29 de dez de 2007

O Resto

O Resto

Olha quem vem de lá
Um rasgo no céu, um cometa
Caminhando devagar
Coberto de vermelho, com a cara preta

Estive no mar por uma eternidade
Saí por sobre as ondas seguindo a luz do Sol
Engasguei, respirava com dificuldade
Tudo era tão cinza e iluminado por um farol

Estive a ponto de chorar, quebrar-me
Rompi então a carapaça cinzenta, estive nu
Enxerguei tudo em cores, sentei-me

O pó da solidão era tão lindo, amarelo e azul
Quando tudo vira giz, só nos resta rabiscar
Fiz um mundo, um novo amor, um céu, um novo mar.

Antonio Carlos Vilela

24 de dez de 2007

O Orfanato do Sono

O Orfanato do Sono
Duas garças voam, atravessando o rio
As flores colorem-se, exibindo-se p’ro mundo
E o céu é sorridente, atrás das nuvens de algodão
Crianças brincam à beira de um sonho profundo

Dançando, giratórias e cantantes, dando as mãos
Sorrisos sinceros, ingênuos e bem alimentados
Borboletas cor-de-rosa encantando as meninas
E os pés molhados dos meninos encharcados

O entardecer traz as nuvens para trás das colinas
Como nos retratos, o céu está belo e vermelho
Numa mesa comem felizes, as crianças do sono
E o jardim é verde, recheado de flores e coelhos

A Lua chegou, hora de deitar, hora de sonhar
Fecham os olhos todos eles, moças e mocinhos
Tão bonitos, encantadores, sorridentes e amados
Esperam o amor de uma família em seus caminhos.
Antonio Carlos Vilela

Ruas Quadri-Dimensionais

Ruas Quadri-dimensionais
Lembro de subir a rua, lembro das risadas dos meus irmãos logo atrás, todos nós de hálito prenhe de álcool e boca cheia de riso, o abraço do braço amigo enlaçando meu pescoço, suspensório raspando no chão e silêncio partido pela trilha de obscenidades divertidas que afluíam de nossas mentes. Falávamos do amor e do sexo, com a leveza que só é permitida aos delirantes, lembro de ter em cada mão uma garrafa de vodka barata; não éramos doentes, não havia dor e muito menos solidão.

Hoje caminhei pelas mesmas ruas e não havia nada, luzes esparsas de antevéspera de natal, nenhum barulho exceto o do farfalhar das barras compridas das minhas calças na terra molhada; deitei só, no colchão empoeirado e cheirando a gato, esperando alguém, qualquer um, para me oferecer um carinho, um gole de uísque ou uma nesga de atenção. Ninguém veio, essa noite não deveria ser perdida no sono; fui ao centro, deslizando ruas abaixo de tênis enlameado, o último bar aberto, com seus dois bêbados cativos esmorecendo no fim de noite, pedi a saideira, a saideira da noite, do dia, da vida.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

21 de dez de 2007

Sem Sentido

Sem Sentido

Sonoro, tudo é tão sonoro
O que é mudo não se cala e continua a gritar
O silêncio é apenas impressão
E a fumaça sussurra: Não!
O que é raro por aqui, onde os sons podem tocar


Um rosto delicado ou até a sua alma
Risadas exageradas vêm de fora das janelas
E são todas surdas, não se compreendem
Nem mesmo os velhos sábios que de fato as entendem
Resistem aos delírios destas bocas amarelas

O horizonte tão cansado fica cego.
Onde foi parar o Sol e as nuvens brancas do azul?
As velas não têm fogo, os isqueiros sem faísca
Chora a criança que não vê onde rabisca.
E agora não há leste, nem oeste, nem o norte e nem o sul.

Os jardins encantados são agora como água
Inodoros como o vento e intocáveis como o ar
As moças e os românticos estão agora desolados
Sem fungar os grãos de pólen das tulipas do gramado
Enfadados, os amantes já não podem prosperar.

E assim termino: cego, surdo, mudo, insensível e sem as rosas p’ra cheirar.

Antonio Carlos Vilela

18 de dez de 2007

Eterno Reduto

O Eterno Reduto
De enlace em enlace
Pulando telhas vazadas e calhas fendidas
A casa com o tempo se arruína
O homem com o tempo fenece
Mas a idéia que lhe queima o espírito, esta tem seu eterno reduto

No fundo do mundo, no nodo do todo
A brasa retumba e crepita elevando e enterrando seu protetor

O voluptuosa amante que é a madame Liberdade
Ela, que em seus braços carrega os mais tenros amores
Debanda-se para o lado dos homens que lhe presenteiam
Reza credos de muitos deuses e alimenta mais uma gaiola
O fogo nascido no reduto do grito, a faz de novo plena mulher.

Em canto exasperado clama pelo beijo de tão caprichosa donzela
Aquele afogando-se no cotidiano e ignorante despero do conformismo
Ela lhe responde com duas direções - mas a escolha mais sábia reside no Eterno Reduto
O híbrido do Cognitivo e do Incógnito são a única bussola a se seguir

No escuro da iluminada solidão, o homem descobre seu passado e projeta seu futuro
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

15 de dez de 2007

O Vento

O Vento

Das janelas, pelas frestas, vem o vento
Forte, veloz, destrutivo e tenebroso
Esvoaçando folhas, fechando livros
Batendo portas, veio o rigoroso.

E me avisou sobre tudo, durante a barulheira
Foi como um sonho louco, mas era real
Com um ar de arrogância incomparável
Gritou comigo e transformou-me em animal

Das janelas para fora era tudo beleza e calmaria
Das mesmas para dentro havia um holocausto
Não era como Vivaldi, soava como Beethoven

Era a mais bela revolta da natureza, tão áspera e nada lisa
Oh, fenômeno sombrio dentro de mim. Louvem!
E lá se vão velhas risadas até que o vento vira brisa.
Antonio Carlos Vilela

14 de dez de 2007

Último Canto Antes do Fim

O Último Canto Antes do Fim
- ramo desfolhado PT. 2 -

Eis que encaro o Fim;
Um nó em uma trama de infindáveis cores e brilhos, um marco de era
A última estocada, precisa e furiosa a transpassar o flanco da fera
Fios trançados de sorrisos, lágrimas e intrigas untadas de betume
A distância aumenta, até sobrar da chuvosa noite só o negrume

O açoitar da água no chão ;
Parte o navio rumo a destinos incertos, sem carta marinha e nem timoneiro
Desdobra-se o tempo em formas e tons como no vidro sob o sopro do oleiro
A chuva lava o convés e lava os olhos do homens de olhos sempre despertos
E o marinheiro metido em gabolices proclama – quando voltar , tenho três amores de braços abertos -

As vozes experientes dizem-me
- dê tempo ao tempo ;
e em minha mente rocambolesca surge – para que o tempo, que já é o tempo, quer o tempo que simples humanos como nós podem oferecer ?
Prazeres Singulares, eu vos digo.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

11 de dez de 2007

Submersão

Submersão

Não vejo as baleias. Voltem minhas orcas, voltem!
É tudo azul, dentro de uma redoma surda

Aqui apenas há solidão. Nem solo existe mais

E lá em cima é só mistério, uma neblina absurda

Gosto daqui debaixo. Abaixo de tudo e acima do nada
Raramente nascem flores, umas flores do mar
Exalando no azul uma fumaça rosa que lembra as ondas
E aqui as ondas são a chave do céu, como as nuvens de lá

Que saudades dos pelicanos, bem-te-vis e pombos
Quase sempre ignorados por nós, os tais racionais
Sinto falta de um canto pra sentar


Aqui não há sentimento, sentido; apenas paz
Longe do perto e perto do longe como há tempos atrás

A luz é sempre apagada por medo de errar.
Antonio Carlos Vilela

8 de dez de 2007

Minha Ave

Minha Ave
- Friendship in alien landscapes -

Não é como olhar para as nuvens
Nem como admirar uma velha árvore
Os pássaros voam, eu nem ligo
Só consegui sentar no chão de mármore.

Tentei encontrar por toda a floresta
E só me restaram os ramos desfolhados
Em nenhum daqueles galhos eu o encontrei.
Desolado, perdido, vazio, desesperado.

Bata as asas de forma forte e bonita
E grite embriagado enquanto voa.
Minha ave, meu amigo, voz que ecoa

Tem em tua patinha aquela velha fita
Com meu nome em letras rabiscadas,
Tortas, ímpares, sujas; como nossas piadas.


-Pra você, Jean.
Antonio Carlos Vilela

4 de dez de 2007

Jornada do Desespero

Jornada do Desespero

Com quantas letras posso me arrepender em forma verbal?

Uns copos na pia, três pratos sujos, umas gotas irritantes.
Assim começa a jornada do desespero.
Ao fundo do quarto, vê-se que sou eu cortejando as estantes
Brincando, inocente, com os dedos no isqueiro

Incapaz de sorrir, eu caminho até o banheiro, querendo um espelho.
Bagunço meu cabelo, faço caras e bocas
Nada disso me faz rir, tampouco chorar. Sou assim, feito de pedra
Ofegante e estúpido cuspindo vozes roucas

Decidi não acreditar em anjos, muito menos em deuses
E sou sempre assim, feito de pedra
Quando chove agarro-me em galhos e os mesmos sempre quebram
Caio no chão e não sinto dor, pois sou feito de pedra

É tão difícil assim fazer amor com os bons abraços?
Verdades, verdades e verdades. Só queria dizê-las
E quando sinto o chão gelado, enxergo tudo embaçado
Fecho os olhos e fujo para longe, além das estrelas

Estive eu apagado por umas estrofes? Talvez, sempre talvez.
Delirando a cada metro caminhado dentro de casa
Suando frio, sangrando por dentro ou chorando por fora
Sinto aos milhares as saudades que ardem em brasas

Não me restam forças para encarar o sinteco gasto e as paredes pintadas
Já não sinto as pernas que me guiam por dentro da grande gaiola
As janelas estão trancadas, estou fora do alcance dos olhos do céu
Choro no chão por piedade como um velho moribundo pedindo esmola

Sussurrando, gemendo, agonizando, tremendo. Foi assim que terminou
Rastejei-me pela porta até que finalmente fiquei de pé
Cravei a chave, girei a maçaneta. Minhas mãos e os dedos tortos sentiam dor
Verdades, verdades e verdades! Gritei verdades inundando o corredor.

Minhas verdades são o mais puro arrependimento.

Antonio Carlos Vilela

2 de dez de 2007

Ramo Desfolhado

Ramo Desfolhado
Existem ótimas metáforas para o tempo;
O curso de um rio, uma dobradura de Moebius, uma chama a queimar
Para a visão encerrada nestes olhos, sobrou só o mórbido a respirar
Os dedos correm pelo ramo e a cada passada o número diminui
Da árvore morta, o galho partido, o tempo passado e os amigos perdidos.

Devoro - Carne e sangue, dúvida e elucidação,bálsamo e veneno
Vivo- Sabor do vento na língua, no peito tremor terreno
Devoro – Minutos rápidos e eternos, Horas melífluas ou distantes
Vivo – Desfolhando um ramo e eliminando pessoas redundantes.

Vocês lembram de tempos mais inocentes, onde nossas prioridades eram outras ?
O tempo passou; a folha rasgou, o desenho borrou e o sonho partiu.
Jean Gonçalves Limoeiro

26 de nov de 2007

Quando Cambaleio

Quando Cambaleio

Não conto os meus passos descalços
Tentando disfarçar e não olhar pros pés
Tão sujos, feridos, doloridos e cansados
Mas é inevitável – sete, oito, nove, dez...

E quando noto, choro de dor ou por amor próprio
Finjo rir soluçando, ao rastejar de meus calos
Enquanto olham-me os “racionais” enojados
Falantes como sempre. E eu aqui a detestá-los

Onze, doze, treze, catorze, quinze... – Não paro!
Tropeço e ralo meus joelhos; quando eles riem
Não me zango, sorrio, e dou uns passos tortos

Amparo-me nas bordas da mentira. Apreciem!
E antes do vigésimo quinto toque no chão
Olho pros lados, e quando rio, estão todos ali, mortos.

Antonio Carlos Vilela

22 de nov de 2007

Apenas Beijos

Apenas Beijos
Ó fascínio! É princípio, é suspiro...
Ao redor a dança dos sons é muda
Gritam, gritam as pupilas sob os cílios
Até que as línguas se unificam e desnudam

Duas bocas frenéticas, abertas e fechadas
Os olhos se trancam e apenas imaginam
São tantas palavras silenciadas por segundos
De amor, desejo e atos que alucinam

Vinte dedos que tateiam cada poro
Incansáveis! – Cabelo, ancas, seios, peitoral...
Vinte dedos, quatro mãos, dois corpos

Abrem-se calados por um odor inodoro
Desnorteados sorriem por uma graça banal
Dão um trago no cigarro; dão um trago num dos copos
(E acordam finalmente de um sonho tão real).
Antonio Carlos Vilela

Malditos Ponteiros

Malditos Ponteiros

Os ponteiros, malditos ponteiros...
Apontam a segunda hora do dia
Sob a Lua, tão carente de alegria
Os ponteiros, malditos ponteiros...
Limitam toda a minha fantasia

Estou perdido dentro do meu mundo
O paraíso das baleias deteriorou
Diante de meus olhos vermelhos, e ela chorou
Estou perdido dentro do meu mundo
Entre a fantasia e a aquela me amou

Injusto perder o desejo momentâneo
Por decência, medo, moral ou respeito
E manchar eternamente o lençol que deito
Injusto perder o desejo momentâneo
Quando é jovem e não se sabe amar direito

Antonio Carlos Vilela

Soneto para o Retorno

Soneto para o Retorno
Volto agora, sombrio, possuído pela bruma
Frustrado, um tanto perdido
Tão pequeno, num mundo escondido
E durmo sempre sozinho, esperando que isto consuma

Meu corpo, meus erros e quem sabe meus acertos
Mesmo que doa a quem me ama
Sendo uma dor que grita e chama
Seus corpos, seus erros e os suspiros obsoletos

Cintilante voa rubra, a borboleta
Que não crê nas bondades de Deus
E tampouco nas maldades do Capeta

Por toda a minha sanidade procurei uma loucura
Percebi que estes sonhos são só meus...
E no hedonismo encontrei por fim a cura.
Antonio Carlos Vilela

19 de nov de 2007

Feéria

Feéria
O Homem bebe, sorve cada mísera gota de seu copo de vício
Em seu corpo a mágica percepção irrompe rasgando como um cilício
Brumas desmanteladas, cortinas abertas para espetáculo da visão
Feéricas formas alinham-se exortando-lhe o corpo e o coração

Portões que foram escondidos quando se formavam sinapses
Recobertos por mecâno-tele-grafias e permutadas neuroses
Segredos dispersos no espaço, disponíveis apenas os filhos da oneiromaquia
Ou para os que se deixam levar pelo toque da anseida autarquia

Gritos de felicidade, lágrimas fugidas ofuscadas pela rósea luz
Paisagens adocicadas risadas, tardes árcades e beijos de alcaçuz
E bêbado de amor o homem vocaliza seu amor
Tui lucent oculi
sicut solis radii,
sicut splendor fulguris
lucem donat tenebris.
Jean Felipe L. Gonçalves

- escrito no teclado virtual, e viva o amor.

2 de nov de 2007

Como Sempre

Como Sempre
Quantos beijos viraram abraços?
Quantos corpos viraram adubo?
Quantas letras viraram poesias?
Quantas mortes viraram cemitérios?
Quantas verdades viraram heresias?

Tenho tantas dúvidas que mal consigo calculá-las
Sobre mim, sobre quem, sobre tempo,
Sobre além!

Venho de um sonho, pai de desejos frívolos
Quase todos utopias, quase todos pervertidos
Eu que jovem, guardo mágoas e cuspo poesia
Como barata, sou temido e sou todo covardia.
Quase todo pele e osso, minto sempre, divertido

Quantas lágrimas viraram tragos?
Quantos copos viraram embriaguez?
Quantos fatos viraram história?
Quantos sorrisos viraram lembranças?
Quantas mentiras viraram verdades?

Sinto medos em forma de argila, ferro, concreto
Medos de mim, medo de quem, medo do tempo,
Medo do além!

Amo a fumaça que me cobre quando me escondo
Mesmo que visto a olho nu – Estou ali escondido
Como meus sonhos, minhas eternas mentiras
Brilham: cristais, ouros, pratas, rubis, safiras
Quase todo pele e osso, como sempre, comprimido
Antonio Carlos Vilela

30 de out de 2007

Verões

Verões
Fujo dos olhos de Horus; calor impecável. O mais breve amor sentido nas oitavas daquela voz viera buscar no esconderijo, qual faz toda a Lebre atroz. Só aí confundi olhar, perfume... E veio então plantar no cego, que se mata de êxtase e ressuscita com café em manhã de inverno... Em uma noite extra que tragara o ar gélido da Serra, comprimindo o coração como um rato. Olhos de Horus; amor antigo, primavera... Veio todo enrugado mostrar, no verão, o caminho.

Sorrindo com ódio o mesmo texto vazio, do Sol traído e trocado. Escorreu no tal semblante um velho vinho, para o mamífero mais desejado. Fujo! Fujo! Aspiro, tusso, escarro, lato, e definho. Dentro da casa a mobília ri, ri de mim e do que não digo. O brilho fabrica as sombras... Esse bairro, esse Mar distinto! Outro sol examina as ondas – Dentro da casa a mobília rindo.
Diego Guerra

22 de out de 2007

O Homem das Palavras

Ilustração: Antonio Carlos Vilela
O Homem das Palavras
Tantos homens caem mortos, viram pedras
Perante à tanta fome, doenças e filosofia
Nenhum de nós compreende cada palavra
Finge que ama e escreve poesia

Filhos desconhecidos, conhecidos ou perdidos.
Todos eles falam... E os que não falam, respiram.
Nenhum de nós compreende cada palavra
Só os corajosos que apenas suspiram

Em filas indianas, pingam as gotas de bafo
Cerveja, Uísque, Licor ou Champanhe
Nenhum de nós ousa saber aquelas palavras
Ignoramos as verdades, admiramos o mendigo que se banha

Vem um homem lá do fundo, onde é escuro
Cantarola uma bossa: nova ou antiga
Esse sim, conhece bem as tais palavras
Mas não rima, o motivo é a cartola que o castiga

De joelhos, põe-se a chorar sobre a folha que no chão aterrissara
Era composta de sessões pautadas – de cinco em cinco
Naquele papel tornaram-se nítidas as tão difíceis palavras
Que apagaram nas cinco lágrimas cortantes como zinco

Era tão sério o pobre homem
Que virava pombo num chafariz
Nascia das fumaças que somem
E voa cinza! Oh ave imperatriz!
Antonio Carlos Vilela

14 de out de 2007

Alma

Alma
Adora teu corpo
Cordeiro de deus
Casaco de pele
Com pelo de bicho

Da cintura pra baixo
Ela tenta sair
Trazendo ereção
Ou cagando lixo
Evandro Sussekind

13 de out de 2007

Quanto à Morte

Quanto à Morte
- Ainda no paraíso -
Saber morrer não se trata de apagar.
P'ra saber morrer basta viver enquanto morre.
A busca às baleias apenas começou,
E já falo sobre morte como se sábio fosse eu
Que morrerei sem nem ao menos saber que não vivo.
Antonio Carlos Vilela

10 de out de 2007

Uma Tarde

Uma Tarde
Foi como sempre aconteceu
Éramos nós dois e a nossa paz
Fez tanta falta ao tolo "eu"
Essa harmonia que me traz

Foi como há muito ocorreu
Seja a lua, o céu lilás
Veja que a tarde escureceu
Aquela luz não volta mais.
Antonio Carlos Vilela

Máscara [2]

Máscara [2]
Vêm as ondas. Vão as espumas
A maresia é tão serena esta noite
Das gaivotas caem as plumas
Como as do pássaro que tu foste

Vivo de música e poesia – Quanto a ti?
Não leio teus medos e nem teus arrepios
Basta se quebrar ou se partir
P’ra eu descobrir de onde vêm os assobios

Quem governa? Quem ama? Quem sofre?
É tão difícil de saber, sempre foi
Tens a ti mesma lacrada como um cofre
Seja lá como p’ra ti isto soe

É tão utópica aquela realidade falsificada
Que me constrange, reprime, me machuca...
É tão real sonhar com mentiras abusadas
No fim é como um soco forte, direto na nuca.

Antonio Carlos Vilela

7 de out de 2007

Nice

Nice
Os olhos acordam no colo do Sol, e o rosto se benfazeja da brisa marítima
Faz essa praia tão distante do meu verdadeiro ser parecer íntima
A menina, fiapo de gente e branca como porcelana de tia-avó
Vai à França, e eu no Rio de Janeiro morro só.

A areia daqui não é branca, e aqui não existem mais aves a gorjear
Um paraíso de filme da década de trinta, como será “Quando Setembro Chegar”?
Não tenho dinheiro para pagar nem ao menos um uísque, estou hospedado no Mirana
Sob guarda-sóis vermelhos brancos e azuis cruzei o olhar à paisana

Tensão dos olhares engajados em um embate psicológico a dois
Os lábios tremelicantes rosáceos tentam esboçar um pressupôs
Dois passos para frente e seus olhos negros seguem meu rastro até o nadir da visão
Sorriso, triunfo, vitória! Ou teria sido a pior perdição?

As asas de Eros me carregam de volta ao ristorant
e não há mais porcelanácea diva ali sentada, é sonho de guri.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

Entre a Fumaça e a Areia

Entre a Fumaça e a Areia
Toda noite acendo uma vela, perto, bem perto da janela
Bate o vento fraco, e sorrateiro rabisca no ar
Entrelaça no azul, dentre as estrelas, a fumaça que rebela
Uns olhares boquiabertos nos bares a berrar

E assim surgem desenhos; criaturas monstruosas
De todas as cores, formas e odores, a rosnar
Feito as berrantes e histéricas mães orgulhosas
Que entre flores, portas e bares se põem a chorar

A vela cospe fumaça, mais fumaça que o suportado
O céu engasga, o céu soluça, o céu se cobre... E chora
Nuvens negras que banham uma menina no telhado
E o céu revolta-se, grita – O céu deprime, mas não agora

Vai chuva cristalina e cinza, apaga o incêndio
O fogo é semente, semente de fumaça
Abafa os suspiros dos desesperados – Que tédio!
A fumaça é fruto do fogo e nunca teve graça

Sons que escorrem pelas rachaduras das paredes
Pintam tudo o que há em preto e branco – naquele quarto vago
Agora é tudo tão alegre, falso e pervertido sobre as redes
Penduradas nas esquinas esfumaçadas deste trago.

Num deserto, a fumaça se confundiria com a areia?
Beduínos que vagam sob sol e sob chuva
Hão de responder minha pergunta – Dúvida alheia
Oh, beduínos calejados de mãos nuas de luva.

Fumaça ao meu redor
Fumaça por todo canto
Já não respiro – sinto um nó
E na areia deixo meu pranto

Durmo na areia e viro fumaça.
Antonio Carlos Vilela

3 de out de 2007

À Uma Gata Branca

À Uma Gata Branca
- 29/07/2007 - 30/07/2007 -
Os gatos... e o frio,
Todos deitados pela varanda;
Olhares impermeáveis brincando
de ciranda
Pelo pêlo quente e macio.
E disse a própria Gata Branca:

“Vos falo dos cantares
E sussurros inaudíveis,
Dos males mais acessíveis,
Das velas que jorram luzes
nos altares.” –
Bocarras férteis e infalíveis

Tornam-se espaços
E chamam de lugares,
Roubam com seus sonares,
Dos desenlaces,o próprio laço...
Crivam de bobas lendas os luares
mais inesquecíveis.

“Vos falo dos cantares
E sussurros inaudíveis.”
Diego Guerra

30 de set de 2007

Recanto das Baleias

Recanto das Baleias
- Meu Paraíso -
Há um eterno azul longe daqui, bem longe
É em outro mundo, mesmo que dentro deste aqui
Onde tu gritas e logo o silêncio te responde
E mesmo na escuridão, imerso, ele sorri.

Navegam por ali as nadadeiras tão brilhantes
Que carregam por ofício o corpo vil do ser que as comanda
São como asas de borboleta, borboletas navegantes
Voam entre as bolhas do azul e naquelas nadadeiras mandam.

Nunca vi este lugar, não toquei naqueles seres
Apenas imagino, e é imaginando que amo aquilo tudo
Consigo até ouvir as baleias exalando seus poderes
Onde sou impotente: cego, fraco e submerso fico mudo.

De onde eu venho há uma pessoa – amo-a
De onde eu venho há além de tudo a religião
De onde eu venho há uma canção – clamo-a
De onde eu venho nunca tive a sensação.

Nunca morri neste mundo planejado
Nasci tantas vezes que até já sei fazê-lo só
Ando descalço sobre o vidro esmagado
E me lembro da canção: tem Sol, um Ré menor, Fá e até Dó.

Antonio Carlos Vilela

29 de set de 2007

O Berro Torto do Homem Semi-reto

O Berro Torto do Homem Semi-reto
Ele sempre diz que o mundo nasce
Das vísceras do homem reto,
Bancado pelo homem reto,
Para ele e somente abrigar.

Diz aos berros: Homem torto!
Pra vir orar vesti-me torto,
Fantasiei-me torto e digo:
Põem a culpa no homem reto!

Lendo o jornal
Homem reto que era torto fica quieto,
Não desmente o destino certo,
E a gangorra é contínua.

Quando termina o berro
Despe-se ainda torto,
Pois não há vestes para praia.
Enfumaçado em sua barba rala
Que se move ao seu berrar.

Agora na larica
Volta reto pro chiqueiro,
Cumprimenta o mundo inteiro
Pois está de volta ao lar.

Sua cama é reta
E os homens retos estão fora,
Sempre rechaçados,
Ganhando seu jantar.
Evandro Sussekind

Do Impulso Ao Fato

Do Impulso Ao Fato
Eu olho o objeto e discorro sobre mim
Olho para ela e discorro sobre mim
Quando finalmente discorro o objeto
Eles discorrem sobre mim
E eu discorrendo eles discorrendo sobre mim, esqueço o objeto.

Então eu grito, mas o silencio contrapõem o grito
Prepotência! Insolência! Suspendi a brasa do peito para a garganta:
Mundo de merda! Pensei para desabrochar a pétala de cada vogal
Optei pela letra A que corria suave e sonora
E tornei a gritar... Venci.

Cruzei as pernas, mas o vento varreu o cenário e minhas vestes
Fiquei nu, sentado sobre a impotência
Desesperado, levei as mãos ao cabelo e não o achei
Tentei com força empurrar as mãos contra a face e não achei...
Nem mão nem face.
Havia então uma goteira no meio do nada
E foi o que restou dos meus olhos.

Foi então que saiu: Eu te amo.
Evandro Sussekind

23 de set de 2007

Ambiente Feérico Número Um

Monstros
- Ambiente Feérico n.1 -

Desde guri temo o escuro, temo a ausência visual de fótons, temo o reverso da luz; o armário que antes só guardava roupas agora esconde em seus interiores bestas lovecrafteanas, a televisão preserva em sua tela um brilho mortiço a lembrança infantil de “Poltergeist” volta furiosa. Mesmo meus cabelos, no frêmito de susto, parecem tentáculos de seres impronunciáveis; os olhos semicerrados percorrem a penumbra lúgubre que envolve o quarto os cabos do computador escalando a escuridão são como matas xenomórficas, sorriem para mim em sua obscuridade. O espelho reflete uma imagem minha, mas não sou eu, nunca tive dentes pronunciados dessa forma e nem um malévolo sorriso que goteja sua perversão; preciso acender a luz, mas ela está distante, do outro lado de um oceano de vácuo frio cujo visar da imensidão faz subir através da espinha uma sensação de vômito misturada à dor.
Esse é o Medo, não aquele medo do qual você pode fugir e que faz seu sistema endócrino despejar Adrenalina na corrente sanguínea, e sim um medo inexplicável, um pânico sufocante um híbrido de ágora com claustrofobia, um terror de existir em um espaço assim.
A porta se abre, e o feixe de luz queima os olhos, mas essa dor inversa fornece paz um rosto familiar configura-se, ouço a voz :
- Ah , ele está dormindo.
A porta se fecha.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

De Irmão Para Irmã

De Irmão Para Irmã
Tenho para mim: emoções, verbos e poesias
Assim como tenho olhos, boca e ouvidos
Escuto, cantarolo, e enxergo a luz dos dias
Mas não ouso piscar olhos sem o riso absorvido

Tão pequena, tão sabida, sob os cachos da inocência
É de um corpo tão compacto que em meus braços faz abrigo
Olha nos meus olhos, vê as lágrimas e logo se intriga
“Você está triste, irmão?” - Não é nada, meu amor, eu logo digo

Diferentemente de todas as outras, está ali...
Dá gargalhadas exageradas, e então sorri!

Joga bola, chega suja... – Como todas as crianças da pracinha
Não sossega, caminha pela casa, incansável, ela só grita
Ela sorri e nenhuma das crianças se compara à minha
Faz bagunça, leva bronca e com a mãe ela se irrita

De voz aguda e gênio forte ela veio ao meu mundo
Não falava, não andava, nem dente ela tinha
E no peito a sensação que bate bem no fundo
Balança-me a cada riso desta linda garotinha

Tuas exigências, tão ingênuas, me penetram os ouvidos
Numa cadência perfeita que faz dela uma princesa
Tão inocente, ainda falta muito até teres crescido
E num dia no futuro o teu sorriso apagará toda a tristeza

Irmão, é assim que me chamas quando pergunto quem sou
Esconde o rosto sorridente quando está envergonhada
Faz um lindo desenho: sou eu - e pergunta: Você gostou?
Digo que sim – Recebo em troca a tua linda gargalhada.
Antonio Carlos Vilela

17 de set de 2007

Cômodo

Cômodo
Adapta-te primeiro a estar entre cobras
Em seguida se adapta a ser cobra também
Não tenta mais convence-te de usar mãos e pés
E agora aos rastejos vai de encontro ao que és.
Evandro Sussekind

13 de set de 2007

Feira

Feira
Que tens aí amigo?
-De tudo patrão. Verdades, promessas...
Tá quanto?
-Uma mentira cada. Vai levar?
Acho que vou sim, pra patroa...
Retirou seus olhos onde guardava seus valores, e ciente do bom negócio seguiu seu cego caminho certo.
Evandro Sussekind

Oito de Setembro

Oito de Setembro
Vaza-me dos olhos o que resta da chuva
E pinga nas rosas, virando vermelho
Confundo com sangue e mancho as luvas
Que enxugam o rosto que vejo no espelho

Deixo um rastro, um rio no quarto
Rolo escadas e inundo meu lar
Vaza das janelas um oceano farto
Afogo-me em lágrimas, afogo-me ao mar

As rosas plantadas aqui logo viram algas
Os velhos pardais ganham escamas
Os carros nas ruas tornam-se baleias
E nós, os humanos, nadamos na lama

Aproximo-me de meu juízo, meu conforto
Distancio-me de meus berros ao nascer
Estou estagnado em um ponto morto
Esperando a maré baixar, só para crescer.
Antonio Carlos Vilela

11 de set de 2007

Palmo

Palmo
As coisas do céu estão de mãos dadas
E os olhares desatados no dia que não se repete.
Até parece que a flor mais especial se abre ao nada
E que os infernos coincidem no que se segue;
Diante a ilusão do mundo ser apenas essa estrada.

Punho, Palmo, pele, e dedos, e rosto...
Dedos que atingem seus “nirvanas” particulares!..
Palmo, como flor que se abre, tinha, eu, posto
Minhas mãos em teus falares.
Tinha seu toque como um esboço.

Diante do mundo que é tudo,
Abres-se como flor ao nada.

Deus existe quando detesto o diabo
Que vem me confundir com dia novo.
Deus existe e compensa os insultos rimados
Com vidas cinzentas ( o povo ).
Deus existe quando detesto o diabo.

Diante do mundo que é tudo,
A flor abre-se ao nada.

Dentro de meu pulmão há um grito
Das vidas que aspirei contigo.
Cada vez que me acordam de um sonho,
Eu sonho com um assassino.

Não entendo como pude eu suportar,
Como pude respirar e crescer,
Como sobrevivi quase dezoito anos
Sem amar,
E quase nunca sem morrer?
Diego Guerra

8 de set de 2007

Máscara [1]

Máscara [1]
Qual a cor do meu rosto?
responda-me se sabes, não esconda
sabes quem sou, o que penso, quem fui...
não esconda, pois se sabes, só responda!

Que detalhes estampam meu olhar esta noite?
Falsas lágrimas, picadeiro - profundo olhar
maquiagem, mentira, amor, raiva, solidão...
Diz a musa: 'Vida longa, meu amor de pés no chão!'

Máscaras ásperas deslizam e denunciam
sorrisos e prazeres - lacrados pelo véu
palavras que por medo silenciam
o fraco homem são que plana pelo céu.
Antonio Carlos Vilela

6 de set de 2007

Poker de Cartas Marcadas

Poker de Cartas Marcadas
A gota resvala do copo e mergulha no verde oceano de feltro
O ar sobe e desce , revoando em tempestade , peito a dentro
Apostas altas se aglutinam , moedas tilintam, é o som do desejo
Possibilidade, ganho, perda são as únicas palavras que no escuro vejo

Vivo pelo dinheiro e por ele sou capaz de matar
Põe-se a frente da mira do meu revólver , no perigo vem refestelar
Whisky sky , as high you fly as fast you die
Quatro ases , quatro balas , sou eu a ultima moeda que cai.

Viva a Sorte!
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

4 de set de 2007

Gato de Cheshire

Gato de Cheshire
Caminhei, sem andar.
Esqueci-me de lembrar,
E hoje nem lembro o meu tamanho...

Já até me esqueci de te achar estranho.
Viagem de ir e voltar... e estou no mesmo lugar.

É preciso lembrar onde estou.
Antes te direi quem eu sou,
Só aguarde eu recordar meu nome...

O céu espelha o mar que consome
Todo o oceano em uma xícara de chá!

Disse para não por o gato diante ao espelho,
Disse para não seguir o coelho...
Mas na verdade não disse nada,

Pois, ao contrário, viajo na direção errada,
E não consigo sentir-me inteiro

Sem antes sentir teu cheiro azul,
Reflete azul mas é quase vermelho nu,
Como o devaneio que gravita as flores.

Não preciso sentir mais as dores
Quando a noite está no meio.

Desenhei tantas criaturas estranhas,
E todas tinham os olhos de aranha,
E todas eram engraçadinhas...

Lembravam-me até nas risadinhas,
Mas não na voz fanha.

O tamanho do sorriso do gato...
Diga-me – por onde seguir? Dá-me um rasto... –
Ele, pôs-se a sorrir com dentes tortos...

Desenhei tantas criaturas, pareciam corvos
E escrivaninhas.
Diego Guerra

30 de ago de 2007

Guerra

Guerra
Sons de guerra, sons de bares, sons de sexo
Corroendo pelas ruas os ouvidos dos moribundos
Que festejam nus à solidão do mais complexo
Anoitecer, o anoitecer dos vagabundos.

Dizem nas vielas que o sol está caindo
Vêm dos céus as explosões – que iluminam esta terra
Chove dor por toda parte... Veja, o mar está subindo
Cai na água a sentinela – fruto vasto nesta guerra

Banham-se no sangue de irmãos, pais e filhos
Nada sabem, nada falam – só escombro
Vejo velhas e mulheres que se caem nos ladrilhos

Tantos homens vão de verde, carregados pelo ombro
Hoje já não canto em meus banhos, pelo que testemunhei
Pois se canto já me lembro destas noites que sonhei.
Antonio Carlos Vilela

29 de ago de 2007

Toda a Fantasia

Toda a Fantasia
Toda a fantasia de volta;
As palavras são ouvidas em dobro
Com as mesmas letras e notas.
O ar respira louco!

E a fumaça, o ar lambe, o ar corta...
Horizontalmente em cores mágicas!
E a vida é mais morta
Que sua própria charada.

Precisar amar o intocável,
Precisar tocar o proibido,
Os olhos que giram parados
Em busca de algo mais que amigo.

Seu rosto rolando pelas temperaturas...
Suas frases (só as verdadeiras)
Que são perfeitas loucuras,
E que serão sempre as primeiras.

Se fujo de seu olhar que me mira,
Todo ponto final pontuará uma mentira.
Diego Guerra

Outra Lágrima

Outra Lágrima
-I-
Oh! Dona pequenina,
Das frias noites vens me consolar.
Conduta de boa menina
Que nem viu o monstro chegar...

Me aproveito dos lábios que você
Deixou em uma noite para mim...
Eu sei que o motivo de não ver
Está ancorado no meu fim.

E é sempre tudo isso que me modifica,
E são nossos problemas que nos unem.
Penso no lugar onde estás, onde ficas,
Aguardo saudoso os teus bobos queixumes!..
-II-
Sua criança magnífica,
Tens pensamentos tão vagos...
Somos eternamente igualados
Pelo que nos sempre multiplica.

Consolo-me, e ainda penso
Em vingar-me de teus abutrezinhos.
Pelos dias que estive tenso,
Fazendo sofás e camas de ninho...

E por ultimo, massageio o seu corpo
Tocando em tantas superfícies,
Sorrindo em seu sorriso, como louco,
E lembrando do que nunca me disse.
Diego Guerra

28 de ago de 2007

Ruínas De Um Velho Louco

Ruínas De Um Velho Louco
Amar como um louco aquilo que cria
Até que um dia o quarto esvazia
E o sorriso do filho põe-se a voar
Na janela da torre em que o vento rugia
Rolavam as lágrimas – juntavam-se ao mar

A tristeza ecoava pelos vãos do portão
E o ombro caído que só tinha a mão
De um velho amigo que tentava ajudar
Um louco perdido caído no chão
Um louco perdido que chorava no mar

Nostálgicas gotas – eternamente!
Por um fruto de árvore desde a semente
Memórias de um louco, que o fazia rir
Que agora marcado com a morte à frente
O transforma num velho, um velho a ruir.

Amar como um louco aquilo que cria
Até que um dia o quarto esvazia
E os corvos cinzentos põem-se a voar
Da sacada mais alta, onde a brisa é mais fria
Caíam os corpos – juntavam-se ao mar
Antonio Carlos Vilela

26 de ago de 2007

Le Voyage

Le Voyage
- Madcap Still Laughs -
Desde sempre, estive pronto para viajar ;
Um tablete sobre a mesa dissolvida na massa indistinguível de cores
Sob a cama, risadas e Boris rolando entre as cobertas, seus consortes Coroa solar obscurecida, galaxoexplosões cortam rotineiras cortinas

Tomo banho, mas é mercúrio ao invés de água ;
Cheira como amônia do mesmo monstro de escuridão e rutilância que a expele
Domitila vomita suas sapatilhas sobre as touceiras de florescentes tílias
A imagem através da janela, são ridículas as pretensões dessa mulher

As vezes danço no escuro e dança comigo a Princesa dos Cisnes Islandeses
Pássaros Negros aprendem a voar enquanto movemo-nos em um dervixe extático
A relva rosada enrodilha meus pés e coça meus dedos, pureza selvagem
Que é como a minha poesia sem rima sem linha só volúpia e violência

Sou Ícaro ; O céu é minha morada então porque pousar ?
Não temo os tentáculos furiosos de Soleil-pére pois frondosas são as asas minhas
Asas são pílulas , a cera é whisky e Dédalo já está morto a incontáveis eras
Erínias , rogueis por mim.

Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

22 de ago de 2007

Ocaso

Ocaso
(um soneto de amor)
Já me cega os olhos negros uma vasta bola de fogo
A mesma queima o solo e o céu furta-cor
De um horizonte que abriga o som das aves em galhos ocos
E enlouquece os mortais em breves contos de amor

São doze horas sob um céu incendiado
Enfurecido pelas dores que o tempo provocou
Um triste astro solitário apaixonado
Deveras chora sobre a terra que o amou

Os velhos que por lá viviam nos deixaram testemunhos
Narrativas sobre uma tragédia que destinos abalou
E os crentes deste romance que hoje selam punhos

Hão de sempre olhar para as nuvens que o astro abraçou
O Sol se foi, deu vida à nova Lua – sobre o azul de um mar imenso e raso
E às cinzas do incêndio eterno de nossa existência, a vida se resume ao ocaso.
Antonio Carlos Vilela

19 de ago de 2007

Telefone

Telefone
Acordo; e sou um Telefone no Largo da Carioca, sou uma armadilha para o cidadão comum.

Acordo; e sobre a cama mulheres cujas faces eu não lembro de ter visto, e a boca tem gosto de vômito e a cocaína ainda forma trilhas pelo chão mas, não sou eu. Sou apenas um Telefone no Largo da Carioca.

A tarde ruge; e o Sol fosco da zona Sul em um dia nublado corta as cortinas , e a filha de treze anos do síndico está em minha cama , nua dizendo obscenidades em meus ouvidos , mas não em meus ouvidos pois sou um Telefone , ou acho que sou.

Ipanema, a noite eu caminho pela praia , tenciono seriamente estuprar uma mulher é um desejo recorrente . Sou um Telefone , distante dali.

Quando olham para mim , vêem um homem perfeito ; e sou um monstro acuado em meu mundo de crueldades escondidas , a personificação da farsa , um telefone .

Vazio , de um lado palavras , do outro mais palavras uma dimensão que não existe , impulsos elétricos .

Sou um Telefone no Largo da Carioca.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves - after hiatus.

17 de ago de 2007

A Um Poderoso Rei

A Um Poderoso Rei
Finge que não ouve meus apelos de criança
Só porque o teu sorriso é de um velho sedutor
Fala coisas, ri pra mim... manda lembranças
E no fundo é a besta travestida de criador.

Antonio Carlos Vilela

6 de ago de 2007

Isto não é um poema nem musica,é saudade!

Depois de Monique, meus olhos se perderam
Pior que cegos, estão mortos passivos a qualquer movimento.
Depois de Monique, não sinto mais os cheiros, quando não o dela só o odor de minhas entranhas secas, me lembram o que há no ar.
Depois dela não mais sou homem, visto que perdi a fala (que sem ela não se dirige a ninguém), os vícios (que sem ela perdem sua fonte), e os desejos (que sem ela nem existem).
Depois dela, já não mais me compete minha personalidade, muito menos meus poemas, os meus cabelos ao vento são mais dela do que meus e meu espírito esta lá com ela traindo o próprio corpo.
É difícil para um cético declarar... depois de tanto desdenhar a vida

É de amor que eu estou morto.
Evandro Sussekind

5 de ago de 2007

O Conflito

O Conflito
-I-
O que há no fundo deste copo?
O resto de um veneno
Vejo pessoas em retratos, fora de foco...
E silhuetas de um homem escrevendo
-II-
- Crucifiquem o homem a chorar!
Grita, em êxtase, o comandante de mim.
- Mate se por acaso ele lutar!
E como geme aquela boca de marfim...

Os soldados, todos cegos, surdos, mudos...
Não percebem, mas apagam as próprias vidas
São bonecos usando fardas e escudos

São tão puros, e são meus
Frutos de minhas loucuras benditas
Onde sou plebe, sou rei e sou Deus.
Antonio Carlos Vilela

4 de ago de 2007

Prelúdio Ao Velho Desolado

Prelúdio Ao Velho Desolado

Eu nunca tive medo, e se tive, não tive medo de esconder. Logo percebi que eu era homem frio, destes que se balança na hora do desespero a perguntar se nada sente ou tem a dizer.
Nunca dialoguei e sempre me comuniquei por gestos, nunca olho no olho e sempre um degrau acima. Enojava-me o sangue latino,quando me perguntavam sobre minha origem respondia como que fora de contexto a minha descendência,minha mãe que aos sábados cantava músicas deste país que eu desdenhava logo viu: você tem sangue frio moleque, e quem tem sangue frio nasce pra ver sangue, ou vira bandido ou vira doutor.
A velha estava certa, como sempre esteve, e nunca errava talvez por trauma do seu erro fatal: meu pai.
Tornei-me doutor, não só isso como um dos mais conceituados, trabalhava ora no estado, hora por mim mesmo, e foi na emergência de um hospital desta terra seca onde vivo que o episódio se passou.
Na minha hora do almoço eu me negava a almoçar, talvez pela qualidade da comida do hospital, talvez pelo vício em estética que herdara do meu pai fazendo-me sempre querer emagrecer. Como não lia com gritos, já não trazia livros para entreter-me há tempos então me limitava a andar pelos corredores no desejo de colocar um charlatão europeu em meio aquele lugar dantesco e perguntar-lhe como estava sua estadia no inferno, quando o que eu mais queria era ser um charlatão europeu. Ariano e residente no céu. E foi em um dia destes que aconteceu.
O cabelo dividido em paralelas de gel bem alinhadas para traz, não mentia sua idade, via através das mesmas, vestígios de sua careca branca. Na face, a pele se dobrava sobre a pele, como que fugindo de seu astro maior: o par de bilhas azuis que levava na cara a saudar o nariz longo de ventas largas. Sua boca já sem cor não me deu menos que o único sorriso puro que já recebi em toda minha vida, sucedendo-se então pela fala:

-Porque não se senta?
Sua voz possuía aquele sarcasmo inocente dos anciões que vivem para fingir a inocência mesmo quando a vida já lhes é um jogo ganho. Persuadido pela sua doçura sentei-me e perguntei:
- que faz aqui meu senhor?
Ele respondeu:
–agora apenas ocupo espaço
-Espera por alguém? (perguntei sarcástico olhando para os lados)
-Não mais, o amor de minha vida acaba de falecer no quarto em frente e agora acredito resumo-me apenas a ocupar espaço.
-Deseja que eu chame um táxi? Perguntei-lhe já demonstrando sinais de impaciência como que para demonstrar que ele não era o único do tipo que via por dia e que outros haveriam ainda no mesmo dia a chamar-me para sentar e ouvir sua desgraça momentânea e minha maldição diária.
-Não. Ele respondeu já darei muito trabalho aos senhores. Vocês médicos devem saber cedo ou tarde como pesa um cadáver.

-Bom. É um dia difícil para todos nós, mas não sei se compensa as dezenas de mortes que já vi de indivíduos que nada tem a ver comigo com a sua única morte vista,que porém leva consigo o seu existir.

Ele riu, e disse mudando de assunto: nunca pensei que ela se fosse antes de mim, ainda tinha a força da juventude, as ancas que me trituravam o sexo, e os olhos que antigamente bailavam com os cabelos mais negros que a noite.
E eu disse já aflito, mas ainda em baixo tom: levante-se homem nada mais tem a fazer aqui.

-Não mais levantarei. Estou à espera de alguém, ele declarou.
-que alguém?
Alguém que acaba de chegar... Meu ultimo suspiro
Fiz cara de compreensivo, mas logo vi que não havia mais ninguém ali para me observar a face, agora ele era um cadáver, que em um relance se enamorava e dialogava com seu ultimo suspiro, e eu compreendi saindo dali que aquilo não era dialogo para três...
E eu tinha uma tarefa árdua agora... Achar um amor para a vida toda.

leia o poema abaixo para conclusão...

O Velho Desolado (sobre os tempos de cólera)

O Velho Desolado
(sobre os tempos de cólera)
Meu ultimo suspiro, há quanto tempo tenho esperado por ti.
Tornei-me para a família um estorvo e logo quando tudo se torna claro, ninguém ousa escutar.
Esperei tanto pelo momento que sentaríamos juntos a rir.
Mas agora todos temem minhas conclusões e chamam inlucidez a tudo que lanço no ar.
Trai muitas damas e muitas delas em meu peito esqueceram os amores passados.
E como se eu estivesse à vida toda nesta posição estado me chamam apenas de o velho desolado.
Sabe suspiro, também senti falta, também chorei, e mesmo exemplo de frieza achei inconscientemente que você nunca viria para mim.
E dentre tudo que imaginei como morte, nunca cogitei um dialogo tão simples assim.
Ah! Suspiro, do seu tipo conheci diversos
De guerra, de alegria e os proibidos de damas que seduzi pela cidade.
Venho respirando em cólera para apressar sua chegada
E neste ultimo momento crio paixão pela obra-prima de que fiz minha vida, cada pessoa e decisão frustrada.
Neste ultimo momento vejo que certas batalhas são inúteis e crio curiosidade pelo inevitável.
Vejo que lutaria as mesmas lutas novamente e desconsideraria a palavra inviável.
Ah! Gostaria que minhas paixões narcísas aceitassem meus inúmeros pedidos para bailar na chuva.porém isto seria outra inútil luta.
É suspiro eu tenho um compromisso e você sabe disso.
Esta na hora de me erguer desta velha poltrona, não em corpo, mas desta vez em espírito.
Sabe suspiro, não tenho mais idade e isto impossibilita meu ultimo desejo.
Algo que me prometi ainda menino
Sem realizá-lo não morro, então não peço ordeno que cumpra este ultimo favor.
Abrace-me e me possua suspiro, pois em nome da morte que concebi digna, seja meu ultimo amor.

Evandro Proença Sussekind

Teu Dom De Errar

Teu Dom De Errar
Fingir... é o que sei fazer
Mentir... é um de meus pecados
Mas de que vale sorrir, se é mentira?
E fingir já não é mais errado...
Acreditar... é brincar de prometer
Machucar... é conseqüência previsível
Mas se minto e não demora p’ra chover
A tua falsidade deixa um rastro mais visível
Lamentável, lamentável, jovem Lua!
Mentes, finges e machucas
Justo a mim, que sou poeta e teu amante!
Bravo, bravo, dama nua!
Machucas, finges e mentes
E não vês as lágrimas por trás de minhas lentes.
- Eu finjo também, e até hoje rio desse dom que tens de errar.
Antonio Carlos Vilela

Cegos

Cegos
O cego é o mais forte dentre os homens,
faz canção dos soluços lacrimosos...
fecha os olhos, e as imagens logo somem
e os verbos vão soando rancorosos!

Os cegos são os mais fortes dentre os homens,
não podem ver o sorriso de mulher...
e nem lembrar das risadas que consomem
o frágil homem, que não cego, que é homem
é sempre fraco... só enxerga o que quer.
Antonio Carlos Vilela

1 de ago de 2007

Manhã

Manhã
Na já tão sabida chícara vou de encontro à utopia
No reflexo desamputo o meu mundo do de lá
Na janela que só eu vejo magia
No jornal que só eu vejo mudar

Nas árvores que só se curvam sobre mim
No mundo de Alice onde eu sou diplomata
Faz-se vivo o chão de prata
Que Maria vai encerar

Na floresta de pinheiros e espelhos
Tudo vivo - dá no mesmo
Gêmeo suicida gêmeo
Porco escraviza porco

No mundo ventania
Vai Maria vem Maria
Em infinitos de varrer
Em ordens e progressos

E o amanhã de lá
Eu mesmo já prevejo
Maria vem Maria vai
E o jornal continua o mesmo
Evandro Sussekind

31 de jul de 2007

Longe [1]

Longe [1]
Deságuas de meus olhos!
Vá vasto rio – reluzente, meu amigo!
Vens de longe, não entendes os relógios.
E da saudade eu fujo, e sem abrigo...

Vem! Tenho no colo os teus filhos
São tão belos, e com olhos tão distantes
Têm a tua graça, quando riem dos ladrilhos
Que refletem teu retrato na estante.

As gargalhadas de um louco, que tu cuspias
Fazem marca na ausência do teu eu
E a certeza de chorar quando sorrias

Está contida num momento que morreu
Longe de mim, das crianças e do amor
Tem no teu túmulo uma rosa, minha flor.
Antonio Carlos Vilela

27 de jul de 2007

Relance

Relance
(sobre os tempos de cólera)
No desdém por mim mesmo encontrei-me perdido
Desfiz-me dos pontos delineantes do eu
Na incoerência com o espelho do inconsciente ambíguo
Pus frente a frente à magia cética do fantástico ateu

Nos lobos de Hesse encontrei-me vagando
Nos peixes de Hemingway reconheci os meus
Dizendo que céticos não desequilibram balanças
O demônio ao acaso me nega entre os seus

A esperança de praxe se vê imortal
Sendo a ultima viva quem a vê morrer?
Coloca-se nua sem medo banal
Vendo que cadáveres não vêem acontecer

As herdeiras do tato dizem para eu não me perder
Estas minhas mãos sempre tão maternas
Só se soltam de mim para em ti se entreter.
E minha mente ingrata em direções incertas

Não suporto minha própria presença
Porém admito sou insistente
Reneguei-me deveras umas mil vezes
E mesmo assim permaneço presente

Despeço-me assim, respirando em cólera
Deste relance que agora eu julgo assim
Infinito aqui e finito lá fora
Dando largada ao prelúdio partindo do fim.
Evandro Sussekind

25 de jul de 2007

Amizade Expressa

Amizade Expressa
Já escrevi em tantos versos
aquilo que tanto senti
já escrevi pelas paredes
os motivos de não rir

Com teu nome trocadilhos eu fiz
em gratidão aos abraços que me dera
o teu nome escrevi com um giz
nas paredes que um cubo encarcera

Suaves lágrimas já vi em teu olhar
em pouco tempo estendia meus braços
suaves lágrimas eu pude enxugar
e em troca recebi teus abraços

Já hoje, é tão raro falar de biologia
pois eu não tenho a minha cara peça
foi contigo que em tão pouco tempo eu já ria
sinto tanta falta da nossa Amizade Expressa.
-Em dedicatória à Luna.
Antonio Carlos Vilela

23 de jul de 2007

Dose de Mel

Dose de Mel
Senta aqui, vamos conversar...
Esperar o nosso copo precioso
Gastar o que podemos p’ra voar
Estender esta conversa até o gozo

Estátuas vivas – belas e humanas
Fazendo-nos mergulhar em nosso irreal
Não existem para nós as razões planas
E tropeçamos um no outro afinal

O êxtase de tudo – dominando
Nossos corpos são apenas marionetes
De quem? – Demônios em nossas vistas ofuscando!

Somos loucos no momento em que repetes
“Senta aqui, venha olhar p’ro céu...
Pegue mais um copo e uma dose de mel.”
-Em dedicatória a Diego Guerra

Antonio Carlos Vilela

O Tango

O Tango
Tu em rubro – sangue rei
Dançante a desarmar
Ao momento que a chamei
P’ra no salão me acompanhar

Som latino – quente à pele
Musgos olhos, derme clara.
Peço a ti que te reveles
Quero o beijo que roubara

Bailarina incendiada
Joga o corpo nos meus braços
Ora moça imaculada!
Que se ilumina em nossos laços

Fora curto o tal romance
Foi apenas uma dança
De tão brava a breve chance
Só me resta a lembrança.
Antonio Carlos Vilela

18 de jul de 2007

Cecília

Cecília
Cecília ;
É uma mulher que ainda não achei entre as brumas do mundo
É algo híbrido de Regina Spektor e de Albert Einstein
É ultima canção que se ouve antes de dormir por fim
Luminescência no prumo noturno é reflexo de seu olhar .

Cecília ;
Seus cabelos lisos emulam uma eternidade negra contida em Chanel
Parfum de seu corpo arranca da natureza suas plurisensações
Delicada respiração é uma brisa que sopra as penas dos anjos
Mais uma de muitas perdições romântico-incorporadas.

Cecília ;
Fleuma para com sua presença soa como uma impossibilidade
Encantora canção moldada em dissonantes microtonalidades
Poderia ser Juliana , Fernanda , Rafaela ou Maria Emília
Na roda do destino o dedo sangrado escolheu Cecília.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves
- viva zapata !

15 de jul de 2007

Rock'n Roll - by Antonio.

Em homenagem ao dia do rock, por mais que atrasado eu esteja, postarei aqui cinco dos meus discos preferidos; com passagens de geração e tudo mais, enfim [isso não é necessariamente um ranking] :

Internacional

1º - The Beatles - Please, Please Me => Atualmente o que mais ouço dos rapazes de Liverpool.

2º - The Small Faces - Ogden's Nut Gone Flake => Sem comentários.

3º - Pink Floyd - Meddle => É o que ouço no momento desta postagem matinal.

4º - Muse - Black Holes And Revelations => Entrando no século XXI agora! Álbum perfeito, música boa da primeira até a última faixa.

5º - The Strokes - First Impressions Of Earth => Atualmente o mais tocado no meu player também, apesar de que strokes quando ouço, eu ouço os 3 discos direto [sem muita preferência entre eles, afinal, Strokes é Strokes].

____________________________________

Nacional

1º - Faichecleres - Indecente, Imoral E SemVergonha

2º - Los Hermanos - O Bloco Do Eu Sozinho

3º - Anacrônica - Deus E Os Loucos

4º - Canastra - Chega De Falsas Promessas

5º - Tequila Baby - Ao Vivo Dia Mundial Do Rock

14 de jul de 2007

Trajetória Retilínea

Trajetória Retilínea
A Trajetória da Vida ;
O homem por ser homem revirou a frente da casa as entranhas famélicas
Os habitantes vieram contemplar o espetáculo de amuada e solitária mortificação
O filho mais novo viu e padeceu nos beijos vítreos do encanto insano da Lua
O filho mais velho transformou o nojo em força e riu do pranto meramente humano.

A Trajetória da Vida ;
De rua em rua , de beco em beco humilhados e ofendidos levantam-se para um novo dia
No Paraíso à cabo pássaros cantam sem nenhuma nota hesitar em seu réquiem de engodo
E o filho mais novo diz aos pais que não quer trabalhar que prefere a vida de poesia
E o filho mais velho escarnece apenas para morrer logo orgulhoso de ser morto em prol do(e) seu (s) paí(i)s.

A Trajetória da Vida ;
Cirandas que não giram formam filas indianas de crianças plenamente doutrinadas
Os olhos observam de suas torres e seus raios tentáculares turmalinescos fagocitam
Fagocitam o que lhes parece ameaçador , o fazem alimento para a nova e bela estupidopia
E mais um homem e suas entranhas famélicas a se revirar a frente de casas no súburbio mental.

A Trajetória da Vida é Retilínea , ao passo que é uma infinita reta portanto é um círculo o que caracteriza sua tragédia repetitiva.
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

Toda Fantástica

Toda Fantástica
Tocava sua pele e me perguntava...
Sempre soube; quando me ordenavas
Para tomar de vez teu corpo,
Em braços meus que te apanhavas...
Havia sobre tua cabeça, no ar, verdadeiro estorvo – O que me complicara. –

Era, ou parecia-me, um imenso castelo...
De fato era um armário, um armário falante.
De alguma maneira, tu falavas de modo tão belo,
Falavas mais até que o móvel; falar elegante e singelo.
Tuas palavras cheiravam, e no ar, em instantes

Pelo meu cérebro e algumas células simples, fui encharcado,
Por turbilhões de letras e frases cortantes, fui rimado
Com o final do que acabara de dizer – E ela disse o que eu odiara. –
Mas tarde – de frente, não mais de lado,
Diferentemente – disse o que eu adoraria ouvir.
Com um sorriso encabulado morri ( e dessa vez não de rir ).

Somos! Somos ! Somos!.. Unificados, desde o inicio,
E você sabia...
Mas é claro! Existem o teu armário, tuas palavras, e meus vícios.
Além de as velhas alucinações vadias.

Confesso que já quis ser tudo, ou muito,
Mas continuo não sendo nada além de mim...
É um esforço enorme que em vão deixa-me assim;
Cego p’ra ver o que sou, mas não mudo.

És existência tão subjetiva
Quanto uma metáfora relida, e relida outra vez.
Tão fácil e reprimida de um olhar de seis em seis.
Acho que até pensaria
Em matar-me por você,
– Repensando a sentença – Iria,
dar-te uma carta, um punhal, e uma mágica
Para que toda fantástica deixasse se fazer.
Diego Guerra

13 de jul de 2007

Máquina

A Máquina
Carbono ;
Olhos de diamante vêem além do que a fragilidade da carne pode conceber -
Pele fria , é lâmina para o toque de trinta e cinco graus nascido de outro humano -
Sem diálogos inúteis sem instruções que não levam a lugar nenhum sem amor -
Reside na solidão procurando seu proposito ; para nunca encontra-lo

Carbono ;
Olhos celulares , bastonetes e cones , multiplos espectros de luminosidade virtual -
Pele quente , é conforto fútil alegoria para a procriação da destrutiva homosapiencia
Verbetes que tudo representam , o influxo de sons usado para morrer e matar
Reside na solidão procurando seu propósito , para definhar antes de encontra-lo

Nada humano ;
supera o sofrimento humano .
Jean Felipe Limoeiro Gonçalves

12 de jul de 2007

Aqueles Gritos da Noite

Aqueles Gritos da Noite
Quando finalmente a noite chega,
Começa então a brincadeira.
A poeira é devolvida à sujeira,
E a vela não está mais acesa!

Os padres nos libertam
Com chaves moldadas no sangue.
E no ponto mais infame,
Palavras como flechas nos acertam!

Saímos com os rostos certos,
Sim, os que amedrontam!
Mesmo assim são os belos que os afrontam;
Ingênuos, devíamos ser mais espertos...

Na noite é tu quem dormes...
Respiro teus sonhos na lenha!
Pouso, demônio nu enorme,
E peço-te que me diga a senha!

Os gritos que te apavoram pela noite,
E a casa que faz tudo parecer seguro,
Os gritos que te apavoram pela noite
São princesas inertes no escuro.

Ah! A luz do sol... Brisa incolor, divindade!
Decepciona-me quando o diabo brinca com o fumo.
A noite é palco dos crimes e o dia revela a verdade...
Revela como foto que o trono é eu quem assumo.
Diego Guerra

11 de jul de 2007

Desejos

Desejos
Lá vem ela aos beijos com seus fulanos
Abrindo portas como musa divinal
Ostenta nos seios os prazeres desumanos
Jorrando em nós o veneno mais fatal

Não há justiça mais real que se seu julgar
Que mesmo hipócrita é palavra santa
Justiça farta – permaneço a mergulhar
Neste oceano que em teu corpo é uma manta

Estou aos prantos numa sala – Oh, solidão!
Que me mastiga feito o lobo mais voraz
Mas não lhe digo que me dói o coração
Pois este eu dei para ti há tempo atrás

Seja esta vida um túnel sem louvor
Não existe raça que acalme minha mente
Sendo esta vida uma vida sem amor
É com frieza que dois passos dou p’ra frente

Passou o tempo em que nós éramos um par
Não temos vida, pois há só desilusão.
Passou da hora; não há mais o que encarar.
São duas pedras empoeiradas no porão

O infortúnio é a nossa decadência
Culpando nossas dores, impunes nefastas.
Não passa de pura aparência
Estamos isolados e fracos em nossas castas!

Sim, desejo acima de tudo,
Que o destino se revele
Seja cego, surdo ou mudo
Mas que esteja em nossa pele

Nosso retrato continua onde estava
Do mesmo jeito que você sempre deixou
Ao lado deste, o relógio que usara
- O tique-taque permanente acabou!
Antonio Carlos Vilela

Aniversário de Jean, o Jay.

Jay e Godô - by Fil
TRÊS URRAS PARA O JAY!
HIP HIP URRA!
HIP HIP URRA!
HIP HIP URRA!


TE AMO MEU CARO.


[for those about Jay, we salute you!]

10 de jul de 2007

Novo Ciclo [2]

Novo Ciclo [2]
Perde-se o asco,
Perde-se o medo,
Perde-se o sorriso, o retrato, o segredo.
Os segredos desvairam-se...Transformam-se em fábulas,
E as mentiras são também registradas,

Não há nada tão mentiroso
Quanto uma frase.
Hoje que é um dia novo...
Amanhã acredito no dia que trazes.

Perdi o asco.
Minha embriaguez natural
Condena-me a amar,
E minha tortura matinal
Desatina um olhar.
Perdi o asco...
Sonhei com o que vinha,
Sonhei a vida toda,
E essa vida toda era minha.

Chorei e cuspi Pelo que serei,
E depois sorri!
Porque nunca mais verei
A chuva e o sol em seu rosto reagir.
Perdi o medo...
E ganhei motivos para temer para sempre.
Amo nem que seja cedo,
Nem que em segredo...
Cada amor diferente.
Diego Guerra

O Velho

O Velho
-I-
Oh sintonia, a que eu amo!
Confesso-te embriagado
Em teu santuário, a minha alma eu derramo...
Pois choveu, a noite é curta – estou molhado...

Estive em lugares onde nunca pisei
Foi o relato de um velho ao meu lado,
Foram histórias que jamais esquecerei...
Pois me mata insanidade! – estou errado...
-II-
Dizia ele - “está frio e chovendo...”
Eu era a sombra, em silêncio o encarava
Mas ele ria e ponderava - “está vendo?”
E com o tempo mais o pano ele apertava

“Minha amada é quem fez este pra mim
O seu jazigo não tem mais aquelas mãos
Fez uma úlcera, sem ela esse é o fim
Só tenho ao pano e a caridade de irmãos.”
-III-
Ele amava, ele sofria – isto é comum.
Era sensível, delicado – uma flor.
Estava velho, acabado – era mais um.
Mas tinha alma e os dedos de um pintor

Fizera quadros que Monet invejaria,
Era um gênio – infeliz em decadência
Não era louco, muito menos um artista.
Era uma peça condenada à existência.
-IV-
Ele pedira pra apagar a luz da noite
Enamorado por seus olhos aceitei
Fui punido por lobos anjos ao açoite
E sangrando, a Deusa Lua sacrifiquei.

Entrego-te, Oh sintonia, o meu corpo,
A minha alma, meu poder, o meu voar
Entrego-me, Oh sintonia, estou morto
Ao ver a tarde virar noite sem luar.
Antonio Carlos Vilela

9 de jul de 2007

Aqui começa a saga de nós três.