26 de nov de 2007

Quando Cambaleio

Quando Cambaleio

Não conto os meus passos descalços
Tentando disfarçar e não olhar pros pés
Tão sujos, feridos, doloridos e cansados
Mas é inevitável – sete, oito, nove, dez...

E quando noto, choro de dor ou por amor próprio
Finjo rir soluçando, ao rastejar de meus calos
Enquanto olham-me os “racionais” enojados
Falantes como sempre. E eu aqui a detestá-los

Onze, doze, treze, catorze, quinze... – Não paro!
Tropeço e ralo meus joelhos; quando eles riem
Não me zango, sorrio, e dou uns passos tortos

Amparo-me nas bordas da mentira. Apreciem!
E antes do vigésimo quinto toque no chão
Olho pros lados, e quando rio, estão todos ali, mortos.

Antonio Carlos Vilela

22 de nov de 2007

Apenas Beijos

Apenas Beijos
Ó fascínio! É princípio, é suspiro...
Ao redor a dança dos sons é muda
Gritam, gritam as pupilas sob os cílios
Até que as línguas se unificam e desnudam

Duas bocas frenéticas, abertas e fechadas
Os olhos se trancam e apenas imaginam
São tantas palavras silenciadas por segundos
De amor, desejo e atos que alucinam

Vinte dedos que tateiam cada poro
Incansáveis! – Cabelo, ancas, seios, peitoral...
Vinte dedos, quatro mãos, dois corpos

Abrem-se calados por um odor inodoro
Desnorteados sorriem por uma graça banal
Dão um trago no cigarro; dão um trago num dos copos
(E acordam finalmente de um sonho tão real).
Antonio Carlos Vilela

Malditos Ponteiros

Malditos Ponteiros

Os ponteiros, malditos ponteiros...
Apontam a segunda hora do dia
Sob a Lua, tão carente de alegria
Os ponteiros, malditos ponteiros...
Limitam toda a minha fantasia

Estou perdido dentro do meu mundo
O paraíso das baleias deteriorou
Diante de meus olhos vermelhos, e ela chorou
Estou perdido dentro do meu mundo
Entre a fantasia e a aquela me amou

Injusto perder o desejo momentâneo
Por decência, medo, moral ou respeito
E manchar eternamente o lençol que deito
Injusto perder o desejo momentâneo
Quando é jovem e não se sabe amar direito

Antonio Carlos Vilela

Soneto para o Retorno

Soneto para o Retorno
Volto agora, sombrio, possuído pela bruma
Frustrado, um tanto perdido
Tão pequeno, num mundo escondido
E durmo sempre sozinho, esperando que isto consuma

Meu corpo, meus erros e quem sabe meus acertos
Mesmo que doa a quem me ama
Sendo uma dor que grita e chama
Seus corpos, seus erros e os suspiros obsoletos

Cintilante voa rubra, a borboleta
Que não crê nas bondades de Deus
E tampouco nas maldades do Capeta

Por toda a minha sanidade procurei uma loucura
Percebi que estes sonhos são só meus...
E no hedonismo encontrei por fim a cura.
Antonio Carlos Vilela

19 de nov de 2007

Feéria

Feéria
O Homem bebe, sorve cada mísera gota de seu copo de vício
Em seu corpo a mágica percepção irrompe rasgando como um cilício
Brumas desmanteladas, cortinas abertas para espetáculo da visão
Feéricas formas alinham-se exortando-lhe o corpo e o coração

Portões que foram escondidos quando se formavam sinapses
Recobertos por mecâno-tele-grafias e permutadas neuroses
Segredos dispersos no espaço, disponíveis apenas os filhos da oneiromaquia
Ou para os que se deixam levar pelo toque da anseida autarquia

Gritos de felicidade, lágrimas fugidas ofuscadas pela rósea luz
Paisagens adocicadas risadas, tardes árcades e beijos de alcaçuz
E bêbado de amor o homem vocaliza seu amor
Tui lucent oculi
sicut solis radii,
sicut splendor fulguris
lucem donat tenebris.
Jean Felipe L. Gonçalves

- escrito no teclado virtual, e viva o amor.

2 de nov de 2007

Como Sempre

Como Sempre
Quantos beijos viraram abraços?
Quantos corpos viraram adubo?
Quantas letras viraram poesias?
Quantas mortes viraram cemitérios?
Quantas verdades viraram heresias?

Tenho tantas dúvidas que mal consigo calculá-las
Sobre mim, sobre quem, sobre tempo,
Sobre além!

Venho de um sonho, pai de desejos frívolos
Quase todos utopias, quase todos pervertidos
Eu que jovem, guardo mágoas e cuspo poesia
Como barata, sou temido e sou todo covardia.
Quase todo pele e osso, minto sempre, divertido

Quantas lágrimas viraram tragos?
Quantos copos viraram embriaguez?
Quantos fatos viraram história?
Quantos sorrisos viraram lembranças?
Quantas mentiras viraram verdades?

Sinto medos em forma de argila, ferro, concreto
Medos de mim, medo de quem, medo do tempo,
Medo do além!

Amo a fumaça que me cobre quando me escondo
Mesmo que visto a olho nu – Estou ali escondido
Como meus sonhos, minhas eternas mentiras
Brilham: cristais, ouros, pratas, rubis, safiras
Quase todo pele e osso, como sempre, comprimido
Antonio Carlos Vilela