22 de mar de 2008

Outro Dia

Outro Dia

Quando a mão não tem mais tato
E os olhos não enxergam
Sou apenas eu, em meu teatro
Dos dois lábios que ressecam

À noite, quando a noite ainda é clara
Vejo a manhã que escurece
Aquilo arrasta em minha pele feito tara
Até que em fim nos olhos pálidos padece

Se chegasse outro dia
Quiçá eu soubesse desta vinda
Neste mar, o mar de alegria
Dos brilhos da noite mais linda
Os ponteiros apontam para todos os lados
E os fatos continuam sendo assim, consumados...

-Será que acordo n'outro dia?

Antonio Carlos Vilela

21 de mar de 2008

Quando Faço-te Rir


Quando Faço-te Rir

Sentindo seu rosto mudar
Mutação, sorriso pleno
Na calma, nas ondas de um mar
Ou nas garras de monstro a rosnar
Amigo, sorriso sereno

Suave, como abraços bem-vindos,
Como criança, como amigo...
Livre, como os lírios mais lindos,
Como os velhos abrigos

Sei que queres meus abraços
Quero aos teus também, sempre hei de querer
Sei que temes os acasos
Acredite, eu também hei de sempre os temer

Mas rio ou faço-te rir
Acredito que aquilo é amizade
E vejo teu riso partir
Daqui até a eternidade...

-És pra mim a mais bela das amizades.

Antonio Carlos Vilela

19 de mar de 2008

Descendência

Descendência
Descendo da vida esmagada...
Oh, profusão dos carrapatos mais belos!
Desperdicei nos tecidos mortos
Um sal que a carne estraga.
Os pés devolvidos aos chinelos,
Passeiam sempre, sempre tortos.
Um mundo inteiro me encarna
Na profundeza de quase dezoito invernos!
E se foi na escuridão dos olhos
Que fiquei doente, Oh, praga!
Praga de fenecer sob seis tetos!..
Se foi na escuridão dos olhos...
Fitar-lhe-ei imbecilmente na entrada
Que trouxe de volta os mais sinceros
Terrores dos velhos tecidos mortos.
Todas as mãos e suas taras
Adormecerão no olhar triste, eterno
O alívio de dois corpos.
Diego Guerra

18 de mar de 2008

Uma Estrofe

Uma Estrofe
Saberei mais que teu sorriso no rosto da fotografia,
Que se mantém aceso; ele cabe na estante.
É com o abraço, não com o beijo, que te esquivarias
Da súbita preguiça de amar já sendo amante.
Diego Guerra

Agonia

Agonia
Agonia que deveras sinto,
Livra-me do medo de sonhar ou não sonhar
Aos delírios dos beijos do absinto
Tira-me das grutas do penar ao recordar.

Recordar traz a mim o adormecer
Sabes disso, pois sei que já amou
Em tuas formas sob o lento amanhecer
O vento sóbrio tuas lágrimas levou

Vives tão forte, imensa, em tua mansão
Jogando raios e tempestades sobre meus abrigos
Deixas-me aqui, imerso, numa canção
Sobre tuas curvas, teus anseios e teus castigos.
Antonio Carlos Vilela

A Noite [1]

A Noite [1]
As baleias que planavam
Sobre os fios deste céu
São como vozes que calaram
O julgamento deste réu

Culpado,
Inocente...
Um mal soldado,
Incoerente.

O silêncio entre os becos
Esperava por sussurros,
As conseqüências de beijos secos
Esparramados pelos muros

As quimeras da madrugada
Resumiam-se em gárgulas
E as crianças já deitadas
Assustavam-se com fábulas

O poeta que escrevia
Sonhava agora em seu leito.
Não sabia se vivia
Ou se era imperfeito.

...
Antonio Carlos Vilela

3 de mar de 2008

[Sem título]

[Sem título]
Compreendo o valor de suas telas
No mais calmo e valioso tempo de admiração.
Algumas poucas portas que quando janelas
Deixam sobrar dos braços a muda emoção.

E com onze anos deu-se o corpo embarcado,
De - todos a bordo! - deu-se a cor dos olhos.
Não fui detentor de tudo quando acordado,
Assim mais eternizado no acaso dos meus sonhos!

Reina sobre o mar e na sombra
Das ondas do reino sobre o mar...
E, reinando, não estava lá entre as ondas,
Que, ocultadas nas sombras, desdobravam o luar.

Quando a noite chegou preferi o sol.
Quando a estafa de noite me tomou, reagi,
Reagi como a criança que vê crescer um girassol
Que não entende quem o planta e permanece ali.

Ignorei o amor que em uma taberna
Me trancafiou por anos. O brado tão soterrado
De odiar o pranto mal educado que o soterra
Na sede da vida eterna. E o artista que com o diabo

Aprende a sorrir seus xingamentos,
Sempre descendentes de um alienado,
Sujo, maculado, vestido qual o cimento:
Cinza e repleto de musgos melados.
Diego Guerra