29 de nov de 2008

Todas as Noites

Todas as Noites - estranha rotina-


Abro as janelas, você as fecha.
Vivemos na mesma casa, comemos o mesmo pão, dormimos na mesma cama. Porém, você é tão distante de mim, que chego a me assustar. Bons-dias frios, beijos em frações de segundo, até em um lado diferente da rua você anda, só para evitar de falar.
Não era assim, quando nos conhecemos naquele onze de julho em mil novecentos e noventa, tudo era diferente, você achava graça nas minhas piadas, gostava de conversar comigo sobre a vida, o universo e tudo o mais, e seu mundo não girava em torno de mulheres e entorpecentes líquidos de preços irrisórios, e principalmente você não andava por aí tomando sundae nos seios alheios.
Meu caro, tenho saudade de ti, um aperto no peito misto de decepção e pena.
Será que você vai me responder ? Porque falar no seu ouvido, como faço todas as noites parece não adiantar.

Felipe Jean Gonçalves Limoeiro.

25 de nov de 2008

Rosa

Rosa

Caso aqui estivesses, Rosa
Só haveria de ter prosa e não poesia
Mas como não é o caso
Choro no ocaso imensa agonia!

Por meus olhos cinzas
Vês, quando não’s fecho, que em rimas peço
Pela tua vinda – Caso cá estivesses:
Carne, ossos, vestes; não estaria o verso,

Restaria o beijo, calmo e amargo
Que inflama o trago e que o corpo camba
Cambalhotam astros
Que nos entreatos
Espiam teus passos pela corda bamba!

Diego Guerra

22 de nov de 2008

Rosa: Soneto Novo

Rosa: Soneto Novo



Minha poesia anda tímida e errática,
Lembra-me Ela, e o que fazem os Olhos ao rapaz.
Não olho nestes Olhos – Peco! Retomo esta paz
Na carícia que encontra o murmúrio nos lábios:
– Simpática, traz!

Traz as coisas efêmeras onde piso e me alicerço,
Pois isto é o privilégio do que me é Amor...
Sigo delirando os mesmos tons de cor:
Tua rosa, corpo, ardil... Não sei de certo,e sou.

Sou a luz noviça entremeando nossa própria pele.
Noto em teu rosto a eficácia dos crepúsculos,
Crepúsculos tão teus, tão teus que impelem
silêncio a música dos músicos...

A música aflora, num abraço, os arbustos;
O sangue corre gelado – Ainda assim vives–
Ó, céu nublado que me exige rir a todo o custo!

Diego Guerra

12 de nov de 2008

Vatel

Jean Baptiste François Vatel

A última lembrança que tenho da vida, a lâmina prateada que foi meu ponto final, e o atraso do peixe, para completar o jantar.

Purgatório para o suicida, a estase eterna imposta a quem antecipou o corte no novelo das nornas; estou acordado porém, em uma cozinha caiada de branco, uma macabra pilhéria, e sem dar-me conta do que faço, comando centenas, se não milhares de serviçais, todos de um branco imaculado que dói pensar que algo poderia sujá-lo. Panelas douradas sobre fogo verde, uma longa fila de pratos, o cheiro misturado de tudo que se pode matar para comer assado, vegetais colossais que transformam-se em saladas cujo formato imita alguma maravilha da Terra, uma cozinha divina, ou profana.

O corpo, vulgo eu, caminha e seus lábios não param, ora prova aqui, ora prova acolá, sinto somente um sabor distante do mesmo gosto de sangue na garganta. Massas, patos, carpaccios, mulheres, homens, quisera eu saber quem tem um apetite assim tão voraz, e tão variado; garçons alados executam rasantes sobre as mãos com as refeições prontas e rumam além, rumo ao horizonte alvo.

Vou onde a minha carne me leva, cada vez mais longe, atrás dos voadores. Uma porta enfim, de ir e vir, um medo abissal invade minha consciência, o barulho de mastigação infinito entrecortado por risadas selvagens, risadas agressivas, como que resultantes de uma piada de humor negríssimo, detém minha marcha.

Atrevo-me a controlar meu corpo durante um segundo, e vislumbro através do vidro circular sobre a porta, um ser enorme, disforme feito só de boca e sorriso de escárnio, sendo alimentado por aqueles homens alados um festim macabro e infinito.
Olho para baixo, em minhas vestes de cozinheiro há um escrito.

- Vatel, o cozinheiro de Deus.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves.

4 de nov de 2008

Alter-Ego

Alter-Ego
( Outros sob a tênue seda)

Sobre a escrivaninha, livros e livros.

Kafka, Dostô, Hesse, Eco, Vonnegut, Saramago, Marquez ; muitos, de idéias tão diferentes, no entanto tão alinhados sobre a mesma escrivaninha que parece até um pecado ( existirá o pecado ?) mudá-los de lugar. São outras vidas, que absorvi, e atreveria-me, as portas da esquizofrênia, dizer que estas parecem mais com a minha vida, do que esta própria. Porém, como sou pragmático e não gosto de clichês -mentira, eu gosto mas não admito- digo apenas que são vidas mais interessantes que aquela que levo.

Não é fuga, não é bengala. É só diversão, não exatamente a mais saudável e feliz.

Palavra não é cura, palavra é doença da mente
Ludwig van Beethoven é cura.
Palavra é um estado eterno, fervente
Música é espada, rasga e perfura.

Rima saudável, existe ;
Assim como deus.

Franz Fiódor Herman Umberto Kurt José Gabriel Ludwig Gonçalves.

3 de nov de 2008

Poesia por si

Poesia por si

[1] Versos Velozes

Transformá-la-ia em versos certeiros
Para respirar com decência nesse imenso,
Mas não posso. Nego,
Nego e me esfrego na falta de senso
da poesia
Que aprendi sentado aqui e hoje regresso.

Mas ainda a peço (nunca a suplicar),
Como dono da alma mais frágil
Que, espalhada em mim, faísca
E pisca num disfarce ágil...
É a poesia
Que em cada pupila traz mal presságio!

Um rizinho rasgo e me troco por ti,
Nos reflexos nas vidraças, e nas sombras,
teus traços...
Rabisco os teus rastos, te peço a suplicar!
No palpitar tão lasso, pus os dedos nos laços...
– Despi a poesia! –

É nos intervalos dos teus passos
que te denuncias.

[2] Ísis, o pseudônimo


Leves fazendas do oriente,
Peças alegres tatuadas num pairar!
Peço que me oriente;
Se zombo da vida,
Os vivos zombam meu zombar.
Salve, deusa destemida!

Surra meu calcanhar de Aquiles,
Sonha comigo sem aviso,
Cata por aí os cacos de Osíris;
Que te mata! Que te faz chorar o riso!
Os pés pelas mãos beijadas,
Que de tapas te suprem
E “ameninam” tua íris.

[3] Sem Título

A poesia é mulher
Por isso é A poesia
Vem das gargantas
Ventania
Sai destas ancas
E quem as quer
Traz o desejo
em sinfonia
A poesia é mulher
Por cima da caneta
E de suas lágrimas
azuis
Eu desenho
Nessas páginas
É o que seduz!
O que tenho?
A minha careta
A liberdade corroída
Por cima da caneta

Sinto dor de barriga
na minha cabeça.

Diego Guerra