31 de dez de 2008

O Som da Água

O Som da Água ~Delírio ~

Quando acordei, senti vazio; ela não estava na cama, e o apartamento residia em um silêncio sepulcral, nem televisão, nem água cadente do banho demorado. A luz entrou devagar em meus olhos, seu armário estava aberto, as portas brancas como sinais convidativos, ao olhar deparei-me com a ausência das coisas que ali estavam noite passada; o vazio completo. Não havia sinal de outra pessoa no apartamento, até as fotos que tiramos, expostas em um quadro de aviso daqueles de imã, não estavam mais lá. Não foi preciso procurar muito, sobre a mesa diante da televisão na sala, uma carta, em papel vermelho e perfumado, como nas quais ela respondia minha remessa de poesias, quando éramos dois jovens arrogantes e cheios de planos.

Cada parágrafo é uma lâmina, frio e cortante, sucinto e para o meu terror, verdadeiro; minha mente, que nesses momentos constitui uma outra entidade dentro de mim, evoca a imagem do rosto pálido e delicado, sempre emoldurado pelos óculos de armação negra a delinear os olhos multicolores, e dos lábios articulando-se para explicar detalhes, sempre os detalhes, até agora.
Posso ouvi-la ditando cada palavra desta carta, como em um flashback de uma lembrança que não possuo, explicando as razões de sua fuga, o enfado da rotina de simplicidade que eu escolhera para encaixar nossa vida, e como eu havia me tornado uma vítima do meu próprio desejo de mundo perfeito; mea culpa, mas não completamente, se hoje estou aqui sentado nesse sofá, lendo e imaginando o momento da despedida, aparentemente estufado de complacência, alguém não fez o dever de casa. Sinto a quentura de lágrimas correndo, reação automática da terceira entidade do eu, o corpo; mas a tristeza que deveria ter inundado meu ser, ficou retida em algum ponto, no congestionamento de personalidades, na região primitiva onde ocorre o combate das entidades em mim.

Algum tempo depois, acordo sem ter consciência de ter dormido, com a carta na mão, a caligrafia, porém é a minha, e o papel não é vermelho e nem perfumado; no chão ao meu lado, marcas negras, presentes também em minhas mãos, o som da água do chuveiro corre, por cima do sofá vejo a porta do banheiro entre aberta; a água já encharca o tapete fora do banheiro, água rubra, como vinho.

Há algo em meu bolso, frio e cortante.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

28 de dez de 2008

Ruas Quadridimensionais - Redux -

Ruas Quadridimensionais - Redux -

Retorno mais uma vez, talvez para fechar um ciclo, a essas ruas da juventude. O bar onde fiz meu túmulo, os becos onde tornei-me homem, os cheiros misturados de vômito, perfume e chuva. Esquinas projetam sombras monstruosas, verdadeiros abrigos para memórias já esquecidas, que sem aviso retornam rasgando a fragilidade das construções que as substituiram.
A visão dos meus dias de infância desregrada forma um amálgama, um mar de Dirac onde boiam para naufragar os resquícios da sanidade. Posso sentir o gosto de cada gole, redivivo em minha garganta, a baforada de cada cigarro ganhando a noite a partir dos meus lábios, cada resvalar nas calçadas em desalinho, tempestade cerebral.
Sons emergem do ranger de dentes, canções que embalaram o passado. Estou em uma greta de tempo, onde os acontecimentos são regurgitados um por um; o palpável se confunde com o idealizado, e os referenciais estão a ponto de romper.
Sei que ao acordar só haverá o cheiro de éter e o onipresente esverdeado do quarto 1018, onde sou refém, da vida e da sociedade.
Para quem não tem futuro, resta reviver o passado.

Franz Kepler.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

Os Espinhos

Os Espinhos


Pinto cada descaminho meu,
Piso curvo, provoco sombra felina,
Pois felino sou em minhas telas.
E num descaminho, às mazelas,
Perdi-me sozinho – Era ela a menina! –
Que por ser a rosa
ostentava espinhos.

Foi o verão dos olhos
Em tardes sinuosas
Que trouxe uma rosa, triste, alegre, ria.
Só, ria, só ria de triste alegria!
Perturbei meu sono em noites perigosas
Onde dormiu a rosa
por sobre os espinhos.

Sonhos monocromáticos concebi sorrindo,
Dei-me assim por nobre protagonista;
Meu nome era o título do dia,
Minha rosa triste, alegre, ria!
(Todo mundo é louco ou artista)
Por não ter a rosa
beijo os espinhos.

Diego Guerra

7 de dez de 2008

Navegando

Navegando - o mar de vidro -

Adiciono a ultima folha de hortelã ao mojito, que balança junto com a escuna. Estamos lá, ouvindo a vidrágua estalar ao longo do casco, eu e ela; olhos cor de Whisky, uma sílfide morena.
Ela gosta de Sol, estabelece com ele uma relaçâo de simbiose, a luz ressalta os contornos adolescentes, vem a minha mente a cena da piazza em Lolita; o biquini verde, marca o corpo e transfigura-se em uma estrada para os meus olhos. Ela ali deitada rente ao convés, e eu debruçado sobre o caderno, desenhando em palavras um universo separado em cima de sua figura.
Essa estranha predileção vem da primeira, um aspecto comum entre os loucos na óptica freudiana; o desejo pela chama da adolescência, o ardor dos dezesseis anos entre os braços.
Descontrole; um metro e meio nos separam, assim como separam umbra e luz, ela acha cômico quando eu coço a barba, ou quando eu pego o violão e começo a improvisar uma nova canção, não sei porque, para mim são coisas tão corriqueiras quanto respirar. Não entendo o senso de humor dela, que é de uma volubilidade acachapante; ela acha graça nas coisas que eu faço, mas nunca naquilo que digo, eu nunca soube ser o rei da comédia, mas havia quem risse do meu sarcasmo.
Ela combina com o mar de vidro, não de forma lógica, mas em uma via de raciocínio intrincada que meu cérebro segue. Poderia dizer que ela é divina, mas a divindade é apenas uma farsa, ela é então natural, um resultado maravilhoso das pequenas complexidades.
Ela despreza a ralé, seu niilismo é de berço, gostaria de descobrir porque. Carrega consigo antipatia burguesa, o nariz erguido e o orgulho exacerbado, características que em outras pessoas me causa ojeriza mas que nesse ser onírico transforma-se em charme; é a verdadeira sedução do proletariado pela burguesia, a verdadeira hospedagem do opressor.
Nosso amor, é navegar num mar de vidro. Nosso amor, é luta de classes.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves.

29 de nov de 2008

Todas as Noites

Todas as Noites - estranha rotina-


Abro as janelas, você as fecha.
Vivemos na mesma casa, comemos o mesmo pão, dormimos na mesma cama. Porém, você é tão distante de mim, que chego a me assustar. Bons-dias frios, beijos em frações de segundo, até em um lado diferente da rua você anda, só para evitar de falar.
Não era assim, quando nos conhecemos naquele onze de julho em mil novecentos e noventa, tudo era diferente, você achava graça nas minhas piadas, gostava de conversar comigo sobre a vida, o universo e tudo o mais, e seu mundo não girava em torno de mulheres e entorpecentes líquidos de preços irrisórios, e principalmente você não andava por aí tomando sundae nos seios alheios.
Meu caro, tenho saudade de ti, um aperto no peito misto de decepção e pena.
Será que você vai me responder ? Porque falar no seu ouvido, como faço todas as noites parece não adiantar.

Felipe Jean Gonçalves Limoeiro.

25 de nov de 2008

Rosa

Rosa

Caso aqui estivesses, Rosa
Só haveria de ter prosa e não poesia
Mas como não é o caso
Choro no ocaso imensa agonia!

Por meus olhos cinzas
Vês, quando não’s fecho, que em rimas peço
Pela tua vinda – Caso cá estivesses:
Carne, ossos, vestes; não estaria o verso,

Restaria o beijo, calmo e amargo
Que inflama o trago e que o corpo camba
Cambalhotam astros
Que nos entreatos
Espiam teus passos pela corda bamba!

Diego Guerra

22 de nov de 2008

Rosa: Soneto Novo

Rosa: Soneto Novo



Minha poesia anda tímida e errática,
Lembra-me Ela, e o que fazem os Olhos ao rapaz.
Não olho nestes Olhos – Peco! Retomo esta paz
Na carícia que encontra o murmúrio nos lábios:
– Simpática, traz!

Traz as coisas efêmeras onde piso e me alicerço,
Pois isto é o privilégio do que me é Amor...
Sigo delirando os mesmos tons de cor:
Tua rosa, corpo, ardil... Não sei de certo,e sou.

Sou a luz noviça entremeando nossa própria pele.
Noto em teu rosto a eficácia dos crepúsculos,
Crepúsculos tão teus, tão teus que impelem
silêncio a música dos músicos...

A música aflora, num abraço, os arbustos;
O sangue corre gelado – Ainda assim vives–
Ó, céu nublado que me exige rir a todo o custo!

Diego Guerra

12 de nov de 2008

Vatel

Jean Baptiste François Vatel

A última lembrança que tenho da vida, a lâmina prateada que foi meu ponto final, e o atraso do peixe, para completar o jantar.

Purgatório para o suicida, a estase eterna imposta a quem antecipou o corte no novelo das nornas; estou acordado porém, em uma cozinha caiada de branco, uma macabra pilhéria, e sem dar-me conta do que faço, comando centenas, se não milhares de serviçais, todos de um branco imaculado que dói pensar que algo poderia sujá-lo. Panelas douradas sobre fogo verde, uma longa fila de pratos, o cheiro misturado de tudo que se pode matar para comer assado, vegetais colossais que transformam-se em saladas cujo formato imita alguma maravilha da Terra, uma cozinha divina, ou profana.

O corpo, vulgo eu, caminha e seus lábios não param, ora prova aqui, ora prova acolá, sinto somente um sabor distante do mesmo gosto de sangue na garganta. Massas, patos, carpaccios, mulheres, homens, quisera eu saber quem tem um apetite assim tão voraz, e tão variado; garçons alados executam rasantes sobre as mãos com as refeições prontas e rumam além, rumo ao horizonte alvo.

Vou onde a minha carne me leva, cada vez mais longe, atrás dos voadores. Uma porta enfim, de ir e vir, um medo abissal invade minha consciência, o barulho de mastigação infinito entrecortado por risadas selvagens, risadas agressivas, como que resultantes de uma piada de humor negríssimo, detém minha marcha.

Atrevo-me a controlar meu corpo durante um segundo, e vislumbro através do vidro circular sobre a porta, um ser enorme, disforme feito só de boca e sorriso de escárnio, sendo alimentado por aqueles homens alados um festim macabro e infinito.
Olho para baixo, em minhas vestes de cozinheiro há um escrito.

- Vatel, o cozinheiro de Deus.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves.

4 de nov de 2008

Alter-Ego

Alter-Ego
( Outros sob a tênue seda)

Sobre a escrivaninha, livros e livros.

Kafka, Dostô, Hesse, Eco, Vonnegut, Saramago, Marquez ; muitos, de idéias tão diferentes, no entanto tão alinhados sobre a mesma escrivaninha que parece até um pecado ( existirá o pecado ?) mudá-los de lugar. São outras vidas, que absorvi, e atreveria-me, as portas da esquizofrênia, dizer que estas parecem mais com a minha vida, do que esta própria. Porém, como sou pragmático e não gosto de clichês -mentira, eu gosto mas não admito- digo apenas que são vidas mais interessantes que aquela que levo.

Não é fuga, não é bengala. É só diversão, não exatamente a mais saudável e feliz.

Palavra não é cura, palavra é doença da mente
Ludwig van Beethoven é cura.
Palavra é um estado eterno, fervente
Música é espada, rasga e perfura.

Rima saudável, existe ;
Assim como deus.

Franz Fiódor Herman Umberto Kurt José Gabriel Ludwig Gonçalves.

3 de nov de 2008

Poesia por si

Poesia por si

[1] Versos Velozes

Transformá-la-ia em versos certeiros
Para respirar com decência nesse imenso,
Mas não posso. Nego,
Nego e me esfrego na falta de senso
da poesia
Que aprendi sentado aqui e hoje regresso.

Mas ainda a peço (nunca a suplicar),
Como dono da alma mais frágil
Que, espalhada em mim, faísca
E pisca num disfarce ágil...
É a poesia
Que em cada pupila traz mal presságio!

Um rizinho rasgo e me troco por ti,
Nos reflexos nas vidraças, e nas sombras,
teus traços...
Rabisco os teus rastos, te peço a suplicar!
No palpitar tão lasso, pus os dedos nos laços...
– Despi a poesia! –

É nos intervalos dos teus passos
que te denuncias.

[2] Ísis, o pseudônimo


Leves fazendas do oriente,
Peças alegres tatuadas num pairar!
Peço que me oriente;
Se zombo da vida,
Os vivos zombam meu zombar.
Salve, deusa destemida!

Surra meu calcanhar de Aquiles,
Sonha comigo sem aviso,
Cata por aí os cacos de Osíris;
Que te mata! Que te faz chorar o riso!
Os pés pelas mãos beijadas,
Que de tapas te suprem
E “ameninam” tua íris.

[3] Sem Título

A poesia é mulher
Por isso é A poesia
Vem das gargantas
Ventania
Sai destas ancas
E quem as quer
Traz o desejo
em sinfonia
A poesia é mulher
Por cima da caneta
E de suas lágrimas
azuis
Eu desenho
Nessas páginas
É o que seduz!
O que tenho?
A minha careta
A liberdade corroída
Por cima da caneta

Sinto dor de barriga
na minha cabeça.

Diego Guerra

31 de out de 2008

Fim de Outubro

O Fim de Outubro
(ou A falta que faz o diálogo)
Acompanho teus olhos, são fogos de santelmo, de cílios longos e sinto uma falta aterradora do teu afago, mal consigo lembrar da tua voz, e o toque da pele branca e fria há muito escapou da lembrança do meu tato.
Guilhotina do tempo, segue ceifando os dias e aumentando ainda mais, em um truque mórbido de fumaça e espelhos, a distância entre o eu e você. Costumávamos habitar um mundo assombrado pelos dêmonios, agora nem mesmo sombra há; existimos em camadas separadas, verdadeiras bolhas de ressentimento somatizado.
Quando escrevo, estabeleço ligações, mesmo quando escrevo sobre a desagregação, mas agora que inflei todos os laços até a fratura, não tenho mais caminho. Espero a violência, vejam só a falta que faz o diálogo.
Sou muitos homens, e todos eles no final são iguais.

- obra de ficção -
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

27 de out de 2008

O Vapor, A Flor e a Mulher...

O Vapor, A Flor, A Mulher...
Finda no princípio
O vapor tão detalhista
Queima a pele e molha o chão
Sem saber por que é quente
O vapor tão detalhista
É fumaça e impressão

Chora à manhã
A flor que abre os olhos
Encendeia toda prosa
Sem saber de sua beleza
A flor que abre os olhos
Hoje acorda como rosa

Deita nua no chão duro
A mulher tão delicada
E dorme, linda, imaginando
Sem saber que vira sombra
A mulher tão delicada
Sonha então com desencanto
Antonio Carlos Vilela

Avesso Profundo

Avesso Profundo
Trazei minha felicidade!
Que busquem as aves, girassóis
Contra tudo, especialmente, vento atroz

Serrai a mim, atrocidades!
Que minta p'ra si ou para o mundo
Pois que minta, felicidade

Em teu avesso, abismo profundo.
Antonio Carlos Vilela

Desagregação

Desagregação ou Quando perco-me dos laços
Momentos breves, insólitos.
Ao andar sobre paralelepípedos repetitivos,
Girar e girar e girar sem queda
A perda do Ego, a perda do Cogito, a perda do sum.

E todos que existem, vibram em uníssono
Não há morbidez, nem marginalidade romântica
Só eu, perdido dos nós que me guiam nesse asilo de cegueira branca.
aliás, nem sei se sou eu, pois este já se perdeu, ali no quarto verso.

Não é poesia, odeio poesia. nem é desconstrução.
é só desagregação.

- Sevlaçnog orieomil epilef naej ou não.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

23 de out de 2008

Dependência Lírica

Dependência Lírica
-I-
Não te deixam sorrir
Seus dois olhos abertos
Mas os dois entreabertos
Despertariam os lábios
E no teu morno hálito
poderias tossir teus risos
Foi o sorriso sobre os olhos
Mas não sobre os óculos
Da orelha só foram os brincos
E o par de cada cinco
dedos eram anéis
Primor, teus lindos pés
Que com cadarços se prendia
A maquiagem no rosto
Desbotou tua alegria
Mas estar triste agora
Até seria de bom gosto
-II-
O que sinto não rima,
O que sinto não dorme.
Quem tem isso não assina
E nem põe isso em estrofes.
-III-
Uma criança
Uma criança cabeçuda
De pensamentos solares
De corpo débil e elétrico
Seus olhos na cinza
tempestade
Crianças vivem ofegantes
Os olhos refletiram tudo
E apesar do barulho
sua alma era quieta
A paisagem dos cantos
A fertilização dos mundos

A mentira. O poder de mentir

O mar
Opressões estúpidas
Milagrosas cores
preenchendo o mundo
preto
e branco
A parte da língua
que percebe o que é doce
Uma criança que gira
E espera o dia
para esperar a noite.
Diego Guerra

22 de out de 2008

A Presença do Inimigo

A Presença do Inimigo
Os olhos azuis, por trás da máscara cinzenta fustigada pelo vento da estepe, a voz grave e baixa, calmaria arauta de tempestade.
Meu doce inimigo, de palavras incisivas porém vazias aos meus ouvidos.
Somos órbitas opostas, vejo a cada momice que faz, e pressinto que nossos debates seriam infindáveis se por acaso nosso ódio nos permitisse falar.
Somos mundos opostos, e nossas armas são mais fortes que a espada, partilhamos muitos aspectos mas por fim resume-se a uma questão de alianças.
Aquele que vencer, trabalhará com a eloquência.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

21 de out de 2008

Ode Ao Livre Arbítrio (1)

Ode Ao Livre Arbítrio (1)
Jeans, cigarretes. Pegue tudo e arremesse
Ali, onde se cruzam as estradas, deve haver um obelisco
Caronas, botas e a desilusão amorosa de um bastardo,
Fermente tudo com blues e você terá a marginalidade americana
Sempre esta, sempre a mesma, boa, má e feia. Magnífica...
Para mim pelo menos, mas guarde o segredo, posso ser chamado de
Demônio, de assassino, ou pior! Neoliberal! Deus me livre...
Melhor guardar segredo,
Nossa sociedade, que respeita a livre expressão
Pode não gostar.

Por isso o mal cativa,pois enquanto o bem se renova,o mal
Faz as mesmas coisas todo dia, sob diferentes mascaras o mesmo
Personagem.
Por isso este ódio a tudo que vem de lá, ou o que convém odiar
Porque queríamos é ter tudo que o individualismo deu a eles
Que o fétido altruísmo imposto nos negou. (e que agora nega a eles também)
Evandro Sussekind

19 de out de 2008

Quando o Vinho Era Poesia

Quando o Vinho Era Poesia
Espero do céu noturno as estrelas
E do diurno frondosas nuvens negras,

Da rubra rosa espero os espinhos;
Da rubra alma os mais lascivos carinhos.

É roda gigante pros felizes e pros tristes o
moinho...
- Levanta a âncora de teu olhar sozinho!
Perca-o nos mil chamarizes!..
São os vitrais em seus matizes que te
trazem as estrelas,
Mas amanhã, a manhã não trará nuvens negras,
Pois o sol é flautista e se erguerá da esquerda!

Conto cento e trinta passos no caminho
Sob o céu sobre tela de vermelho-marinho.

Da rubra rosa espero a roseira;
Da rubra alma a curta vida inteira!

Dia, noite e seus semitons nas beiras...
O que é infinito: praias, dunas, areia
E colossos firmes do Egito,
Apodrece pelo próprio mito. O olhar sozinho,
Nos tempos que poesia era o vinho,
Encontra aqui companhia, ziegue-zague
e desalinho.

Diego Guerra

18 de out de 2008

Robes PIr²

Robes PIr²
Dinamicamente constante
É o dilapidar de um diamante
Que aqui se faz bem na fronte
Daquele que diz lapidar

Ao despejo eles chamam coleta
De lixo que é fonte certa
De toda esta grande merda
Que gentilmente se chama educar

Revolução do cone à francesa
Dogmas sobre o estado
A area desta garganta
Mede Robes PIr²
Evandro Sussekind

17 de out de 2008

Eles e Eu

Eles e Eu
Capote, diria que seus olhos são cor de cerveja escura vista contra a luz
Machado, que seus olhos são de cigana, obliqua e dissimulada
Bilac os endeusaria, Andrade os humanizaria
Camus e Sartre iriam se bater, discutindo se eles(os olhos) pertencem ao que é humano e,se de fato existe a natureza humana
Dirceu, já trocou Marília, pois seus olhos (os seus não os dela), diz ele, é inspiração para uma vida inteira, Uma vida inteira...
E eu?Ah, eu acho que posso te pagar um cinema, meia-entrada...
Rir de mãos dadas da luz da tela refletindo no crânio calvo da terceira fila
O amor, eu acho, não esta nas grandes obras, mas sim, nas grandes carecas.
Evandro Sussekind

Por Extenso

Por Extenso
Terceiro ano, três, ai é oitava, sétima...
Três mais oito é onze e tem os jardins, jardim um,dois,três,e o C.A
Onze mais três é catorze, trezentos e sessenta e cinco dias...
Arredondo para trezentos, sou de humanas, e tem as férias, matéria que não dei
Catorze vezes trezentos é quatro mil e duzentos
De sete as uma, no inicio menos, agora mais
Sete menos um é seis, seis horas,
Seis vezes quatro mil e duzentos é vinte cinco mil e duzentos
Vinte cinco mil e duzentas horas em frente ao papel e...

A. não pensei em nada para dizer aqui.

B. não sou um gênio ainda.

C. sinto-me bem.

D. NDA.
Evandro Sussekind

11 de out de 2008

Em Algum Lugar

Em Algum Lugar
Acordo, como quem dormiu durante mil anos, o corpo curvo pela dor, olhos que colados de secreção recusam-se a abrir e o gosto ácido no palato de um milênio de fome.
Sinto-me anacrônico, conforme pessoas passam a minha volta, envergam roupas que não conheço, em ruas que nunca vi, estou em um corredor de torres de cimento e mal chega aos meus olhos semi-abertos a luz do Sol e a bruma quase palpável que respiro fede a cigarro e gasolina.

Não lembro quem sou, porque sou ou de onde vim, surgi como a materialização de um súbito pensamento, aqui no cinza de uma enorme calçada, vestido com roupas diferentes de quem aqui habita; imagens de um naufrágio passam nos enormes monitores espalhados por todos os lados, talvez seja algo importante, poderia eu ter morrido no mar neste naufrágio ou simplesmente ter morrido quando saí para comprar cigarro ?

Cansa-me este exercício mental monotemático de conjecturar possibilidades, posso ter sido posto aqui por um deus, como uma espécie de desmemoriado salvador, para guiar os seres deste mundo em direção a um paraíso iluminado de louvor e bonança, mas não me lembro de ser assim tão egocêntrico ou mesmo de crer no absurdo de uma vinda divina.

Ser um bebê deve assemelhar-se a isto, nascer nu, ateu e sem nenhuma pretensão maior.
É isso ! Sou um bebê, adaptado a um novo mundo, filho de uma placenta invisível, um mundo de novas diretrizes e novos diretores, ou não.

É manhã, os raios do Sol fustigam meus olhos, o despertador canta sua ladainha monofônica, um banho quente seguido de café espera-me como em outras manhãs; as roupas limpas, passadas e dobradas esperam para serem vestidas; a televisão ligada espera para vitimar meu dormente consumismo.

Um passo para fora da janela ou um passo para fora da portaria do prédio e um novo dia tem seu início. A cada noite, sou outro. Em algum lugar.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

30 de set de 2008

C'est Moi, La Bête

C'est moi, La Bête
Abertura - Em meio as tempestades
Dançar no meio das tempestades, vestido de besta
Depois de fenecer no enfado é o balsamo que resta
Que amaina o coração sensível para quem a vida
É senão um infinito e torpe pedido de guarida

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Estradas constroem-se falhas sob pés cansados
Paisagens parindo folhas sob os olhos estiolados
No espelho, mesmo à luz do Sol, ainda sou a Fera
Cujos dias são marcados pelo fim da Rosa à espera

Delírios refugiam suas delícias em invólucros anátemas
E destituído do real, afogo-me nestas viagens astenicas
Nenhuma Bela atravessa os portões do meu castelo
Sou alienado do todo, nada forma comigo um elo

Construções artificiais erguidas a minha volta
Nada fazem para esconder sua natureza de falta
Como se quisessem avisar como é fragil o meu mundo
Que nada nele tem substância, que tudo é falso e sem fundo.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

20 de ago de 2008

Não Sei Ao Certo

Não Sei Ao Certo
Falarei da coisa mais leve – e nem por isso tão livre – Que, pairando sobre a putrefação comum de cada coisa, me comove. A amizade. Atrelada a percepção única de um só:
mente, zinho, litário, terrado; enfim. A percepção do que encontro às cegas em mim mesmo – Vejo que eu somos a redefinição do que és, amigo. E então recordo os amigos debatendo as estéticas, gargalhando gagos, condenado ou absolvendo, avaliando a seus pesares; amigos vagando-lumes bem perto ou longe de si mesmos. – Se a brincadeira, até mesmo a de mau gosto, lhe convém, há de convir igualmente a mim. Por que o porquê, se a correta indagação é “por que não?” Por que não se temos o sim? Nossa boca é flexível, dada ao sorriso e ao bradar, tal qual ao ranger de dentes. Até o mais alegre mente, usando cada molar. Até mais! – alegremente, disse-me o amigo mais leve que o ar, e nem por isso tão livre.
Diego Guerra

2 de ago de 2008

Lamento viciado

Lamento viciado
Se é de dor que se grita
Grito de buscar
Estar só é o que busco
Em estar só sempre falho
É de solidão que sofro
E é de sofrimento que falo
Sofro de uma dor antiga
Se é de dor que se grita
Diego Guerra

11 de jul de 2008

Aniversário

Aniversário ou Negócios de Família.
A mesa de centro da sala,coberta por uma toalha de renda manchada de tantas festas tristes,copos meio cheios ou meio vazios de muitas cores,o bolo esfarelado dormindo sobre a forma prateada,papéis que envolviam os doces espalhados pela mesa,pelo chão e sob os sofás; reminiscências que invadem a memória,quando esforço-me para lembrar sobre festas de aniversário,logo bate uma estranha melancolia,a sensação de falta que jorra das lembranças ruins. Hoje, comemoram-se oitenta e quatro anos desde a primeira vez que o gemido de um bebê foi ouvido, que o sorriso dele aplainou as grandes diferenças de ego entre pai e mãe, hoje fazem oitenta e quatro anos que nasci em um planeta no qual não encontrei um lugar.
Sobre a mesa de centro que está diante de meus olhos,não há toalha usada milhares de vezes,não há bolo de chocolate para lambuzar os dedos,somente um café fumegante,uma garrafa quase vazia de água e o par de óculos que desde jovem acompanha minha jornada,o único tesouro remanescente de tempos mais amenos. Vi por trás destas lentes morrerem todos que amei,a cada década minha lista de convidados foi diminuindo,até hoje quando ela encontra-se vazia,deserta como vastas extensões da superfície desta esfera.
Sou um velho sozinho,em uma casa sozinha,sem crenças as quais entregar-me nem seres para poder verter um traço de dedicação; lembro dos olhos cinzas faiscantes de uma das minhas tias,olhos invejosos que instigavam o medo em gente de estômago fraco,lembro de minha mãe e sua candura envergonhada,os olhos mais azuis que já vi em uma mulher e lembro de meu pai,sisudo e de olhos negros opressores. Todos se foram,os jovens e os velhos,sobrei,em uma jogada cruel do acaso; não penso porém em dar fim a minha existência,talvez por isso comemore futilmente a cada ano esses meus aniversários solitários,sobrevivo como vivi,no silêncio da escrita.
Jean Felipe Golçalves Limoeiro

7 de jul de 2008

À Velha Musa

À Velha Musa
Tanta falta faz aquela sinfonia
Dentro de mentes jamais disformes
Agora travestida em velhos uniformes
Corre sonsa fingindo ser alegria

Tanta falta faz aquela velha musa
Dentro de canções, versos, poesia...
Agora encantada, sob fantasia,
Em cores invisíveis - um mundo que se cruza

Tanta falta faz toda aquela saudade
Dentro de refrões piegas, e abusa
Agora, mesmo que tão forte, tão confusa
Faça tanta falta. Que seja enfim sinceridade

Tanta falta faz aquele abraço
Por pura falta de criatividade
Por mais pura que seja minha saudade
Esboço esta ausência com o mais belo traço.
Antonio Carlos Vilela

5 de jul de 2008

Refrões Reescritos

Refrões Reescritos
- (1) Berlinda -
E raiva, em desordem, liberta os que a sentem; destrói tão arquiteta tudo que alcança o remetente. – O meu veneno é a solução que a torna pura. Para as dores do dia seguinte nunca hei de encontrar cura!
Os homens sós que dão por suas todas as ruas em afluentes, dão no remetente: Quem sempre salgou suas ranhuras.
Os homens sofrem o peso de olhares tão indesejáveis que se fazem engolir pelas gargantas dos que jazem a suportar seus corpos nessa sepultura. – Meus grunhidos sobre a solidão traçam as rugas que moldarão meus “sempre-sorrisos”, Onde todas as ruas dão!
- (2) A Ventura Desde o Cais -
No limiar da ilha, velejar!
O tempo sagrado, escorre! Geme!
A força de um só guia o leme!
A euforia oscila, e respirar
É o assomo de quem teme.
- (3) Suas Réplicas -
Enganou aqueles lábios com chocolate,
(Mas só outros lábios verídicos poderiam parear).
Acentuou o olhar para um sol verdadeiro,
(Não mais lampiões ou feixes o iriam replicar).
Tudo tão perpétuo, como se ninguém falasse,
Como se o mais completo e inteiro
Fosse tudo a me faltar(se já não faltasse).
- (4) Azul-clareou -
Distinto era o seu discurso
De azul, claro e escuro.
Por fim, cinza tornou-se o verde.
Chato era entender o puro,
Que distinção e discurso nunca teve.
- (5) [Sem Título] -

Sei desta cela a certeza que ela a é,
Como se antes do berço eu habitara o imenso;
Como se a verdade fosse visível em dezembro
E só a mim viesse visitar de barbas brancas e de pé.
Se sou digno de tê-la? Não. Confundo-a subitamente.
Mas gosto de dezembro pois é tempo de presentes
Diego Guerra

28 de jun de 2008

Etílica

Etílica
~ encontro-te no interior de uma lata de cerveja ~
Vai e volta ;
Mares infinitos dourados no interior de um pequeno recipiente
Sensações incríveis explodem para fora de um sonho incipiente
Somos todos escravos da rotina, o álcool nos liberta da vida
Peculiar, entrelaçadas em ódio esta rubra e estranha ferida

Viver ; e não existir.
Jean Felipe Limoeiro Golçalves

20 de jun de 2008

A Passagem

A Passagem
Descer por entre galhos
Subir mais uns degraus
E escrever poemas falhos...

E lá vêm mais andorinhas.
Antonio Carlos Vilela

19 de jun de 2008

Apagador

Apagador
~ the eraser ~

A chuva estourava devagar ao atingir o vidro, a pouca luz do sorumbático dia de inverno não era suficiente para iluminar o quarto em plenitude, na penumbra toda sorte de objetos espalhados, sobre a cama e sobre o chão, livros, cds, papéis rasgados e móveis revirados, claros sinais de uma luta aguerrida. O vazio porém conferia a cena uma placidez atípica, como se o silêncio do mundo ali estivesse concentrado a despeito da sala de estar contígua ao quarto emitir o barulho farto de conversa e televisão.
O chefe da família, homem conservador, feito todo de impostos pagos e whisky doze anos, surpreende-se ao olhar para aquela porta verde clara, com os dizeres ' Achtung ! Verbotten Welt ! ' escritos em uma placa branca de resina em formato de globo; ele não se lembra da presença de uma porta assim em seu apartamento de duzentos e trinta mil reais, nem mesmo da existência de um quarto no lado esquerdo do corredor.
A filha exemplar, faculdade de engenharia de produção, loira, falsa-moralista diverte-se ao assistir a um reality show inócuo na tevê a cabo de duzentos canais, mas ao ver o pai estático no corredor ergue-se do sofá e posiciona-se atrás de seu preceptor ; seu rosto se torce em uma expressão típica das garotas iguais a ela, em um misto de surpresa e nojo.
- Papai, desde quando temos essa porta verde horrível aí ?
A voz da filha desafoga o homem de suas indagações, ele meneia a cabeça negativamente
- Não sei, só reparei nela agora, é tão estranha, tão feia
A guisa de completar o raciocínio do pai, ela sussurra :
- Alienígena é a palavra.
Ambos detem-se ali, a frente daquela porta que não há, conjecturando sobre como ela poderia ter surgido de súbito.
Uma sombra desliza devagar para fora do apartamento através da janela da sala, os moradores da casa entretidos na porta não percebem a grande mancha negra; ela alcança a rua e vaga até encontrar um beco imerso na escuridão, se algum ser humano pudesse ver no escuro, avistaria o negrume transformar-se em um homem e se pudesse ouvir ultrasom ouviria este homem dizer :
- Mais um serviço feito, menos uma lembrança em cada mente.
Carros vão e vem nas ruas, expelindo fumaça e o homem que é sombra perde-se nas multidões automotobilísticas no fim de tarde de uma grande cidade.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

14 de jun de 2008

Beatriz III - Triunfante -

Beatriz III
- Triunfante -
Persegue-me inconsciente, um delicado fantasma
Uma revoada de folhas rosáceas adocicadas
Provoca-me doença tácita, psicológica asma
No encontro dos olhos reações petrificadas

Minhas visões dementes, danças ao invés de andar
Cada passo teu traga para si a cor do mundo
Auroras refletem-se no encanto do teu olhar
És a flecha alojada em meu ferimento mais profundo

Tudo é vazio, entre nós a redoma vítrea se intepõe
Raios de Luz são seus cavaleiros, outonal princesa
Teus iguais erguem-se, venenosos e ferinos guardiões
Sou sentenciado ao anti-paraíso de invernal tristeza

Grito teu nome em sonhos até a exaustão das cordas vocais
Como se de tuas oníricas visôes pudesse atenta escutar
Minguando nestes sofríveis divertimentos infernais
Nutro a dúbia esperança que essas palavras possam lhe alcançar.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

Cerise.

14 de mai de 2008

Tentativas de Lago

Tentativas de Lago
Deformado pelo que forma: o lago.
O dizimado aproximado, dista.
Os tais, como isca, esperam o dizimado,
Que é sempre lago, depauperado artista!
Que é sempre lago, depauperado artista!

Secas, secas serão suas sombras... Loiras!
Cicatrizados serão meus bolsos requentados...
Das remetentes plantas, secas são as folhas,
Pisadas, elas reafirmarão os meus boatos.

Se um passante, riscando o acaso,
Sentir-se dentro... Admirando o lago;
Há de sentir o lento compromisso
De estar no raso, rindo o mesmo riso.

Secas, calarão as duas bocas!...
Os tais, como isca, serão o dizimado.
Das secas folhas caindo poucas, mistas...
Beberão, as bocas. Secará o lago!
Que é sempre lago, depauperado artista!
Diego Guerra

22 de mar de 2008

Outro Dia

Outro Dia

Quando a mão não tem mais tato
E os olhos não enxergam
Sou apenas eu, em meu teatro
Dos dois lábios que ressecam

À noite, quando a noite ainda é clara
Vejo a manhã que escurece
Aquilo arrasta em minha pele feito tara
Até que em fim nos olhos pálidos padece

Se chegasse outro dia
Quiçá eu soubesse desta vinda
Neste mar, o mar de alegria
Dos brilhos da noite mais linda
Os ponteiros apontam para todos os lados
E os fatos continuam sendo assim, consumados...

-Será que acordo n'outro dia?

Antonio Carlos Vilela

21 de mar de 2008

Quando Faço-te Rir


Quando Faço-te Rir

Sentindo seu rosto mudar
Mutação, sorriso pleno
Na calma, nas ondas de um mar
Ou nas garras de monstro a rosnar
Amigo, sorriso sereno

Suave, como abraços bem-vindos,
Como criança, como amigo...
Livre, como os lírios mais lindos,
Como os velhos abrigos

Sei que queres meus abraços
Quero aos teus também, sempre hei de querer
Sei que temes os acasos
Acredite, eu também hei de sempre os temer

Mas rio ou faço-te rir
Acredito que aquilo é amizade
E vejo teu riso partir
Daqui até a eternidade...

-És pra mim a mais bela das amizades.

Antonio Carlos Vilela

19 de mar de 2008

Descendência

Descendência
Descendo da vida esmagada...
Oh, profusão dos carrapatos mais belos!
Desperdicei nos tecidos mortos
Um sal que a carne estraga.
Os pés devolvidos aos chinelos,
Passeiam sempre, sempre tortos.
Um mundo inteiro me encarna
Na profundeza de quase dezoito invernos!
E se foi na escuridão dos olhos
Que fiquei doente, Oh, praga!
Praga de fenecer sob seis tetos!..
Se foi na escuridão dos olhos...
Fitar-lhe-ei imbecilmente na entrada
Que trouxe de volta os mais sinceros
Terrores dos velhos tecidos mortos.
Todas as mãos e suas taras
Adormecerão no olhar triste, eterno
O alívio de dois corpos.
Diego Guerra

18 de mar de 2008

Uma Estrofe

Uma Estrofe
Saberei mais que teu sorriso no rosto da fotografia,
Que se mantém aceso; ele cabe na estante.
É com o abraço, não com o beijo, que te esquivarias
Da súbita preguiça de amar já sendo amante.
Diego Guerra

Agonia

Agonia
Agonia que deveras sinto,
Livra-me do medo de sonhar ou não sonhar
Aos delírios dos beijos do absinto
Tira-me das grutas do penar ao recordar.

Recordar traz a mim o adormecer
Sabes disso, pois sei que já amou
Em tuas formas sob o lento amanhecer
O vento sóbrio tuas lágrimas levou

Vives tão forte, imensa, em tua mansão
Jogando raios e tempestades sobre meus abrigos
Deixas-me aqui, imerso, numa canção
Sobre tuas curvas, teus anseios e teus castigos.
Antonio Carlos Vilela

A Noite [1]

A Noite [1]
As baleias que planavam
Sobre os fios deste céu
São como vozes que calaram
O julgamento deste réu

Culpado,
Inocente...
Um mal soldado,
Incoerente.

O silêncio entre os becos
Esperava por sussurros,
As conseqüências de beijos secos
Esparramados pelos muros

As quimeras da madrugada
Resumiam-se em gárgulas
E as crianças já deitadas
Assustavam-se com fábulas

O poeta que escrevia
Sonhava agora em seu leito.
Não sabia se vivia
Ou se era imperfeito.

...
Antonio Carlos Vilela

3 de mar de 2008

[Sem título]

[Sem título]
Compreendo o valor de suas telas
No mais calmo e valioso tempo de admiração.
Algumas poucas portas que quando janelas
Deixam sobrar dos braços a muda emoção.

E com onze anos deu-se o corpo embarcado,
De - todos a bordo! - deu-se a cor dos olhos.
Não fui detentor de tudo quando acordado,
Assim mais eternizado no acaso dos meus sonhos!

Reina sobre o mar e na sombra
Das ondas do reino sobre o mar...
E, reinando, não estava lá entre as ondas,
Que, ocultadas nas sombras, desdobravam o luar.

Quando a noite chegou preferi o sol.
Quando a estafa de noite me tomou, reagi,
Reagi como a criança que vê crescer um girassol
Que não entende quem o planta e permanece ali.

Ignorei o amor que em uma taberna
Me trancafiou por anos. O brado tão soterrado
De odiar o pranto mal educado que o soterra
Na sede da vida eterna. E o artista que com o diabo

Aprende a sorrir seus xingamentos,
Sempre descendentes de um alienado,
Sujo, maculado, vestido qual o cimento:
Cinza e repleto de musgos melados.
Diego Guerra

25 de fev de 2008

Clausura

Clausura

As janelas desfazem-se
Uma a uma, caindo no chão
Esparramadas fazem-se
De portas, mortas, de solidão.

Os quadros discutem entre si
A respeito de mim
Recitando poesias, morrendo de rir
Manchando as molduras cor de carmim

Sob meu teto não há portas
Não existem muros, tampouco paredes
Apenas fantasias sobre coisas mortas

Além de meus desejos, fomes e sedes
Esta clausura é a máxima liberdade
O que alimenta a mentira e renega a verdade.

Antonio Carlos Vilela

Antônimos II

Antônimos II
Maldito Seja!

Às vezes percebo e entendo que sou um descontente vilão; insulto a Deus todo o tempo, sempre com uma pedra na mão. E quando era um saudável menino, sofria a injustiça dos que erguiam essas pedras... Hoje, que o ódio me é tão são, sou a outra face da moeda. Ser iluminado como ditavam as vovós... Na verdade fui amaldiçoado, ditava o feiticeiro atroz.
Querendo ser recompensado em troca de minha existência beática, tive meu trono trocado, E minha amada estava apática. Amei, com certeza, a todos os meus inimigos, antes de saber que eles os eram. Acostumei-me a ser vencido, ser aqueles que esperam. Os tesouros celestes não foram, a mim, reservados; contraí toda a peste de meus goles amargos. Meu carrasco orna meus ombros, dele estou rodeado. E se pequei em meus assombros, serei o réu mais condenado. Culpado! Iludido até o pescoço! Consegui tocar a alegria em carne e osso, mas estava inconsolável e com a doença do desgosto. Serei julgado com uma lágrima no rosto.
Não mereço algum respeito, tampouco exclamações sutis; Vou dizer que sou um louco e sorrir, sendo feliz.
Diego Guerra

Barca das Dez

Barca das Dez
Uma discreta escadinha convidava-me sempre
Ao frondoso e iluminado convés de proa,
Brumas do ar e do mar corroíam o casco de frente,
A palidez dos faróis evidenciava a garoa.

O negrume salgado era cruzado longe e dentre...
E eu calava o silêncio rindo. Transformada em pessoa,
Era a estátua devolvendo ao mar perene
As lágrimas salgadas de quem não perdoa.

A travessia fazia de cada olho humano
Uma religião. Nem o céu com seus astros
Sagrados indicariam minha posição, ou o plano
Em que estendiam-se os alvos rastros da embarcação.

Adoeciam meus ossos encarnando o sono,
O frio soprando do inferno nas janelas, cordas, mastros...
E o medo, como de cego, de saltar ao mar insano!
Nutria-me o calor da ilusão apesar do vasto inverno.
Diego Guerra

16 de fev de 2008

Insônia

Insônia

Rasgaria minhas cartas úmidas, de letras borradas
Com os mesmos dedos sujos da musa Insônia.
Tu que és aqui dentro de mim o som das badaladas
A canção dos olhos mortos de quem deita e sonha

Por tua causa mergulhei-me na crua realidade
Sem ter por onde sonhar, sem ter por onde sorrir
E há quem diga que são frutos de minha idade:
Meus anseios, meus prazeres, meus desejos de sumir.

Ah, se teu sorriso, oh, Insônia, fosse exposto!
Cada qual cairia nos penares do triste pensar
Ah, Insônia, poderias tu ter teu próprio rosto,

E assim os amores corrompidos torturar?
Grato a ti sei que sou, musa das noites de Lua
Sei que me olhas na janela, querendo que esta lágrima seja tua.

Antonio Carlos Vilela

5 de fev de 2008

Uma Menina

Uma Menina

No tempo, o vento parou de vez
Em tempos de nuvens delicadas
A tempo de ser por fim estupidez
Aos gritos amantes da bela madrugada

Nas noites em que sucumbo a lembrar
Da noite, sob estrelas em que confiei
A noite dos meus sonhos sobre o mar,
Os gemidos e os sorrisos que jamais esquecerei

Burlei minhas leis. Voei, fui aos céus!
Embriaguei-me com fumaças purpúreas
Nos tabuleiros insanos dos loucos chapéus

Exalei com vigor meus odores e fúrias
Dentro das ondas cinzentas de neblina
Chora perdida, inconsolável, uma menina.

Antonio Carlos Vilela

3 de fev de 2008

O Espetáculo Errante

O Espetáculo Errante
Cuspir fogo, cuspir vento.
A beber de ódio, para baforar intento
Engolir espadas retas e curvas
Admirar seu próprio reflexo em águas turvas


Trovões irrompendo sobre a lona do circo
O olho piscando! É um cisco, arisco
Palhaços e sua graça inflada de desgraça.

A cada Lua, uma cidade diferente;
A cada Lua, um mundo diferente.

Palavras vão e vem; dentro de ouvidos melados.

Chove, milho estourado
Chove, cérebro estiolado

Trovões irrompendo sob a lona do circo
O dente trotando! É um disco, com risco
Calhamaços de loucura fomentadas na trapaça

O homem rabisca o diagnóstico
A vida comum segue seu prognóstico
Os olhos humanos evitam a loucura
Como evitam do Inferno a fritura.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

30 de jan de 2008

Sonho

Sonho

Oh, Sonho!
Meu portal amado, meu pior delírio
Abraçado pelos braços teus sou em vão
Um ser-vivo, sonhador, um homem são
Que vive das cicatrizes do martírio

O martírio
Que só em ti eu abomino, feito criança
Não me acorda. Prende-me aqui como passarinho
Que tenta voar de asas cortadas, sem um caminho
Por entre as árvores de tuas esperanças

Ah, esperanças...
Tão moças, ainda sorriam quando devastadas
Dentro de um sonho, um delírio, um pesadelo
Brumoso como cada lágrima de meu puro zelo
Pelas moças que pela morte foram visitadas

Visitadas
Foram muitas noites em que não esteve lá
Quando me vi só, de olhos abertos, a tua espera
Pensando quieto em envolver-me em tua esfera
Mas não apareceste, deixou-me ali a chorar

Chorar...
Parece que me acostumei. Sempre fui muito frágil
Precisei de ti por tanto tempo, apenas p’ra sonhar
Mudei tanto, virei homem, e fico aqui a fraquejar
Pois te amo, Sonho, cruel beijo noturno lento e ainda ágil.
Antonio Carlos Vilela

26 de jan de 2008

Um Soneto Para Mim

Um Soneto Para Mim
O resto de mim ficou para trás
Mesclado aos sonhos em que pude voar
Com a dama, valete, rei e o ás
Vendo num canto a fumaça transformar

Muralhas gigantes em puro pó,
Sorrisos e lágrimas em meras memórias
Deixando o cheiro amargo e só
Enquanto cavo aqui um poço de glórias

Bastaria por instantes sucumbir
Aos delírios do amor ou da insanidade?
Meu escudo maldito é saber rir

Quando fujo ou quando é pura verdade?
Desconheço meus olhos turvos
Tampouco os verdadeiros sorrisos curvos
(disfarçados de mentira que em chamas arde).

Antonio Carlos Vilela

O Gosto da Minha Voz [1]: Velório

O Gosto da Minha Voz
- I -
- Velório -


”Tratas de me cativar com sucesso,
Até quando digo que não há regresso.
Das realidades... Estou possesso!
Sorri sim, para o maior demônio desperto!”

Entre os de preto com pés silenciosos;
Membros de linho, sem pele ou ossos...
Deslizei-me ventando com os mais perigosos,
Seguindo o enterro dos vivos, dos mortos!

Meu ultimo delírio, este antes dela!
E ela eu seguia, gargalhando lágrimas de vela...
...Um abraço! Fogo! Noite às mazelas!..
O coração exposto deu-me lugar em sua cela!

“São lindas tuas garras; tuas falas de mentira!..
Teu toque, olhos; perfume amargo de mirra!
São lindos os dedos... Calada tu admiras...
Luzindo dedos no copo.” E os meus: retorcia!

Quase! Quase consigo capturar-me em restos.
Os momentos infantes, e risonhos, e certos
Não foram feitos, e não estavas perto!
Assassinato com veneno; em troca: corações abertos!

O gosto da minha voz, eu sei... Ignorado.
Gosto arranhado, cinza, desolado.
Vai corroendo em vícios os resquícios de meu rastro!
Meu ultimo delírio e o ódio declarado.
Diego Guerra

25 de jan de 2008

Verde

Verde
A ardência desce firme garganta abaixo.
Calor, um Sol particular a explodir-lhe as entranhas
Odor de Anis, sopra em seu hálito como uma dracônica baforada
E não tarda a trocar os pés e esquecer o nome das mulheres

Geme, canta, grita.
O Alcool em céleres torvelinhos corre o sangue
Metamorfoseia os humores em água de mangue
Oníricas companheiras, contradizendo o mito popular
Não vieram, o lúcido delírio visitar

Os companheiros vão ao chão
Sentindo o ósculo do cimento enchuvarado
A carícia fria da praça de calçamento enlameado
Estamos todos experimentando um paraíso de sensação

O Sol cobra seu preço, e temos areia e lama como os juros
de lembranças e não-lembranças.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

22 de jan de 2008

O Inverno Chegou

O Inverno Chegou

Faz quanto tempo que o inverno chegou?
Por que faz tanto frio aqui dentro?
Todas as rosas se foram e o Sol já cegou
E tudo agora é muito mais lento

A janela está entreaberta, dando vez ao céu
Tão cinza e fechado. E agora?
O quarto está vazio e rabiscado em um papel
Está frio aqui. É como lá fora.

Acolha-me, chão em que piso. Estenda as mãos
Quero uma porta nova, uma nova janela
De que adianta se as paredes são iguais ou não

Ainda sinto muito frio dentro desta cela
Fecho a nova janela e tranco então a nova porta
Aqui, sentindo frio e repetindo a mesma nota.
Antonio Carlos Vilela

13 de jan de 2008

O Lado Triste da Realidade

O Lado Triste da Realidade

Deitado no chão grita o homem
Rústico, pútrido, mal-amado
Olhando para as moças que somem
Canta aos prantos, o desafinado

Sem cama para abrigar os sonhos.
Seus trapos, cobertas, jornais
São seus amigos, ainda medonhos
Entre a eternidade e o frio matinais

Seus filhos também são filhos da solidão
Sonham, choram e até mesmo sorriem
Feliz ano novo! – desejo, levantando a mão

Que as vozes agudas jamais se silenciem
Para que um dia o espelho da sociedade apareça rachado
Para que cada ser humano dê vida ao que foi ignorado.

Antonio Carlos Vilela

9 de jan de 2008

Homens Tristes

Homens Tristes
Ouvi de uma amiga querida, que escrevo histórias sobre homens tristes
- de certo o são;
Homens cujos sonhos foram cruelmente extirpados por si mesmos, pela socidade ou pelo amor.
Só as mulheres são felizes em minhas crônicas pueris
Essa mesma pessoa perguntou-me a origem da melâncolia
respondi-lhe com uma brincadeira - Meu bem, só as mulheres são melancolicas
os homens sofrem em um nível mais primal, por isso vocês triunfam e nós morremos
Ela sorriu, vestindo uma máscara de ignorância
e disse-me - Jean, você pensa demais -
Assenti com a cabeça ;
sim, de fato ; sou um homem triste.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

7 de jan de 2008

Sorrindo na Tempestade

Sorrindo na Tempestade
Os seus passos eram compassos
Da melodia infante que cantarolou.
Por brotar acinzentada nas beiradas...
Para enviesar-se a tempestade que chegou!..
Tratou toda a corte do vendaval com descaso.

Tomou rumo das próprias entradas
E independendo-se assim, se perdeu.
Tempestade vil não se opunha;
Tratou-o como filho sacro, componente seu...
Ofereceu-lhe céus de mãos desatadas.

O sorriso distraiu-se da seriedade que dispunha
Para ser o sorriso adulto: estéril, sem dente.
Hordas dos breves pensamentos versificados
Carregados pelo vento em mexas anil sobressalentes...
Sorriso, sorrindo amparado com mãos de lascivas unhas.

– “Estarei nas oscilações dos astros!
Sorrindo na tempestade com euforia!
A tristeza familiar venta, advinda de todo o olhar!
Sorrindo na tempestade como não sorria,
Chegando a gargalhar ante ao ato, fato...

Por sorrir, a tempestade irá também me notar!”
Diego Guerra

Em Silêncio

Em Silêncio

Lembra do quarto das paredes ocas?
Foi ali que toda a dor me consumiu
Em silêncio, aos berros por mil bocas
Em transe, sem ação e a porta abriu

Foste brilho intenso na mata aberta
Uma certeza, uns sorrisos, foste luz
Fez-me abraçar de forma concreta
Aquilo que não passava de luzes azuis

Que saudades dos sorrisos teus,
Das covas que os seguem
Resta-me agora o eco de museus

Tão vazios até que pequem
E transbordem lágrimas das paredes
Matando meus medos, minhas sedes...
Antonio Carlos Vilela

1 de jan de 2008

Medo de Acordar

Medo de Acordar
Brincar de medo
Surrar o peito
Tremer os dedos
E é bem feito?

Um sonho, no escuro
Sonhar e sonhar
O sol nascerá então puro
Após o brindar

Não abro os olhos,
Não choro, não se pode.
O sonho é notório
Então choro, não me acorde

O medo cai
O chão se abre
O tempo vai
E já não cabe

Em todo o planeta
O oceano que criei
Só por medo,
Só por medo de acordar.

-Ainda assim, obrigado pelo sonho.

Antonio Carlos Vilela