29 de dez de 2007

O Resto

O Resto

Olha quem vem de lá
Um rasgo no céu, um cometa
Caminhando devagar
Coberto de vermelho, com a cara preta

Estive no mar por uma eternidade
Saí por sobre as ondas seguindo a luz do Sol
Engasguei, respirava com dificuldade
Tudo era tão cinza e iluminado por um farol

Estive a ponto de chorar, quebrar-me
Rompi então a carapaça cinzenta, estive nu
Enxerguei tudo em cores, sentei-me

O pó da solidão era tão lindo, amarelo e azul
Quando tudo vira giz, só nos resta rabiscar
Fiz um mundo, um novo amor, um céu, um novo mar.

Antonio Carlos Vilela

24 de dez de 2007

O Orfanato do Sono

O Orfanato do Sono
Duas garças voam, atravessando o rio
As flores colorem-se, exibindo-se p’ro mundo
E o céu é sorridente, atrás das nuvens de algodão
Crianças brincam à beira de um sonho profundo

Dançando, giratórias e cantantes, dando as mãos
Sorrisos sinceros, ingênuos e bem alimentados
Borboletas cor-de-rosa encantando as meninas
E os pés molhados dos meninos encharcados

O entardecer traz as nuvens para trás das colinas
Como nos retratos, o céu está belo e vermelho
Numa mesa comem felizes, as crianças do sono
E o jardim é verde, recheado de flores e coelhos

A Lua chegou, hora de deitar, hora de sonhar
Fecham os olhos todos eles, moças e mocinhos
Tão bonitos, encantadores, sorridentes e amados
Esperam o amor de uma família em seus caminhos.
Antonio Carlos Vilela

Ruas Quadri-Dimensionais

Ruas Quadri-dimensionais
Lembro de subir a rua, lembro das risadas dos meus irmãos logo atrás, todos nós de hálito prenhe de álcool e boca cheia de riso, o abraço do braço amigo enlaçando meu pescoço, suspensório raspando no chão e silêncio partido pela trilha de obscenidades divertidas que afluíam de nossas mentes. Falávamos do amor e do sexo, com a leveza que só é permitida aos delirantes, lembro de ter em cada mão uma garrafa de vodka barata; não éramos doentes, não havia dor e muito menos solidão.

Hoje caminhei pelas mesmas ruas e não havia nada, luzes esparsas de antevéspera de natal, nenhum barulho exceto o do farfalhar das barras compridas das minhas calças na terra molhada; deitei só, no colchão empoeirado e cheirando a gato, esperando alguém, qualquer um, para me oferecer um carinho, um gole de uísque ou uma nesga de atenção. Ninguém veio, essa noite não deveria ser perdida no sono; fui ao centro, deslizando ruas abaixo de tênis enlameado, o último bar aberto, com seus dois bêbados cativos esmorecendo no fim de noite, pedi a saideira, a saideira da noite, do dia, da vida.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

21 de dez de 2007

Sem Sentido

Sem Sentido

Sonoro, tudo é tão sonoro
O que é mudo não se cala e continua a gritar
O silêncio é apenas impressão
E a fumaça sussurra: Não!
O que é raro por aqui, onde os sons podem tocar


Um rosto delicado ou até a sua alma
Risadas exageradas vêm de fora das janelas
E são todas surdas, não se compreendem
Nem mesmo os velhos sábios que de fato as entendem
Resistem aos delírios destas bocas amarelas

O horizonte tão cansado fica cego.
Onde foi parar o Sol e as nuvens brancas do azul?
As velas não têm fogo, os isqueiros sem faísca
Chora a criança que não vê onde rabisca.
E agora não há leste, nem oeste, nem o norte e nem o sul.

Os jardins encantados são agora como água
Inodoros como o vento e intocáveis como o ar
As moças e os românticos estão agora desolados
Sem fungar os grãos de pólen das tulipas do gramado
Enfadados, os amantes já não podem prosperar.

E assim termino: cego, surdo, mudo, insensível e sem as rosas p’ra cheirar.

Antonio Carlos Vilela

18 de dez de 2007

Eterno Reduto

O Eterno Reduto
De enlace em enlace
Pulando telhas vazadas e calhas fendidas
A casa com o tempo se arruína
O homem com o tempo fenece
Mas a idéia que lhe queima o espírito, esta tem seu eterno reduto

No fundo do mundo, no nodo do todo
A brasa retumba e crepita elevando e enterrando seu protetor

O voluptuosa amante que é a madame Liberdade
Ela, que em seus braços carrega os mais tenros amores
Debanda-se para o lado dos homens que lhe presenteiam
Reza credos de muitos deuses e alimenta mais uma gaiola
O fogo nascido no reduto do grito, a faz de novo plena mulher.

Em canto exasperado clama pelo beijo de tão caprichosa donzela
Aquele afogando-se no cotidiano e ignorante despero do conformismo
Ela lhe responde com duas direções - mas a escolha mais sábia reside no Eterno Reduto
O híbrido do Cognitivo e do Incógnito são a única bussola a se seguir

No escuro da iluminada solidão, o homem descobre seu passado e projeta seu futuro
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

15 de dez de 2007

O Vento

O Vento

Das janelas, pelas frestas, vem o vento
Forte, veloz, destrutivo e tenebroso
Esvoaçando folhas, fechando livros
Batendo portas, veio o rigoroso.

E me avisou sobre tudo, durante a barulheira
Foi como um sonho louco, mas era real
Com um ar de arrogância incomparável
Gritou comigo e transformou-me em animal

Das janelas para fora era tudo beleza e calmaria
Das mesmas para dentro havia um holocausto
Não era como Vivaldi, soava como Beethoven

Era a mais bela revolta da natureza, tão áspera e nada lisa
Oh, fenômeno sombrio dentro de mim. Louvem!
E lá se vão velhas risadas até que o vento vira brisa.
Antonio Carlos Vilela

14 de dez de 2007

Último Canto Antes do Fim

O Último Canto Antes do Fim
- ramo desfolhado PT. 2 -

Eis que encaro o Fim;
Um nó em uma trama de infindáveis cores e brilhos, um marco de era
A última estocada, precisa e furiosa a transpassar o flanco da fera
Fios trançados de sorrisos, lágrimas e intrigas untadas de betume
A distância aumenta, até sobrar da chuvosa noite só o negrume

O açoitar da água no chão ;
Parte o navio rumo a destinos incertos, sem carta marinha e nem timoneiro
Desdobra-se o tempo em formas e tons como no vidro sob o sopro do oleiro
A chuva lava o convés e lava os olhos do homens de olhos sempre despertos
E o marinheiro metido em gabolices proclama – quando voltar , tenho três amores de braços abertos -

As vozes experientes dizem-me
- dê tempo ao tempo ;
e em minha mente rocambolesca surge – para que o tempo, que já é o tempo, quer o tempo que simples humanos como nós podem oferecer ?
Prazeres Singulares, eu vos digo.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

11 de dez de 2007

Submersão

Submersão

Não vejo as baleias. Voltem minhas orcas, voltem!
É tudo azul, dentro de uma redoma surda

Aqui apenas há solidão. Nem solo existe mais

E lá em cima é só mistério, uma neblina absurda

Gosto daqui debaixo. Abaixo de tudo e acima do nada
Raramente nascem flores, umas flores do mar
Exalando no azul uma fumaça rosa que lembra as ondas
E aqui as ondas são a chave do céu, como as nuvens de lá

Que saudades dos pelicanos, bem-te-vis e pombos
Quase sempre ignorados por nós, os tais racionais
Sinto falta de um canto pra sentar


Aqui não há sentimento, sentido; apenas paz
Longe do perto e perto do longe como há tempos atrás

A luz é sempre apagada por medo de errar.
Antonio Carlos Vilela

8 de dez de 2007

Minha Ave

Minha Ave
- Friendship in alien landscapes -

Não é como olhar para as nuvens
Nem como admirar uma velha árvore
Os pássaros voam, eu nem ligo
Só consegui sentar no chão de mármore.

Tentei encontrar por toda a floresta
E só me restaram os ramos desfolhados
Em nenhum daqueles galhos eu o encontrei.
Desolado, perdido, vazio, desesperado.

Bata as asas de forma forte e bonita
E grite embriagado enquanto voa.
Minha ave, meu amigo, voz que ecoa

Tem em tua patinha aquela velha fita
Com meu nome em letras rabiscadas,
Tortas, ímpares, sujas; como nossas piadas.


-Pra você, Jean.
Antonio Carlos Vilela

4 de dez de 2007

Jornada do Desespero

Jornada do Desespero

Com quantas letras posso me arrepender em forma verbal?

Uns copos na pia, três pratos sujos, umas gotas irritantes.
Assim começa a jornada do desespero.
Ao fundo do quarto, vê-se que sou eu cortejando as estantes
Brincando, inocente, com os dedos no isqueiro

Incapaz de sorrir, eu caminho até o banheiro, querendo um espelho.
Bagunço meu cabelo, faço caras e bocas
Nada disso me faz rir, tampouco chorar. Sou assim, feito de pedra
Ofegante e estúpido cuspindo vozes roucas

Decidi não acreditar em anjos, muito menos em deuses
E sou sempre assim, feito de pedra
Quando chove agarro-me em galhos e os mesmos sempre quebram
Caio no chão e não sinto dor, pois sou feito de pedra

É tão difícil assim fazer amor com os bons abraços?
Verdades, verdades e verdades. Só queria dizê-las
E quando sinto o chão gelado, enxergo tudo embaçado
Fecho os olhos e fujo para longe, além das estrelas

Estive eu apagado por umas estrofes? Talvez, sempre talvez.
Delirando a cada metro caminhado dentro de casa
Suando frio, sangrando por dentro ou chorando por fora
Sinto aos milhares as saudades que ardem em brasas

Não me restam forças para encarar o sinteco gasto e as paredes pintadas
Já não sinto as pernas que me guiam por dentro da grande gaiola
As janelas estão trancadas, estou fora do alcance dos olhos do céu
Choro no chão por piedade como um velho moribundo pedindo esmola

Sussurrando, gemendo, agonizando, tremendo. Foi assim que terminou
Rastejei-me pela porta até que finalmente fiquei de pé
Cravei a chave, girei a maçaneta. Minhas mãos e os dedos tortos sentiam dor
Verdades, verdades e verdades! Gritei verdades inundando o corredor.

Minhas verdades são o mais puro arrependimento.

Antonio Carlos Vilela

2 de dez de 2007

Ramo Desfolhado

Ramo Desfolhado
Existem ótimas metáforas para o tempo;
O curso de um rio, uma dobradura de Moebius, uma chama a queimar
Para a visão encerrada nestes olhos, sobrou só o mórbido a respirar
Os dedos correm pelo ramo e a cada passada o número diminui
Da árvore morta, o galho partido, o tempo passado e os amigos perdidos.

Devoro - Carne e sangue, dúvida e elucidação,bálsamo e veneno
Vivo- Sabor do vento na língua, no peito tremor terreno
Devoro – Minutos rápidos e eternos, Horas melífluas ou distantes
Vivo – Desfolhando um ramo e eliminando pessoas redundantes.

Vocês lembram de tempos mais inocentes, onde nossas prioridades eram outras ?
O tempo passou; a folha rasgou, o desenho borrou e o sonho partiu.
Jean Gonçalves Limoeiro