11 de jul de 2008

Aniversário

Aniversário ou Negócios de Família.
A mesa de centro da sala,coberta por uma toalha de renda manchada de tantas festas tristes,copos meio cheios ou meio vazios de muitas cores,o bolo esfarelado dormindo sobre a forma prateada,papéis que envolviam os doces espalhados pela mesa,pelo chão e sob os sofás; reminiscências que invadem a memória,quando esforço-me para lembrar sobre festas de aniversário,logo bate uma estranha melancolia,a sensação de falta que jorra das lembranças ruins. Hoje, comemoram-se oitenta e quatro anos desde a primeira vez que o gemido de um bebê foi ouvido, que o sorriso dele aplainou as grandes diferenças de ego entre pai e mãe, hoje fazem oitenta e quatro anos que nasci em um planeta no qual não encontrei um lugar.
Sobre a mesa de centro que está diante de meus olhos,não há toalha usada milhares de vezes,não há bolo de chocolate para lambuzar os dedos,somente um café fumegante,uma garrafa quase vazia de água e o par de óculos que desde jovem acompanha minha jornada,o único tesouro remanescente de tempos mais amenos. Vi por trás destas lentes morrerem todos que amei,a cada década minha lista de convidados foi diminuindo,até hoje quando ela encontra-se vazia,deserta como vastas extensões da superfície desta esfera.
Sou um velho sozinho,em uma casa sozinha,sem crenças as quais entregar-me nem seres para poder verter um traço de dedicação; lembro dos olhos cinzas faiscantes de uma das minhas tias,olhos invejosos que instigavam o medo em gente de estômago fraco,lembro de minha mãe e sua candura envergonhada,os olhos mais azuis que já vi em uma mulher e lembro de meu pai,sisudo e de olhos negros opressores. Todos se foram,os jovens e os velhos,sobrei,em uma jogada cruel do acaso; não penso porém em dar fim a minha existência,talvez por isso comemore futilmente a cada ano esses meus aniversários solitários,sobrevivo como vivi,no silêncio da escrita.
Jean Felipe Golçalves Limoeiro

7 de jul de 2008

À Velha Musa

À Velha Musa
Tanta falta faz aquela sinfonia
Dentro de mentes jamais disformes
Agora travestida em velhos uniformes
Corre sonsa fingindo ser alegria

Tanta falta faz aquela velha musa
Dentro de canções, versos, poesia...
Agora encantada, sob fantasia,
Em cores invisíveis - um mundo que se cruza

Tanta falta faz toda aquela saudade
Dentro de refrões piegas, e abusa
Agora, mesmo que tão forte, tão confusa
Faça tanta falta. Que seja enfim sinceridade

Tanta falta faz aquele abraço
Por pura falta de criatividade
Por mais pura que seja minha saudade
Esboço esta ausência com o mais belo traço.
Antonio Carlos Vilela

5 de jul de 2008

Refrões Reescritos

Refrões Reescritos
- (1) Berlinda -
E raiva, em desordem, liberta os que a sentem; destrói tão arquiteta tudo que alcança o remetente. – O meu veneno é a solução que a torna pura. Para as dores do dia seguinte nunca hei de encontrar cura!
Os homens sós que dão por suas todas as ruas em afluentes, dão no remetente: Quem sempre salgou suas ranhuras.
Os homens sofrem o peso de olhares tão indesejáveis que se fazem engolir pelas gargantas dos que jazem a suportar seus corpos nessa sepultura. – Meus grunhidos sobre a solidão traçam as rugas que moldarão meus “sempre-sorrisos”, Onde todas as ruas dão!
- (2) A Ventura Desde o Cais -
No limiar da ilha, velejar!
O tempo sagrado, escorre! Geme!
A força de um só guia o leme!
A euforia oscila, e respirar
É o assomo de quem teme.
- (3) Suas Réplicas -
Enganou aqueles lábios com chocolate,
(Mas só outros lábios verídicos poderiam parear).
Acentuou o olhar para um sol verdadeiro,
(Não mais lampiões ou feixes o iriam replicar).
Tudo tão perpétuo, como se ninguém falasse,
Como se o mais completo e inteiro
Fosse tudo a me faltar(se já não faltasse).
- (4) Azul-clareou -
Distinto era o seu discurso
De azul, claro e escuro.
Por fim, cinza tornou-se o verde.
Chato era entender o puro,
Que distinção e discurso nunca teve.
- (5) [Sem Título] -

Sei desta cela a certeza que ela a é,
Como se antes do berço eu habitara o imenso;
Como se a verdade fosse visível em dezembro
E só a mim viesse visitar de barbas brancas e de pé.
Se sou digno de tê-la? Não. Confundo-a subitamente.
Mas gosto de dezembro pois é tempo de presentes
Diego Guerra