ouro, para prender ao orçamento de professor universitário.

- Café ?

- Bem forte, o melhor do mundo, o seu.

Sou um homem perdido, em meio as brumas vaporizadas de uma beleza jovem.

23 de jan de 2009

Juras/ Gole no gargalo

Juras

...Venha ver os novos astros num céu de novo janeiro!
A saliva é uísque e hoje é um dia inteiro...
Minha pátria, minha comida, meu dinheiro...
E as juras serão cumpridas, as compridas serão primeiro...

Cada beira de cais me conta as mesmas lendas,
Como colo de avó nos conta pra boi dormir em fazenda,
O cais tem meus pés mergulhados na maré magenta;
Lembro dele embriagado nos braços de alguma ciumenta.

Entoarei, em bosques brumosos do passado passado,
Desafinados, libertos, potentes e abertos, brados.
Com os braços abertos veja de perto os novos astros
E as compridas juras do sorriso comprido nos lábios.

Nos acordes menores derramarei minhas lágrimas,
Com a garganta esmagada numa arfada de lástimas,
Com o dedo médio no palmo e o amor entre as páginas,
Com o par de olhos na frase da despedida apática...

Venha ver os novos astros num céu de novo janeiro!
Venha dobrar o corpo em passos de dança pioneiros!
Minha pátria, minha comida, meu dinheiro...
Rosa cada vez maior, mais rosa e com mais cheiro.

E nos acordes menores derramados, excretados...
O novo janeiro e as juras comprimindo o sorriso nos lábios...


-2-Gole no Gargalo

Beijo
Trêmulo primeiro gole no gargalo
E nesse ensejo por aproveitá-lo
Faca que se amole, beiço que gargalho
Ofegante ante ao beijo dou-te a
Braços.

Beijo
Trêmulo centésimo gole no gargalo
Vibra de desejo, cessa quando falo
Suor molha e seca, cessa quando calo
Ofegante ante a abraços dou-te o
Beijo.

Diego Guerra

17 de jan de 2009

Procedimento Padrão 01

Procedimento Padrão 01 - Sobre emergências, paradoxos, revoluções e outras gambiarras -

Emergi da cabine ovóide, para um novo Sol.
Sob o alcance da vista, uma vastidão urbana, cidades de vários tempos em uma colagem criativa e ao mesmo tempo kitsch, pagodes coreanos dividindo a mesma rua com fábricas da Revolução Indústrial, um Reichstag com a bandeira sovética, um Reichstag moderno, símbolos e sinais que nunca vi, arquiteturas etruscas lado a lado com Art Nouveau, Graffitis ao invés de pinturas rupestres em paredes da idade da pedra expostas no meio de passagens, uma confusão de conceitos.

Chuva caía em alguns pontos, em outros corria da terra para as núvens, arcos de raios cruzando o ar, cheiro forte de ozônio; embaralhamento das percepções, sinestesia no sentido patólogico do termo.

Navegando nessas subjetividade, alcancei o que poderia se chamar de avenida, um corte reto, uma cicatriz no infinito. Por todos os lados, telas, papéis e rostos, lojas expondo deuses à venda, pedaços de espaço retráteis, celulares transtemporais, alfaces, toalhas, grimmsptizmas, jogervier, água. Tudo que podia ser encontrado ali estava, a disposição de quem pudesse pagar, trocar, vender, ou o serviço mais cabível.

Um conhecimento fujão escondeu-se em minha mente enquanto eu caminhava pelo distrito da Aparente Ordem, e traduziu-se em inglês :

- The End

Quando tentei prendê-lo, escapou veloz como uma bala, ou como um boswell jumping; deixou-me um presente, havia defecado mais uma frase :
- O Fim de que ?

O raciocínio lógico, outrora tão marcante traço meu, havia derretido em uma taça de manteiga de amendoim, aquela simples frase de um pensamento fugídio recusava-se a ser interpretada. Andei, mais e mais, tentado por prostitutas patrífórmcas, madrífórmicas e até mesmo as platônifórmicas, tentando manter um resíduo de sanidade. Um metro depois anoiteceu, e senti o estado de meia vida de uma noite afogado na loucura.

Literalmente, uma lâmpada acendeu-se sobre minha cabeça, energizando a conclusão que estava rastejando por baixo da minha pele. Alí era o Fim, o fim do Mundo, o Fim da Infância, o Fim do Universo.

Peculiarmente, um restaurante pairava sobre mim.

2 de jan de 2009

O Embaixador da Manhã

O Embaixador da Manhã - um delicado e atroz embuste -


Ele veio com o vento, roupas formais, hálito refrescante. O cabelo loiro era brilhante, bem penteado, seu sorriso de auto-confiança cativante. Todos apaixonaram-se por aquele estranho bonito, que se entitulava O Brilhante Embaixador da Manhã, Consultor de Assuntos Herméticos e Outras Pequenezas.

Caminhava pelas ruas da vila com desenvoltura, presenteando a todos com pequenas relíquias, esculturas de um homem crucificado. Almoçava e jantava cada dia em uma casa diferente, sempre polido e bajulador. Entre as suas manias estrangeiras, acendia um estranho bastão de fogo todo dia as seis de tarde, com o olhar pedinte vidrado no céu. Com o tempo todos da vila repetiam esse ritual, e uma floresta de pequenas chamas surgia de todos os cantos.

Certo dia, convocou a população para reunir-se na praça central, e contou-lhes uma longa e intrincada história, sobre outros Embaixadores da Manhã e sobre o Sol da Manhã, que era o ser que os enviava para as mais diversas localidades afim de estabelecer a paz entre os povos. Pediu aos moradores da vila que o ajudassem a erguer um marco, uma estátua, em honra da paz entre eles e o Sol da Manhã, o mesmo homem crucificado das pequenas relíquias, e mesmerizados pela fala suave não puderam recusar.

Uma festa foi realizada quando a coisa estava completa, fogueiras foram espalhadas por toda a rua principal, transformado-a em um corredor de luz. Risos, dança e música mantinham todos distraídos, a ponto de não ouvirem os estranhos roncos vindos do céu. O Embaixador sorriu, ao ver a enorme estrutura de metal voadora escondida nas núvens. Reuniu todos junto a praça central e disse as ultimas palavras que seriam ouvidas por aquele povo :

- Adeus, e muito obrigado.

Choveu fogo e luz, mas fogo que grudava na pele e luz que arrancava braços e pernas.
De volta ao colosso voador, junto a outros exatamente iguais a ele, foi felicitado pela aquisição de mais um território e enviado a próxima localidade.

Afinal, esse era apenas o trabalho dele.


Jean Felipe Limoeiro Gonçalves