25 de fev de 2008

Clausura

Clausura

As janelas desfazem-se
Uma a uma, caindo no chão
Esparramadas fazem-se
De portas, mortas, de solidão.

Os quadros discutem entre si
A respeito de mim
Recitando poesias, morrendo de rir
Manchando as molduras cor de carmim

Sob meu teto não há portas
Não existem muros, tampouco paredes
Apenas fantasias sobre coisas mortas

Além de meus desejos, fomes e sedes
Esta clausura é a máxima liberdade
O que alimenta a mentira e renega a verdade.

Antonio Carlos Vilela

Antônimos II

Antônimos II
Maldito Seja!

Às vezes percebo e entendo que sou um descontente vilão; insulto a Deus todo o tempo, sempre com uma pedra na mão. E quando era um saudável menino, sofria a injustiça dos que erguiam essas pedras... Hoje, que o ódio me é tão são, sou a outra face da moeda. Ser iluminado como ditavam as vovós... Na verdade fui amaldiçoado, ditava o feiticeiro atroz.
Querendo ser recompensado em troca de minha existência beática, tive meu trono trocado, E minha amada estava apática. Amei, com certeza, a todos os meus inimigos, antes de saber que eles os eram. Acostumei-me a ser vencido, ser aqueles que esperam. Os tesouros celestes não foram, a mim, reservados; contraí toda a peste de meus goles amargos. Meu carrasco orna meus ombros, dele estou rodeado. E se pequei em meus assombros, serei o réu mais condenado. Culpado! Iludido até o pescoço! Consegui tocar a alegria em carne e osso, mas estava inconsolável e com a doença do desgosto. Serei julgado com uma lágrima no rosto.
Não mereço algum respeito, tampouco exclamações sutis; Vou dizer que sou um louco e sorrir, sendo feliz.
Diego Guerra

Barca das Dez

Barca das Dez
Uma discreta escadinha convidava-me sempre
Ao frondoso e iluminado convés de proa,
Brumas do ar e do mar corroíam o casco de frente,
A palidez dos faróis evidenciava a garoa.

O negrume salgado era cruzado longe e dentre...
E eu calava o silêncio rindo. Transformada em pessoa,
Era a estátua devolvendo ao mar perene
As lágrimas salgadas de quem não perdoa.

A travessia fazia de cada olho humano
Uma religião. Nem o céu com seus astros
Sagrados indicariam minha posição, ou o plano
Em que estendiam-se os alvos rastros da embarcação.

Adoeciam meus ossos encarnando o sono,
O frio soprando do inferno nas janelas, cordas, mastros...
E o medo, como de cego, de saltar ao mar insano!
Nutria-me o calor da ilusão apesar do vasto inverno.
Diego Guerra

16 de fev de 2008

Insônia

Insônia

Rasgaria minhas cartas úmidas, de letras borradas
Com os mesmos dedos sujos da musa Insônia.
Tu que és aqui dentro de mim o som das badaladas
A canção dos olhos mortos de quem deita e sonha

Por tua causa mergulhei-me na crua realidade
Sem ter por onde sonhar, sem ter por onde sorrir
E há quem diga que são frutos de minha idade:
Meus anseios, meus prazeres, meus desejos de sumir.

Ah, se teu sorriso, oh, Insônia, fosse exposto!
Cada qual cairia nos penares do triste pensar
Ah, Insônia, poderias tu ter teu próprio rosto,

E assim os amores corrompidos torturar?
Grato a ti sei que sou, musa das noites de Lua
Sei que me olhas na janela, querendo que esta lágrima seja tua.

Antonio Carlos Vilela

5 de fev de 2008

Uma Menina

Uma Menina

No tempo, o vento parou de vez
Em tempos de nuvens delicadas
A tempo de ser por fim estupidez
Aos gritos amantes da bela madrugada

Nas noites em que sucumbo a lembrar
Da noite, sob estrelas em que confiei
A noite dos meus sonhos sobre o mar,
Os gemidos e os sorrisos que jamais esquecerei

Burlei minhas leis. Voei, fui aos céus!
Embriaguei-me com fumaças purpúreas
Nos tabuleiros insanos dos loucos chapéus

Exalei com vigor meus odores e fúrias
Dentro das ondas cinzentas de neblina
Chora perdida, inconsolável, uma menina.

Antonio Carlos Vilela

3 de fev de 2008

O Espetáculo Errante

O Espetáculo Errante
Cuspir fogo, cuspir vento.
A beber de ódio, para baforar intento
Engolir espadas retas e curvas
Admirar seu próprio reflexo em águas turvas


Trovões irrompendo sobre a lona do circo
O olho piscando! É um cisco, arisco
Palhaços e sua graça inflada de desgraça.

A cada Lua, uma cidade diferente;
A cada Lua, um mundo diferente.

Palavras vão e vem; dentro de ouvidos melados.

Chove, milho estourado
Chove, cérebro estiolado

Trovões irrompendo sob a lona do circo
O dente trotando! É um disco, com risco
Calhamaços de loucura fomentadas na trapaça

O homem rabisca o diagnóstico
A vida comum segue seu prognóstico
Os olhos humanos evitam a loucura
Como evitam do Inferno a fritura.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves