30 de jan de 2008

Sonho

Sonho

Oh, Sonho!
Meu portal amado, meu pior delírio
Abraçado pelos braços teus sou em vão
Um ser-vivo, sonhador, um homem são
Que vive das cicatrizes do martírio

O martírio
Que só em ti eu abomino, feito criança
Não me acorda. Prende-me aqui como passarinho
Que tenta voar de asas cortadas, sem um caminho
Por entre as árvores de tuas esperanças

Ah, esperanças...
Tão moças, ainda sorriam quando devastadas
Dentro de um sonho, um delírio, um pesadelo
Brumoso como cada lágrima de meu puro zelo
Pelas moças que pela morte foram visitadas

Visitadas
Foram muitas noites em que não esteve lá
Quando me vi só, de olhos abertos, a tua espera
Pensando quieto em envolver-me em tua esfera
Mas não apareceste, deixou-me ali a chorar

Chorar...
Parece que me acostumei. Sempre fui muito frágil
Precisei de ti por tanto tempo, apenas p’ra sonhar
Mudei tanto, virei homem, e fico aqui a fraquejar
Pois te amo, Sonho, cruel beijo noturno lento e ainda ágil.
Antonio Carlos Vilela

26 de jan de 2008

Um Soneto Para Mim

Um Soneto Para Mim
O resto de mim ficou para trás
Mesclado aos sonhos em que pude voar
Com a dama, valete, rei e o ás
Vendo num canto a fumaça transformar

Muralhas gigantes em puro pó,
Sorrisos e lágrimas em meras memórias
Deixando o cheiro amargo e só
Enquanto cavo aqui um poço de glórias

Bastaria por instantes sucumbir
Aos delírios do amor ou da insanidade?
Meu escudo maldito é saber rir

Quando fujo ou quando é pura verdade?
Desconheço meus olhos turvos
Tampouco os verdadeiros sorrisos curvos
(disfarçados de mentira que em chamas arde).

Antonio Carlos Vilela

O Gosto da Minha Voz [1]: Velório

O Gosto da Minha Voz
- I -
- Velório -


”Tratas de me cativar com sucesso,
Até quando digo que não há regresso.
Das realidades... Estou possesso!
Sorri sim, para o maior demônio desperto!”

Entre os de preto com pés silenciosos;
Membros de linho, sem pele ou ossos...
Deslizei-me ventando com os mais perigosos,
Seguindo o enterro dos vivos, dos mortos!

Meu ultimo delírio, este antes dela!
E ela eu seguia, gargalhando lágrimas de vela...
...Um abraço! Fogo! Noite às mazelas!..
O coração exposto deu-me lugar em sua cela!

“São lindas tuas garras; tuas falas de mentira!..
Teu toque, olhos; perfume amargo de mirra!
São lindos os dedos... Calada tu admiras...
Luzindo dedos no copo.” E os meus: retorcia!

Quase! Quase consigo capturar-me em restos.
Os momentos infantes, e risonhos, e certos
Não foram feitos, e não estavas perto!
Assassinato com veneno; em troca: corações abertos!

O gosto da minha voz, eu sei... Ignorado.
Gosto arranhado, cinza, desolado.
Vai corroendo em vícios os resquícios de meu rastro!
Meu ultimo delírio e o ódio declarado.
Diego Guerra

25 de jan de 2008

Verde

Verde
A ardência desce firme garganta abaixo.
Calor, um Sol particular a explodir-lhe as entranhas
Odor de Anis, sopra em seu hálito como uma dracônica baforada
E não tarda a trocar os pés e esquecer o nome das mulheres

Geme, canta, grita.
O Alcool em céleres torvelinhos corre o sangue
Metamorfoseia os humores em água de mangue
Oníricas companheiras, contradizendo o mito popular
Não vieram, o lúcido delírio visitar

Os companheiros vão ao chão
Sentindo o ósculo do cimento enchuvarado
A carícia fria da praça de calçamento enlameado
Estamos todos experimentando um paraíso de sensação

O Sol cobra seu preço, e temos areia e lama como os juros
de lembranças e não-lembranças.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

22 de jan de 2008

O Inverno Chegou

O Inverno Chegou

Faz quanto tempo que o inverno chegou?
Por que faz tanto frio aqui dentro?
Todas as rosas se foram e o Sol já cegou
E tudo agora é muito mais lento

A janela está entreaberta, dando vez ao céu
Tão cinza e fechado. E agora?
O quarto está vazio e rabiscado em um papel
Está frio aqui. É como lá fora.

Acolha-me, chão em que piso. Estenda as mãos
Quero uma porta nova, uma nova janela
De que adianta se as paredes são iguais ou não

Ainda sinto muito frio dentro desta cela
Fecho a nova janela e tranco então a nova porta
Aqui, sentindo frio e repetindo a mesma nota.
Antonio Carlos Vilela

13 de jan de 2008

O Lado Triste da Realidade

O Lado Triste da Realidade

Deitado no chão grita o homem
Rústico, pútrido, mal-amado
Olhando para as moças que somem
Canta aos prantos, o desafinado

Sem cama para abrigar os sonhos.
Seus trapos, cobertas, jornais
São seus amigos, ainda medonhos
Entre a eternidade e o frio matinais

Seus filhos também são filhos da solidão
Sonham, choram e até mesmo sorriem
Feliz ano novo! – desejo, levantando a mão

Que as vozes agudas jamais se silenciem
Para que um dia o espelho da sociedade apareça rachado
Para que cada ser humano dê vida ao que foi ignorado.

Antonio Carlos Vilela

9 de jan de 2008

Homens Tristes

Homens Tristes
Ouvi de uma amiga querida, que escrevo histórias sobre homens tristes
- de certo o são;
Homens cujos sonhos foram cruelmente extirpados por si mesmos, pela socidade ou pelo amor.
Só as mulheres são felizes em minhas crônicas pueris
Essa mesma pessoa perguntou-me a origem da melâncolia
respondi-lhe com uma brincadeira - Meu bem, só as mulheres são melancolicas
os homens sofrem em um nível mais primal, por isso vocês triunfam e nós morremos
Ela sorriu, vestindo uma máscara de ignorância
e disse-me - Jean, você pensa demais -
Assenti com a cabeça ;
sim, de fato ; sou um homem triste.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

7 de jan de 2008

Sorrindo na Tempestade

Sorrindo na Tempestade
Os seus passos eram compassos
Da melodia infante que cantarolou.
Por brotar acinzentada nas beiradas...
Para enviesar-se a tempestade que chegou!..
Tratou toda a corte do vendaval com descaso.

Tomou rumo das próprias entradas
E independendo-se assim, se perdeu.
Tempestade vil não se opunha;
Tratou-o como filho sacro, componente seu...
Ofereceu-lhe céus de mãos desatadas.

O sorriso distraiu-se da seriedade que dispunha
Para ser o sorriso adulto: estéril, sem dente.
Hordas dos breves pensamentos versificados
Carregados pelo vento em mexas anil sobressalentes...
Sorriso, sorrindo amparado com mãos de lascivas unhas.

– “Estarei nas oscilações dos astros!
Sorrindo na tempestade com euforia!
A tristeza familiar venta, advinda de todo o olhar!
Sorrindo na tempestade como não sorria,
Chegando a gargalhar ante ao ato, fato...

Por sorrir, a tempestade irá também me notar!”
Diego Guerra

Em Silêncio

Em Silêncio

Lembra do quarto das paredes ocas?
Foi ali que toda a dor me consumiu
Em silêncio, aos berros por mil bocas
Em transe, sem ação e a porta abriu

Foste brilho intenso na mata aberta
Uma certeza, uns sorrisos, foste luz
Fez-me abraçar de forma concreta
Aquilo que não passava de luzes azuis

Que saudades dos sorrisos teus,
Das covas que os seguem
Resta-me agora o eco de museus

Tão vazios até que pequem
E transbordem lágrimas das paredes
Matando meus medos, minhas sedes...
Antonio Carlos Vilela

1 de jan de 2008

Medo de Acordar

Medo de Acordar
Brincar de medo
Surrar o peito
Tremer os dedos
E é bem feito?

Um sonho, no escuro
Sonhar e sonhar
O sol nascerá então puro
Após o brindar

Não abro os olhos,
Não choro, não se pode.
O sonho é notório
Então choro, não me acorde

O medo cai
O chão se abre
O tempo vai
E já não cabe

Em todo o planeta
O oceano que criei
Só por medo,
Só por medo de acordar.

-Ainda assim, obrigado pelo sonho.

Antonio Carlos Vilela