31 de out de 2008

Fim de Outubro

O Fim de Outubro
(ou A falta que faz o diálogo)
Acompanho teus olhos, são fogos de santelmo, de cílios longos e sinto uma falta aterradora do teu afago, mal consigo lembrar da tua voz, e o toque da pele branca e fria há muito escapou da lembrança do meu tato.
Guilhotina do tempo, segue ceifando os dias e aumentando ainda mais, em um truque mórbido de fumaça e espelhos, a distância entre o eu e você. Costumávamos habitar um mundo assombrado pelos dêmonios, agora nem mesmo sombra há; existimos em camadas separadas, verdadeiras bolhas de ressentimento somatizado.
Quando escrevo, estabeleço ligações, mesmo quando escrevo sobre a desagregação, mas agora que inflei todos os laços até a fratura, não tenho mais caminho. Espero a violência, vejam só a falta que faz o diálogo.
Sou muitos homens, e todos eles no final são iguais.

- obra de ficção -
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

27 de out de 2008

O Vapor, A Flor e a Mulher...

O Vapor, A Flor, A Mulher...
Finda no princípio
O vapor tão detalhista
Queima a pele e molha o chão
Sem saber por que é quente
O vapor tão detalhista
É fumaça e impressão

Chora à manhã
A flor que abre os olhos
Encendeia toda prosa
Sem saber de sua beleza
A flor que abre os olhos
Hoje acorda como rosa

Deita nua no chão duro
A mulher tão delicada
E dorme, linda, imaginando
Sem saber que vira sombra
A mulher tão delicada
Sonha então com desencanto
Antonio Carlos Vilela

Avesso Profundo

Avesso Profundo
Trazei minha felicidade!
Que busquem as aves, girassóis
Contra tudo, especialmente, vento atroz

Serrai a mim, atrocidades!
Que minta p'ra si ou para o mundo
Pois que minta, felicidade

Em teu avesso, abismo profundo.
Antonio Carlos Vilela

Desagregação

Desagregação ou Quando perco-me dos laços
Momentos breves, insólitos.
Ao andar sobre paralelepípedos repetitivos,
Girar e girar e girar sem queda
A perda do Ego, a perda do Cogito, a perda do sum.

E todos que existem, vibram em uníssono
Não há morbidez, nem marginalidade romântica
Só eu, perdido dos nós que me guiam nesse asilo de cegueira branca.
aliás, nem sei se sou eu, pois este já se perdeu, ali no quarto verso.

Não é poesia, odeio poesia. nem é desconstrução.
é só desagregação.

- Sevlaçnog orieomil epilef naej ou não.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

23 de out de 2008

Dependência Lírica

Dependência Lírica
-I-
Não te deixam sorrir
Seus dois olhos abertos
Mas os dois entreabertos
Despertariam os lábios
E no teu morno hálito
poderias tossir teus risos
Foi o sorriso sobre os olhos
Mas não sobre os óculos
Da orelha só foram os brincos
E o par de cada cinco
dedos eram anéis
Primor, teus lindos pés
Que com cadarços se prendia
A maquiagem no rosto
Desbotou tua alegria
Mas estar triste agora
Até seria de bom gosto
-II-
O que sinto não rima,
O que sinto não dorme.
Quem tem isso não assina
E nem põe isso em estrofes.
-III-
Uma criança
Uma criança cabeçuda
De pensamentos solares
De corpo débil e elétrico
Seus olhos na cinza
tempestade
Crianças vivem ofegantes
Os olhos refletiram tudo
E apesar do barulho
sua alma era quieta
A paisagem dos cantos
A fertilização dos mundos

A mentira. O poder de mentir

O mar
Opressões estúpidas
Milagrosas cores
preenchendo o mundo
preto
e branco
A parte da língua
que percebe o que é doce
Uma criança que gira
E espera o dia
para esperar a noite.
Diego Guerra

22 de out de 2008

A Presença do Inimigo

A Presença do Inimigo
Os olhos azuis, por trás da máscara cinzenta fustigada pelo vento da estepe, a voz grave e baixa, calmaria arauta de tempestade.
Meu doce inimigo, de palavras incisivas porém vazias aos meus ouvidos.
Somos órbitas opostas, vejo a cada momice que faz, e pressinto que nossos debates seriam infindáveis se por acaso nosso ódio nos permitisse falar.
Somos mundos opostos, e nossas armas são mais fortes que a espada, partilhamos muitos aspectos mas por fim resume-se a uma questão de alianças.
Aquele que vencer, trabalhará com a eloquência.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

21 de out de 2008

Ode Ao Livre Arbítrio (1)

Ode Ao Livre Arbítrio (1)
Jeans, cigarretes. Pegue tudo e arremesse
Ali, onde se cruzam as estradas, deve haver um obelisco
Caronas, botas e a desilusão amorosa de um bastardo,
Fermente tudo com blues e você terá a marginalidade americana
Sempre esta, sempre a mesma, boa, má e feia. Magnífica...
Para mim pelo menos, mas guarde o segredo, posso ser chamado de
Demônio, de assassino, ou pior! Neoliberal! Deus me livre...
Melhor guardar segredo,
Nossa sociedade, que respeita a livre expressão
Pode não gostar.

Por isso o mal cativa,pois enquanto o bem se renova,o mal
Faz as mesmas coisas todo dia, sob diferentes mascaras o mesmo
Personagem.
Por isso este ódio a tudo que vem de lá, ou o que convém odiar
Porque queríamos é ter tudo que o individualismo deu a eles
Que o fétido altruísmo imposto nos negou. (e que agora nega a eles também)
Evandro Sussekind

19 de out de 2008

Quando o Vinho Era Poesia

Quando o Vinho Era Poesia
Espero do céu noturno as estrelas
E do diurno frondosas nuvens negras,

Da rubra rosa espero os espinhos;
Da rubra alma os mais lascivos carinhos.

É roda gigante pros felizes e pros tristes o
moinho...
- Levanta a âncora de teu olhar sozinho!
Perca-o nos mil chamarizes!..
São os vitrais em seus matizes que te
trazem as estrelas,
Mas amanhã, a manhã não trará nuvens negras,
Pois o sol é flautista e se erguerá da esquerda!

Conto cento e trinta passos no caminho
Sob o céu sobre tela de vermelho-marinho.

Da rubra rosa espero a roseira;
Da rubra alma a curta vida inteira!

Dia, noite e seus semitons nas beiras...
O que é infinito: praias, dunas, areia
E colossos firmes do Egito,
Apodrece pelo próprio mito. O olhar sozinho,
Nos tempos que poesia era o vinho,
Encontra aqui companhia, ziegue-zague
e desalinho.

Diego Guerra

18 de out de 2008

Robes PIr²

Robes PIr²
Dinamicamente constante
É o dilapidar de um diamante
Que aqui se faz bem na fronte
Daquele que diz lapidar

Ao despejo eles chamam coleta
De lixo que é fonte certa
De toda esta grande merda
Que gentilmente se chama educar

Revolução do cone à francesa
Dogmas sobre o estado
A area desta garganta
Mede Robes PIr²
Evandro Sussekind

17 de out de 2008

Eles e Eu

Eles e Eu
Capote, diria que seus olhos são cor de cerveja escura vista contra a luz
Machado, que seus olhos são de cigana, obliqua e dissimulada
Bilac os endeusaria, Andrade os humanizaria
Camus e Sartre iriam se bater, discutindo se eles(os olhos) pertencem ao que é humano e,se de fato existe a natureza humana
Dirceu, já trocou Marília, pois seus olhos (os seus não os dela), diz ele, é inspiração para uma vida inteira, Uma vida inteira...
E eu?Ah, eu acho que posso te pagar um cinema, meia-entrada...
Rir de mãos dadas da luz da tela refletindo no crânio calvo da terceira fila
O amor, eu acho, não esta nas grandes obras, mas sim, nas grandes carecas.
Evandro Sussekind

Por Extenso

Por Extenso
Terceiro ano, três, ai é oitava, sétima...
Três mais oito é onze e tem os jardins, jardim um,dois,três,e o C.A
Onze mais três é catorze, trezentos e sessenta e cinco dias...
Arredondo para trezentos, sou de humanas, e tem as férias, matéria que não dei
Catorze vezes trezentos é quatro mil e duzentos
De sete as uma, no inicio menos, agora mais
Sete menos um é seis, seis horas,
Seis vezes quatro mil e duzentos é vinte cinco mil e duzentos
Vinte cinco mil e duzentas horas em frente ao papel e...

A. não pensei em nada para dizer aqui.

B. não sou um gênio ainda.

C. sinto-me bem.

D. NDA.
Evandro Sussekind

11 de out de 2008

Em Algum Lugar

Em Algum Lugar
Acordo, como quem dormiu durante mil anos, o corpo curvo pela dor, olhos que colados de secreção recusam-se a abrir e o gosto ácido no palato de um milênio de fome.
Sinto-me anacrônico, conforme pessoas passam a minha volta, envergam roupas que não conheço, em ruas que nunca vi, estou em um corredor de torres de cimento e mal chega aos meus olhos semi-abertos a luz do Sol e a bruma quase palpável que respiro fede a cigarro e gasolina.

Não lembro quem sou, porque sou ou de onde vim, surgi como a materialização de um súbito pensamento, aqui no cinza de uma enorme calçada, vestido com roupas diferentes de quem aqui habita; imagens de um naufrágio passam nos enormes monitores espalhados por todos os lados, talvez seja algo importante, poderia eu ter morrido no mar neste naufrágio ou simplesmente ter morrido quando saí para comprar cigarro ?

Cansa-me este exercício mental monotemático de conjecturar possibilidades, posso ter sido posto aqui por um deus, como uma espécie de desmemoriado salvador, para guiar os seres deste mundo em direção a um paraíso iluminado de louvor e bonança, mas não me lembro de ser assim tão egocêntrico ou mesmo de crer no absurdo de uma vinda divina.

Ser um bebê deve assemelhar-se a isto, nascer nu, ateu e sem nenhuma pretensão maior.
É isso ! Sou um bebê, adaptado a um novo mundo, filho de uma placenta invisível, um mundo de novas diretrizes e novos diretores, ou não.

É manhã, os raios do Sol fustigam meus olhos, o despertador canta sua ladainha monofônica, um banho quente seguido de café espera-me como em outras manhãs; as roupas limpas, passadas e dobradas esperam para serem vestidas; a televisão ligada espera para vitimar meu dormente consumismo.

Um passo para fora da janela ou um passo para fora da portaria do prédio e um novo dia tem seu início. A cada noite, sou outro. Em algum lugar.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves