31 de dez de 2008

O Som da Água

O Som da Água ~Delírio ~

Quando acordei, senti vazio; ela não estava na cama, e o apartamento residia em um silêncio sepulcral, nem televisão, nem água cadente do banho demorado. A luz entrou devagar em meus olhos, seu armário estava aberto, as portas brancas como sinais convidativos, ao olhar deparei-me com a ausência das coisas que ali estavam noite passada; o vazio completo. Não havia sinal de outra pessoa no apartamento, até as fotos que tiramos, expostas em um quadro de aviso daqueles de imã, não estavam mais lá. Não foi preciso procurar muito, sobre a mesa diante da televisão na sala, uma carta, em papel vermelho e perfumado, como nas quais ela respondia minha remessa de poesias, quando éramos dois jovens arrogantes e cheios de planos.

Cada parágrafo é uma lâmina, frio e cortante, sucinto e para o meu terror, verdadeiro; minha mente, que nesses momentos constitui uma outra entidade dentro de mim, evoca a imagem do rosto pálido e delicado, sempre emoldurado pelos óculos de armação negra a delinear os olhos multicolores, e dos lábios articulando-se para explicar detalhes, sempre os detalhes, até agora.
Posso ouvi-la ditando cada palavra desta carta, como em um flashback de uma lembrança que não possuo, explicando as razões de sua fuga, o enfado da rotina de simplicidade que eu escolhera para encaixar nossa vida, e como eu havia me tornado uma vítima do meu próprio desejo de mundo perfeito; mea culpa, mas não completamente, se hoje estou aqui sentado nesse sofá, lendo e imaginando o momento da despedida, aparentemente estufado de complacência, alguém não fez o dever de casa. Sinto a quentura de lágrimas correndo, reação automática da terceira entidade do eu, o corpo; mas a tristeza que deveria ter inundado meu ser, ficou retida em algum ponto, no congestionamento de personalidades, na região primitiva onde ocorre o combate das entidades em mim.

Algum tempo depois, acordo sem ter consciência de ter dormido, com a carta na mão, a caligrafia, porém é a minha, e o papel não é vermelho e nem perfumado; no chão ao meu lado, marcas negras, presentes também em minhas mãos, o som da água do chuveiro corre, por cima do sofá vejo a porta do banheiro entre aberta; a água já encharca o tapete fora do banheiro, água rubra, como vinho.

Há algo em meu bolso, frio e cortante.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

28 de dez de 2008

Ruas Quadridimensionais - Redux -

Ruas Quadridimensionais - Redux -

Retorno mais uma vez, talvez para fechar um ciclo, a essas ruas da juventude. O bar onde fiz meu túmulo, os becos onde tornei-me homem, os cheiros misturados de vômito, perfume e chuva. Esquinas projetam sombras monstruosas, verdadeiros abrigos para memórias já esquecidas, que sem aviso retornam rasgando a fragilidade das construções que as substituiram.
A visão dos meus dias de infância desregrada forma um amálgama, um mar de Dirac onde boiam para naufragar os resquícios da sanidade. Posso sentir o gosto de cada gole, redivivo em minha garganta, a baforada de cada cigarro ganhando a noite a partir dos meus lábios, cada resvalar nas calçadas em desalinho, tempestade cerebral.
Sons emergem do ranger de dentes, canções que embalaram o passado. Estou em uma greta de tempo, onde os acontecimentos são regurgitados um por um; o palpável se confunde com o idealizado, e os referenciais estão a ponto de romper.
Sei que ao acordar só haverá o cheiro de éter e o onipresente esverdeado do quarto 1018, onde sou refém, da vida e da sociedade.
Para quem não tem futuro, resta reviver o passado.

Franz Kepler.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

Os Espinhos

Os Espinhos


Pinto cada descaminho meu,
Piso curvo, provoco sombra felina,
Pois felino sou em minhas telas.
E num descaminho, às mazelas,
Perdi-me sozinho – Era ela a menina! –
Que por ser a rosa
ostentava espinhos.

Foi o verão dos olhos
Em tardes sinuosas
Que trouxe uma rosa, triste, alegre, ria.
Só, ria, só ria de triste alegria!
Perturbei meu sono em noites perigosas
Onde dormiu a rosa
por sobre os espinhos.

Sonhos monocromáticos concebi sorrindo,
Dei-me assim por nobre protagonista;
Meu nome era o título do dia,
Minha rosa triste, alegre, ria!
(Todo mundo é louco ou artista)
Por não ter a rosa
beijo os espinhos.

Diego Guerra

7 de dez de 2008

Navegando

Navegando - o mar de vidro -

Adiciono a ultima folha de hortelã ao mojito, que balança junto com a escuna. Estamos lá, ouvindo a vidrágua estalar ao longo do casco, eu e ela; olhos cor de Whisky, uma sílfide morena.
Ela gosta de Sol, estabelece com ele uma relaçâo de simbiose, a luz ressalta os contornos adolescentes, vem a minha mente a cena da piazza em Lolita; o biquini verde, marca o corpo e transfigura-se em uma estrada para os meus olhos. Ela ali deitada rente ao convés, e eu debruçado sobre o caderno, desenhando em palavras um universo separado em cima de sua figura.
Essa estranha predileção vem da primeira, um aspecto comum entre os loucos na óptica freudiana; o desejo pela chama da adolescência, o ardor dos dezesseis anos entre os braços.
Descontrole; um metro e meio nos separam, assim como separam umbra e luz, ela acha cômico quando eu coço a barba, ou quando eu pego o violão e começo a improvisar uma nova canção, não sei porque, para mim são coisas tão corriqueiras quanto respirar. Não entendo o senso de humor dela, que é de uma volubilidade acachapante; ela acha graça nas coisas que eu faço, mas nunca naquilo que digo, eu nunca soube ser o rei da comédia, mas havia quem risse do meu sarcasmo.
Ela combina com o mar de vidro, não de forma lógica, mas em uma via de raciocínio intrincada que meu cérebro segue. Poderia dizer que ela é divina, mas a divindade é apenas uma farsa, ela é então natural, um resultado maravilhoso das pequenas complexidades.
Ela despreza a ralé, seu niilismo é de berço, gostaria de descobrir porque. Carrega consigo antipatia burguesa, o nariz erguido e o orgulho exacerbado, características que em outras pessoas me causa ojeriza mas que nesse ser onírico transforma-se em charme; é a verdadeira sedução do proletariado pela burguesia, a verdadeira hospedagem do opressor.
Nosso amor, é navegar num mar de vidro. Nosso amor, é luta de classes.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves.