30 de out de 2007

Verões

Verões
Fujo dos olhos de Horus; calor impecável. O mais breve amor sentido nas oitavas daquela voz viera buscar no esconderijo, qual faz toda a Lebre atroz. Só aí confundi olhar, perfume... E veio então plantar no cego, que se mata de êxtase e ressuscita com café em manhã de inverno... Em uma noite extra que tragara o ar gélido da Serra, comprimindo o coração como um rato. Olhos de Horus; amor antigo, primavera... Veio todo enrugado mostrar, no verão, o caminho.

Sorrindo com ódio o mesmo texto vazio, do Sol traído e trocado. Escorreu no tal semblante um velho vinho, para o mamífero mais desejado. Fujo! Fujo! Aspiro, tusso, escarro, lato, e definho. Dentro da casa a mobília ri, ri de mim e do que não digo. O brilho fabrica as sombras... Esse bairro, esse Mar distinto! Outro sol examina as ondas – Dentro da casa a mobília rindo.
Diego Guerra

22 de out de 2007

O Homem das Palavras

Ilustração: Antonio Carlos Vilela
O Homem das Palavras
Tantos homens caem mortos, viram pedras
Perante à tanta fome, doenças e filosofia
Nenhum de nós compreende cada palavra
Finge que ama e escreve poesia

Filhos desconhecidos, conhecidos ou perdidos.
Todos eles falam... E os que não falam, respiram.
Nenhum de nós compreende cada palavra
Só os corajosos que apenas suspiram

Em filas indianas, pingam as gotas de bafo
Cerveja, Uísque, Licor ou Champanhe
Nenhum de nós ousa saber aquelas palavras
Ignoramos as verdades, admiramos o mendigo que se banha

Vem um homem lá do fundo, onde é escuro
Cantarola uma bossa: nova ou antiga
Esse sim, conhece bem as tais palavras
Mas não rima, o motivo é a cartola que o castiga

De joelhos, põe-se a chorar sobre a folha que no chão aterrissara
Era composta de sessões pautadas – de cinco em cinco
Naquele papel tornaram-se nítidas as tão difíceis palavras
Que apagaram nas cinco lágrimas cortantes como zinco

Era tão sério o pobre homem
Que virava pombo num chafariz
Nascia das fumaças que somem
E voa cinza! Oh ave imperatriz!
Antonio Carlos Vilela

14 de out de 2007

Alma

Alma
Adora teu corpo
Cordeiro de deus
Casaco de pele
Com pelo de bicho

Da cintura pra baixo
Ela tenta sair
Trazendo ereção
Ou cagando lixo
Evandro Sussekind

13 de out de 2007

Quanto à Morte

Quanto à Morte
- Ainda no paraíso -
Saber morrer não se trata de apagar.
P'ra saber morrer basta viver enquanto morre.
A busca às baleias apenas começou,
E já falo sobre morte como se sábio fosse eu
Que morrerei sem nem ao menos saber que não vivo.
Antonio Carlos Vilela

10 de out de 2007

Uma Tarde

Uma Tarde
Foi como sempre aconteceu
Éramos nós dois e a nossa paz
Fez tanta falta ao tolo "eu"
Essa harmonia que me traz

Foi como há muito ocorreu
Seja a lua, o céu lilás
Veja que a tarde escureceu
Aquela luz não volta mais.
Antonio Carlos Vilela

Máscara [2]

Máscara [2]
Vêm as ondas. Vão as espumas
A maresia é tão serena esta noite
Das gaivotas caem as plumas
Como as do pássaro que tu foste

Vivo de música e poesia – Quanto a ti?
Não leio teus medos e nem teus arrepios
Basta se quebrar ou se partir
P’ra eu descobrir de onde vêm os assobios

Quem governa? Quem ama? Quem sofre?
É tão difícil de saber, sempre foi
Tens a ti mesma lacrada como um cofre
Seja lá como p’ra ti isto soe

É tão utópica aquela realidade falsificada
Que me constrange, reprime, me machuca...
É tão real sonhar com mentiras abusadas
No fim é como um soco forte, direto na nuca.

Antonio Carlos Vilela

7 de out de 2007

Nice

Nice
Os olhos acordam no colo do Sol, e o rosto se benfazeja da brisa marítima
Faz essa praia tão distante do meu verdadeiro ser parecer íntima
A menina, fiapo de gente e branca como porcelana de tia-avó
Vai à França, e eu no Rio de Janeiro morro só.

A areia daqui não é branca, e aqui não existem mais aves a gorjear
Um paraíso de filme da década de trinta, como será “Quando Setembro Chegar”?
Não tenho dinheiro para pagar nem ao menos um uísque, estou hospedado no Mirana
Sob guarda-sóis vermelhos brancos e azuis cruzei o olhar à paisana

Tensão dos olhares engajados em um embate psicológico a dois
Os lábios tremelicantes rosáceos tentam esboçar um pressupôs
Dois passos para frente e seus olhos negros seguem meu rastro até o nadir da visão
Sorriso, triunfo, vitória! Ou teria sido a pior perdição?

As asas de Eros me carregam de volta ao ristorant
e não há mais porcelanácea diva ali sentada, é sonho de guri.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

Entre a Fumaça e a Areia

Entre a Fumaça e a Areia
Toda noite acendo uma vela, perto, bem perto da janela
Bate o vento fraco, e sorrateiro rabisca no ar
Entrelaça no azul, dentre as estrelas, a fumaça que rebela
Uns olhares boquiabertos nos bares a berrar

E assim surgem desenhos; criaturas monstruosas
De todas as cores, formas e odores, a rosnar
Feito as berrantes e histéricas mães orgulhosas
Que entre flores, portas e bares se põem a chorar

A vela cospe fumaça, mais fumaça que o suportado
O céu engasga, o céu soluça, o céu se cobre... E chora
Nuvens negras que banham uma menina no telhado
E o céu revolta-se, grita – O céu deprime, mas não agora

Vai chuva cristalina e cinza, apaga o incêndio
O fogo é semente, semente de fumaça
Abafa os suspiros dos desesperados – Que tédio!
A fumaça é fruto do fogo e nunca teve graça

Sons que escorrem pelas rachaduras das paredes
Pintam tudo o que há em preto e branco – naquele quarto vago
Agora é tudo tão alegre, falso e pervertido sobre as redes
Penduradas nas esquinas esfumaçadas deste trago.

Num deserto, a fumaça se confundiria com a areia?
Beduínos que vagam sob sol e sob chuva
Hão de responder minha pergunta – Dúvida alheia
Oh, beduínos calejados de mãos nuas de luva.

Fumaça ao meu redor
Fumaça por todo canto
Já não respiro – sinto um nó
E na areia deixo meu pranto

Durmo na areia e viro fumaça.
Antonio Carlos Vilela

3 de out de 2007

À Uma Gata Branca

À Uma Gata Branca
- 29/07/2007 - 30/07/2007 -
Os gatos... e o frio,
Todos deitados pela varanda;
Olhares impermeáveis brincando
de ciranda
Pelo pêlo quente e macio.
E disse a própria Gata Branca:

“Vos falo dos cantares
E sussurros inaudíveis,
Dos males mais acessíveis,
Das velas que jorram luzes
nos altares.” –
Bocarras férteis e infalíveis

Tornam-se espaços
E chamam de lugares,
Roubam com seus sonares,
Dos desenlaces,o próprio laço...
Crivam de bobas lendas os luares
mais inesquecíveis.

“Vos falo dos cantares
E sussurros inaudíveis.”
Diego Guerra