30 de ago de 2007

Guerra

Guerra
Sons de guerra, sons de bares, sons de sexo
Corroendo pelas ruas os ouvidos dos moribundos
Que festejam nus à solidão do mais complexo
Anoitecer, o anoitecer dos vagabundos.

Dizem nas vielas que o sol está caindo
Vêm dos céus as explosões – que iluminam esta terra
Chove dor por toda parte... Veja, o mar está subindo
Cai na água a sentinela – fruto vasto nesta guerra

Banham-se no sangue de irmãos, pais e filhos
Nada sabem, nada falam – só escombro
Vejo velhas e mulheres que se caem nos ladrilhos

Tantos homens vão de verde, carregados pelo ombro
Hoje já não canto em meus banhos, pelo que testemunhei
Pois se canto já me lembro destas noites que sonhei.
Antonio Carlos Vilela

29 de ago de 2007

Toda a Fantasia

Toda a Fantasia
Toda a fantasia de volta;
As palavras são ouvidas em dobro
Com as mesmas letras e notas.
O ar respira louco!

E a fumaça, o ar lambe, o ar corta...
Horizontalmente em cores mágicas!
E a vida é mais morta
Que sua própria charada.

Precisar amar o intocável,
Precisar tocar o proibido,
Os olhos que giram parados
Em busca de algo mais que amigo.

Seu rosto rolando pelas temperaturas...
Suas frases (só as verdadeiras)
Que são perfeitas loucuras,
E que serão sempre as primeiras.

Se fujo de seu olhar que me mira,
Todo ponto final pontuará uma mentira.
Diego Guerra

Outra Lágrima

Outra Lágrima
-I-
Oh! Dona pequenina,
Das frias noites vens me consolar.
Conduta de boa menina
Que nem viu o monstro chegar...

Me aproveito dos lábios que você
Deixou em uma noite para mim...
Eu sei que o motivo de não ver
Está ancorado no meu fim.

E é sempre tudo isso que me modifica,
E são nossos problemas que nos unem.
Penso no lugar onde estás, onde ficas,
Aguardo saudoso os teus bobos queixumes!..
-II-
Sua criança magnífica,
Tens pensamentos tão vagos...
Somos eternamente igualados
Pelo que nos sempre multiplica.

Consolo-me, e ainda penso
Em vingar-me de teus abutrezinhos.
Pelos dias que estive tenso,
Fazendo sofás e camas de ninho...

E por ultimo, massageio o seu corpo
Tocando em tantas superfícies,
Sorrindo em seu sorriso, como louco,
E lembrando do que nunca me disse.
Diego Guerra

28 de ago de 2007

Ruínas De Um Velho Louco

Ruínas De Um Velho Louco
Amar como um louco aquilo que cria
Até que um dia o quarto esvazia
E o sorriso do filho põe-se a voar
Na janela da torre em que o vento rugia
Rolavam as lágrimas – juntavam-se ao mar

A tristeza ecoava pelos vãos do portão
E o ombro caído que só tinha a mão
De um velho amigo que tentava ajudar
Um louco perdido caído no chão
Um louco perdido que chorava no mar

Nostálgicas gotas – eternamente!
Por um fruto de árvore desde a semente
Memórias de um louco, que o fazia rir
Que agora marcado com a morte à frente
O transforma num velho, um velho a ruir.

Amar como um louco aquilo que cria
Até que um dia o quarto esvazia
E os corvos cinzentos põem-se a voar
Da sacada mais alta, onde a brisa é mais fria
Caíam os corpos – juntavam-se ao mar
Antonio Carlos Vilela

26 de ago de 2007

Le Voyage

Le Voyage
- Madcap Still Laughs -
Desde sempre, estive pronto para viajar ;
Um tablete sobre a mesa dissolvida na massa indistinguível de cores
Sob a cama, risadas e Boris rolando entre as cobertas, seus consortes Coroa solar obscurecida, galaxoexplosões cortam rotineiras cortinas

Tomo banho, mas é mercúrio ao invés de água ;
Cheira como amônia do mesmo monstro de escuridão e rutilância que a expele
Domitila vomita suas sapatilhas sobre as touceiras de florescentes tílias
A imagem através da janela, são ridículas as pretensões dessa mulher

As vezes danço no escuro e dança comigo a Princesa dos Cisnes Islandeses
Pássaros Negros aprendem a voar enquanto movemo-nos em um dervixe extático
A relva rosada enrodilha meus pés e coça meus dedos, pureza selvagem
Que é como a minha poesia sem rima sem linha só volúpia e violência

Sou Ícaro ; O céu é minha morada então porque pousar ?
Não temo os tentáculos furiosos de Soleil-pére pois frondosas são as asas minhas
Asas são pílulas , a cera é whisky e Dédalo já está morto a incontáveis eras
Erínias , rogueis por mim.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

22 de ago de 2007

Ocaso

Ocaso
(um soneto de amor)
Já me cega os olhos negros uma vasta bola de fogo
A mesma queima o solo e o céu furta-cor
De um horizonte que abriga o som das aves em galhos ocos
E enlouquece os mortais em breves contos de amor

São doze horas sob um céu incendiado
Enfurecido pelas dores que o tempo provocou
Um triste astro solitário apaixonado
Deveras chora sobre a terra que o amou

Os velhos que por lá viviam nos deixaram testemunhos
Narrativas sobre uma tragédia que destinos abalou
E os crentes deste romance que hoje selam punhos

Hão de sempre olhar para as nuvens que o astro abraçou
O Sol se foi, deu vida à nova Lua – sobre o azul de um mar imenso e raso
E às cinzas do incêndio eterno de nossa existência, a vida se resume ao ocaso.
Antonio Carlos Vilela

19 de ago de 2007

Telefone

Telefone
Acordo; e sou um Telefone no Largo da Carioca, sou uma armadilha para o cidadão comum.

Acordo; e sobre a cama mulheres cujas faces eu não lembro de ter visto, e a boca tem gosto de vômito e a cocaína ainda forma trilhas pelo chão mas, não sou eu. Sou apenas um Telefone no Largo da Carioca.

A tarde ruge; e o Sol fosco da zona Sul em um dia nublado corta as cortinas , e a filha de treze anos do síndico está em minha cama , nua dizendo obscenidades em meus ouvidos , mas não em meus ouvidos pois sou um Telefone , ou acho que sou.

Ipanema, a noite eu caminho pela praia , tenciono seriamente estuprar uma mulher é um desejo recorrente . Sou um Telefone , distante dali.

Quando olham para mim , vêem um homem perfeito ; e sou um monstro acuado em meu mundo de crueldades escondidas , a personificação da farsa , um telefone .

Vazio , de um lado palavras , do outro mais palavras uma dimensão que não existe , impulsos elétricos .

Sou um Telefone no Largo da Carioca.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves - after hiatus.

17 de ago de 2007

A Um Poderoso Rei

A Um Poderoso Rei
Finge que não ouve meus apelos de criança
Só porque o teu sorriso é de um velho sedutor
Fala coisas, ri pra mim... manda lembranças
E no fundo é a besta travestida de criador.

Antonio Carlos Vilela

6 de ago de 2007

Isto não é um poema nem musica,é saudade!

Depois de Monique, meus olhos se perderam
Pior que cegos, estão mortos passivos a qualquer movimento.
Depois de Monique, não sinto mais os cheiros, quando não o dela só o odor de minhas entranhas secas, me lembram o que há no ar.
Depois dela não mais sou homem, visto que perdi a fala (que sem ela não se dirige a ninguém), os vícios (que sem ela perdem sua fonte), e os desejos (que sem ela nem existem).
Depois dela, já não mais me compete minha personalidade, muito menos meus poemas, os meus cabelos ao vento são mais dela do que meus e meu espírito esta lá com ela traindo o próprio corpo.
É difícil para um cético declarar... depois de tanto desdenhar a vida

É de amor que eu estou morto.
Evandro Sussekind

5 de ago de 2007

O Conflito

O Conflito
-I-
O que há no fundo deste copo?
O resto de um veneno
Vejo pessoas em retratos, fora de foco...
E silhuetas de um homem escrevendo
-II-
- Crucifiquem o homem a chorar!
Grita, em êxtase, o comandante de mim.
- Mate se por acaso ele lutar!
E como geme aquela boca de marfim...

Os soldados, todos cegos, surdos, mudos...
Não percebem, mas apagam as próprias vidas
São bonecos usando fardas e escudos

São tão puros, e são meus
Frutos de minhas loucuras benditas
Onde sou plebe, sou rei e sou Deus.
Antonio Carlos Vilela

4 de ago de 2007

Prelúdio Ao Velho Desolado

Prelúdio Ao Velho Desolado

Eu nunca tive medo, e se tive, não tive medo de esconder. Logo percebi que eu era homem frio, destes que se balança na hora do desespero a perguntar se nada sente ou tem a dizer.
Nunca dialoguei e sempre me comuniquei por gestos, nunca olho no olho e sempre um degrau acima. Enojava-me o sangue latino,quando me perguntavam sobre minha origem respondia como que fora de contexto a minha descendência,minha mãe que aos sábados cantava músicas deste país que eu desdenhava logo viu: você tem sangue frio moleque, e quem tem sangue frio nasce pra ver sangue, ou vira bandido ou vira doutor.
A velha estava certa, como sempre esteve, e nunca errava talvez por trauma do seu erro fatal: meu pai.
Tornei-me doutor, não só isso como um dos mais conceituados, trabalhava ora no estado, hora por mim mesmo, e foi na emergência de um hospital desta terra seca onde vivo que o episódio se passou.
Na minha hora do almoço eu me negava a almoçar, talvez pela qualidade da comida do hospital, talvez pelo vício em estética que herdara do meu pai fazendo-me sempre querer emagrecer. Como não lia com gritos, já não trazia livros para entreter-me há tempos então me limitava a andar pelos corredores no desejo de colocar um charlatão europeu em meio aquele lugar dantesco e perguntar-lhe como estava sua estadia no inferno, quando o que eu mais queria era ser um charlatão europeu. Ariano e residente no céu. E foi em um dia destes que aconteceu.
O cabelo dividido em paralelas de gel bem alinhadas para traz, não mentia sua idade, via através das mesmas, vestígios de sua careca branca. Na face, a pele se dobrava sobre a pele, como que fugindo de seu astro maior: o par de bilhas azuis que levava na cara a saudar o nariz longo de ventas largas. Sua boca já sem cor não me deu menos que o único sorriso puro que já recebi em toda minha vida, sucedendo-se então pela fala:

-Porque não se senta?
Sua voz possuía aquele sarcasmo inocente dos anciões que vivem para fingir a inocência mesmo quando a vida já lhes é um jogo ganho. Persuadido pela sua doçura sentei-me e perguntei:
- que faz aqui meu senhor?
Ele respondeu:
–agora apenas ocupo espaço
-Espera por alguém? (perguntei sarcástico olhando para os lados)
-Não mais, o amor de minha vida acaba de falecer no quarto em frente e agora acredito resumo-me apenas a ocupar espaço.
-Deseja que eu chame um táxi? Perguntei-lhe já demonstrando sinais de impaciência como que para demonstrar que ele não era o único do tipo que via por dia e que outros haveriam ainda no mesmo dia a chamar-me para sentar e ouvir sua desgraça momentânea e minha maldição diária.
-Não. Ele respondeu já darei muito trabalho aos senhores. Vocês médicos devem saber cedo ou tarde como pesa um cadáver.

-Bom. É um dia difícil para todos nós, mas não sei se compensa as dezenas de mortes que já vi de indivíduos que nada tem a ver comigo com a sua única morte vista,que porém leva consigo o seu existir.

Ele riu, e disse mudando de assunto: nunca pensei que ela se fosse antes de mim, ainda tinha a força da juventude, as ancas que me trituravam o sexo, e os olhos que antigamente bailavam com os cabelos mais negros que a noite.
E eu disse já aflito, mas ainda em baixo tom: levante-se homem nada mais tem a fazer aqui.

-Não mais levantarei. Estou à espera de alguém, ele declarou.
-que alguém?
Alguém que acaba de chegar... Meu ultimo suspiro
Fiz cara de compreensivo, mas logo vi que não havia mais ninguém ali para me observar a face, agora ele era um cadáver, que em um relance se enamorava e dialogava com seu ultimo suspiro, e eu compreendi saindo dali que aquilo não era dialogo para três...
E eu tinha uma tarefa árdua agora... Achar um amor para a vida toda.

leia o poema abaixo para conclusão...

O Velho Desolado (sobre os tempos de cólera)

O Velho Desolado
(sobre os tempos de cólera)
Meu ultimo suspiro, há quanto tempo tenho esperado por ti.
Tornei-me para a família um estorvo e logo quando tudo se torna claro, ninguém ousa escutar.
Esperei tanto pelo momento que sentaríamos juntos a rir.
Mas agora todos temem minhas conclusões e chamam inlucidez a tudo que lanço no ar.
Trai muitas damas e muitas delas em meu peito esqueceram os amores passados.
E como se eu estivesse à vida toda nesta posição estado me chamam apenas de o velho desolado.
Sabe suspiro, também senti falta, também chorei, e mesmo exemplo de frieza achei inconscientemente que você nunca viria para mim.
E dentre tudo que imaginei como morte, nunca cogitei um dialogo tão simples assim.
Ah! Suspiro, do seu tipo conheci diversos
De guerra, de alegria e os proibidos de damas que seduzi pela cidade.
Venho respirando em cólera para apressar sua chegada
E neste ultimo momento crio paixão pela obra-prima de que fiz minha vida, cada pessoa e decisão frustrada.
Neste ultimo momento vejo que certas batalhas são inúteis e crio curiosidade pelo inevitável.
Vejo que lutaria as mesmas lutas novamente e desconsideraria a palavra inviável.
Ah! Gostaria que minhas paixões narcísas aceitassem meus inúmeros pedidos para bailar na chuva.porém isto seria outra inútil luta.
É suspiro eu tenho um compromisso e você sabe disso.
Esta na hora de me erguer desta velha poltrona, não em corpo, mas desta vez em espírito.
Sabe suspiro, não tenho mais idade e isto impossibilita meu ultimo desejo.
Algo que me prometi ainda menino
Sem realizá-lo não morro, então não peço ordeno que cumpra este ultimo favor.
Abrace-me e me possua suspiro, pois em nome da morte que concebi digna, seja meu ultimo amor.

Evandro Proença Sussekind

Teu Dom De Errar

Teu Dom De Errar
Fingir... é o que sei fazer
Mentir... é um de meus pecados
Mas de que vale sorrir, se é mentira?
E fingir já não é mais errado...
Acreditar... é brincar de prometer
Machucar... é conseqüência previsível
Mas se minto e não demora p’ra chover
A tua falsidade deixa um rastro mais visível
Lamentável, lamentável, jovem Lua!
Mentes, finges e machucas
Justo a mim, que sou poeta e teu amante!
Bravo, bravo, dama nua!
Machucas, finges e mentes
E não vês as lágrimas por trás de minhas lentes.
- Eu finjo também, e até hoje rio desse dom que tens de errar.
Antonio Carlos Vilela

Cegos

Cegos
O cego é o mais forte dentre os homens,
faz canção dos soluços lacrimosos...
fecha os olhos, e as imagens logo somem
e os verbos vão soando rancorosos!

Os cegos são os mais fortes dentre os homens,
não podem ver o sorriso de mulher...
e nem lembrar das risadas que consomem
o frágil homem, que não cego, que é homem
é sempre fraco... só enxerga o que quer.
Antonio Carlos Vilela

1 de ago de 2007

Manhã

Manhã
Na já tão sabida chícara vou de encontro à utopia
No reflexo desamputo o meu mundo do de lá
Na janela que só eu vejo magia
No jornal que só eu vejo mudar

Nas árvores que só se curvam sobre mim
No mundo de Alice onde eu sou diplomata
Faz-se vivo o chão de prata
Que Maria vai encerar

Na floresta de pinheiros e espelhos
Tudo vivo - dá no mesmo
Gêmeo suicida gêmeo
Porco escraviza porco

No mundo ventania
Vai Maria vem Maria
Em infinitos de varrer
Em ordens e progressos

E o amanhã de lá
Eu mesmo já prevejo
Maria vem Maria vai
E o jornal continua o mesmo
Evandro Sussekind