30 de set de 2007

Recanto das Baleias

Recanto das Baleias
- Meu Paraíso -
Há um eterno azul longe daqui, bem longe
É em outro mundo, mesmo que dentro deste aqui
Onde tu gritas e logo o silêncio te responde
E mesmo na escuridão, imerso, ele sorri.

Navegam por ali as nadadeiras tão brilhantes
Que carregam por ofício o corpo vil do ser que as comanda
São como asas de borboleta, borboletas navegantes
Voam entre as bolhas do azul e naquelas nadadeiras mandam.

Nunca vi este lugar, não toquei naqueles seres
Apenas imagino, e é imaginando que amo aquilo tudo
Consigo até ouvir as baleias exalando seus poderes
Onde sou impotente: cego, fraco e submerso fico mudo.

De onde eu venho há uma pessoa – amo-a
De onde eu venho há além de tudo a religião
De onde eu venho há uma canção – clamo-a
De onde eu venho nunca tive a sensação.

Nunca morri neste mundo planejado
Nasci tantas vezes que até já sei fazê-lo só
Ando descalço sobre o vidro esmagado
E me lembro da canção: tem Sol, um Ré menor, Fá e até Dó.

Antonio Carlos Vilela

29 de set de 2007

O Berro Torto do Homem Semi-reto

O Berro Torto do Homem Semi-reto
Ele sempre diz que o mundo nasce
Das vísceras do homem reto,
Bancado pelo homem reto,
Para ele e somente abrigar.

Diz aos berros: Homem torto!
Pra vir orar vesti-me torto,
Fantasiei-me torto e digo:
Põem a culpa no homem reto!

Lendo o jornal
Homem reto que era torto fica quieto,
Não desmente o destino certo,
E a gangorra é contínua.

Quando termina o berro
Despe-se ainda torto,
Pois não há vestes para praia.
Enfumaçado em sua barba rala
Que se move ao seu berrar.

Agora na larica
Volta reto pro chiqueiro,
Cumprimenta o mundo inteiro
Pois está de volta ao lar.

Sua cama é reta
E os homens retos estão fora,
Sempre rechaçados,
Ganhando seu jantar.
Evandro Sussekind

Do Impulso Ao Fato

Do Impulso Ao Fato
Eu olho o objeto e discorro sobre mim
Olho para ela e discorro sobre mim
Quando finalmente discorro o objeto
Eles discorrem sobre mim
E eu discorrendo eles discorrendo sobre mim, esqueço o objeto.

Então eu grito, mas o silencio contrapõem o grito
Prepotência! Insolência! Suspendi a brasa do peito para a garganta:
Mundo de merda! Pensei para desabrochar a pétala de cada vogal
Optei pela letra A que corria suave e sonora
E tornei a gritar... Venci.

Cruzei as pernas, mas o vento varreu o cenário e minhas vestes
Fiquei nu, sentado sobre a impotência
Desesperado, levei as mãos ao cabelo e não o achei
Tentei com força empurrar as mãos contra a face e não achei...
Nem mão nem face.
Havia então uma goteira no meio do nada
E foi o que restou dos meus olhos.

Foi então que saiu: Eu te amo.
Evandro Sussekind

23 de set de 2007

Ambiente Feérico Número Um

Monstros
- Ambiente Feérico n.1 -

Desde guri temo o escuro, temo a ausência visual de fótons, temo o reverso da luz; o armário que antes só guardava roupas agora esconde em seus interiores bestas lovecrafteanas, a televisão preserva em sua tela um brilho mortiço a lembrança infantil de “Poltergeist” volta furiosa. Mesmo meus cabelos, no frêmito de susto, parecem tentáculos de seres impronunciáveis; os olhos semicerrados percorrem a penumbra lúgubre que envolve o quarto os cabos do computador escalando a escuridão são como matas xenomórficas, sorriem para mim em sua obscuridade. O espelho reflete uma imagem minha, mas não sou eu, nunca tive dentes pronunciados dessa forma e nem um malévolo sorriso que goteja sua perversão; preciso acender a luz, mas ela está distante, do outro lado de um oceano de vácuo frio cujo visar da imensidão faz subir através da espinha uma sensação de vômito misturada à dor.
Esse é o Medo, não aquele medo do qual você pode fugir e que faz seu sistema endócrino despejar Adrenalina na corrente sanguínea, e sim um medo inexplicável, um pânico sufocante um híbrido de ágora com claustrofobia, um terror de existir em um espaço assim.
A porta se abre, e o feixe de luz queima os olhos, mas essa dor inversa fornece paz um rosto familiar configura-se, ouço a voz :
- Ah , ele está dormindo.
A porta se fecha.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

De Irmão Para Irmã

De Irmão Para Irmã
Tenho para mim: emoções, verbos e poesias
Assim como tenho olhos, boca e ouvidos
Escuto, cantarolo, e enxergo a luz dos dias
Mas não ouso piscar olhos sem o riso absorvido

Tão pequena, tão sabida, sob os cachos da inocência
É de um corpo tão compacto que em meus braços faz abrigo
Olha nos meus olhos, vê as lágrimas e logo se intriga
“Você está triste, irmão?” - Não é nada, meu amor, eu logo digo

Diferentemente de todas as outras, está ali...
Dá gargalhadas exageradas, e então sorri!

Joga bola, chega suja... – Como todas as crianças da pracinha
Não sossega, caminha pela casa, incansável, ela só grita
Ela sorri e nenhuma das crianças se compara à minha
Faz bagunça, leva bronca e com a mãe ela se irrita

De voz aguda e gênio forte ela veio ao meu mundo
Não falava, não andava, nem dente ela tinha
E no peito a sensação que bate bem no fundo
Balança-me a cada riso desta linda garotinha

Tuas exigências, tão ingênuas, me penetram os ouvidos
Numa cadência perfeita que faz dela uma princesa
Tão inocente, ainda falta muito até teres crescido
E num dia no futuro o teu sorriso apagará toda a tristeza

Irmão, é assim que me chamas quando pergunto quem sou
Esconde o rosto sorridente quando está envergonhada
Faz um lindo desenho: sou eu - e pergunta: Você gostou?
Digo que sim – Recebo em troca a tua linda gargalhada.
Antonio Carlos Vilela

17 de set de 2007

Cômodo

Cômodo
Adapta-te primeiro a estar entre cobras
Em seguida se adapta a ser cobra também
Não tenta mais convence-te de usar mãos e pés
E agora aos rastejos vai de encontro ao que és.
Evandro Sussekind

13 de set de 2007

Feira

Feira
Que tens aí amigo?
-De tudo patrão. Verdades, promessas...
Tá quanto?
-Uma mentira cada. Vai levar?
Acho que vou sim, pra patroa...
Retirou seus olhos onde guardava seus valores, e ciente do bom negócio seguiu seu cego caminho certo.
Evandro Sussekind

Oito de Setembro

Oito de Setembro
Vaza-me dos olhos o que resta da chuva
E pinga nas rosas, virando vermelho
Confundo com sangue e mancho as luvas
Que enxugam o rosto que vejo no espelho

Deixo um rastro, um rio no quarto
Rolo escadas e inundo meu lar
Vaza das janelas um oceano farto
Afogo-me em lágrimas, afogo-me ao mar

As rosas plantadas aqui logo viram algas
Os velhos pardais ganham escamas
Os carros nas ruas tornam-se baleias
E nós, os humanos, nadamos na lama

Aproximo-me de meu juízo, meu conforto
Distancio-me de meus berros ao nascer
Estou estagnado em um ponto morto
Esperando a maré baixar, só para crescer.
Antonio Carlos Vilela

11 de set de 2007

Palmo

Palmo
As coisas do céu estão de mãos dadas
E os olhares desatados no dia que não se repete.
Até parece que a flor mais especial se abre ao nada
E que os infernos coincidem no que se segue;
Diante a ilusão do mundo ser apenas essa estrada.

Punho, Palmo, pele, e dedos, e rosto...
Dedos que atingem seus “nirvanas” particulares!..
Palmo, como flor que se abre, tinha, eu, posto
Minhas mãos em teus falares.
Tinha seu toque como um esboço.

Diante do mundo que é tudo,
Abres-se como flor ao nada.

Deus existe quando detesto o diabo
Que vem me confundir com dia novo.
Deus existe e compensa os insultos rimados
Com vidas cinzentas ( o povo ).
Deus existe quando detesto o diabo.

Diante do mundo que é tudo,
A flor abre-se ao nada.

Dentro de meu pulmão há um grito
Das vidas que aspirei contigo.
Cada vez que me acordam de um sonho,
Eu sonho com um assassino.

Não entendo como pude eu suportar,
Como pude respirar e crescer,
Como sobrevivi quase dezoito anos
Sem amar,
E quase nunca sem morrer?
Diego Guerra

8 de set de 2007

Máscara [1]

Máscara [1]
Qual a cor do meu rosto?
responda-me se sabes, não esconda
sabes quem sou, o que penso, quem fui...
não esconda, pois se sabes, só responda!

Que detalhes estampam meu olhar esta noite?
Falsas lágrimas, picadeiro - profundo olhar
maquiagem, mentira, amor, raiva, solidão...
Diz a musa: 'Vida longa, meu amor de pés no chão!'

Máscaras ásperas deslizam e denunciam
sorrisos e prazeres - lacrados pelo véu
palavras que por medo silenciam
o fraco homem são que plana pelo céu.
Antonio Carlos Vilela

6 de set de 2007

Poker de Cartas Marcadas

Poker de Cartas Marcadas
A gota resvala do copo e mergulha no verde oceano de feltro
O ar sobe e desce , revoando em tempestade , peito a dentro
Apostas altas se aglutinam , moedas tilintam, é o som do desejo
Possibilidade, ganho, perda são as únicas palavras que no escuro vejo

Vivo pelo dinheiro e por ele sou capaz de matar
Põe-se a frente da mira do meu revólver , no perigo vem refestelar
Whisky sky , as high you fly as fast you die
Quatro ases , quatro balas , sou eu a ultima moeda que cai.

Viva a Sorte!
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

4 de set de 2007

Gato de Cheshire

Gato de Cheshire
Caminhei, sem andar.
Esqueci-me de lembrar,
E hoje nem lembro o meu tamanho...

Já até me esqueci de te achar estranho.
Viagem de ir e voltar... e estou no mesmo lugar.

É preciso lembrar onde estou.
Antes te direi quem eu sou,
Só aguarde eu recordar meu nome...

O céu espelha o mar que consome
Todo o oceano em uma xícara de chá!

Disse para não por o gato diante ao espelho,
Disse para não seguir o coelho...
Mas na verdade não disse nada,

Pois, ao contrário, viajo na direção errada,
E não consigo sentir-me inteiro

Sem antes sentir teu cheiro azul,
Reflete azul mas é quase vermelho nu,
Como o devaneio que gravita as flores.

Não preciso sentir mais as dores
Quando a noite está no meio.

Desenhei tantas criaturas estranhas,
E todas tinham os olhos de aranha,
E todas eram engraçadinhas...

Lembravam-me até nas risadinhas,
Mas não na voz fanha.

O tamanho do sorriso do gato...
Diga-me – por onde seguir? Dá-me um rasto... –
Ele, pôs-se a sorrir com dentes tortos...

Desenhei tantas criaturas, pareciam corvos
E escrivaninhas.
Diego Guerra